Bolsonaro na reunião de cúpula do G20: o desmancha roda
A patética presença e deprimente participação do chefe de estado brasileiro, Jair Bolsonaro, na reunião de cúpula do G20, grupo que congrega lideres representantes das 19 maiores economias, avançadas e em desenvolvimento, do mundo, mais a União Europeia, realizada na cidade de Roma, no final de outubro de 2021, foi marcada pela quase ausência.
A constatação de o presidente não ter perseguido qualquer aproximação de expoentes da política mundial e, ao mesmo tempo, nenhum deles o ter assediado, explica a inédita lacuna nacional na discussão de complexas questões econômicas, sociais e ambientais, em escala global.
Sem ter absolutamente nada a oferecer em possíveis diálogos com os demais chefes de governo presentes no encontro, o mandatário brasileiro desempenhou papel de figurante ou, o que é mais vexatório, o de um verdadeiro “desmancha-roda”, expressão empregada pelo economista Luiz Eduardo da Veiga Sebastiani, Ex-Secretário da Administração, Casa Civil e Fazenda do governo do Paraná, dentre outras atribuições públicas importantes.
Com a agenda oficial deliberadamente esvaziada, o comandante do poder executivo do país desnudou a flagrante falta de capacidade e habilidade de sua equipe na formulação de sugestões para a minimização ou equacionamento das principais mazelas que afetam a população do planeta, agravadas pelos desdobramentos da pandemia de Covid-19, de forma heterogênea geograficamente.
De fato, ao preferir adotar o “isolamento social” ou o comportamento de um mero turista internacional, bancado com recursos públicos, o presidente perdeu nova oportunidade para o exercício de melhor entendimento do funcionamento das engrenagens da redesenhada geopolítica mundial, marcada pela ascensão chinesa, recuperação do protagonismo progressista norte-americano e permanente exacerbação das tensões no Oriente Médio, e a elaboração do diagnóstico e escolha do respectivo encaixe brasileiro nesse ambiente modificado.
Não bastasse a opção pela postura de acomodado ocupante de um assento, com algumas incursões andarilhas por bastidores do evento, abarcando diálogos com garçons constrangidos, o mandatário nacional insistiu em demonstrações de comprovação da indiscutível linha marginal trilhada pelo Brasil no cenário internacional, especificamente por meio da explicitação de informações triunfalistas equivocadas a respeito do curso conjuntural recente, experimentado pelo país, o que, deve alargar o conceito ruim e a avaliação cética conferida por observadores externos.
Em rápida abordagem informal ao presidente de extrema direita da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, minutos antes da foto oficial dos líderes, que antecedeu a abertura do encontro, ao ser indagado acerca da situação brasileira, acompanhado do ministro Paulo Guedes – aquele mesmo que prometeu liberalismo e entregou demagogia -, Bolsonaro sublinhou as dificuldades do cargo e o apreciável apoio popular.
Também destacou a forte recuperação da economia, a intolerância da imprensa – queixa bastante apropriada para alguém continuamente dedicado à interdição dos fluxos de informações, das instituições e do debate democrático -, e afirmou que conduz um governo absolutamente imune às pressões e concessões de natureza política, prestigiou as corporações militares e, apesar de ter um problema na Petrobras, estaria se empenhando na quebra de monopólios.
A cruzada contra a estatal traduz o inconformismo do chefão em face do impedimento de interferência na governança da empresa, que, por sinal, não obstante ter o monopólio extinto em 1997, no decorrer do mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), não sofreu investidas relevantes de novos concorrentes.
É fácil perceber o preço pago pela irresponsável “poção mágica” de abdicação da tarefa de governar e tentativa de propagandear conquistas utópicas, que serve apenas para macular a imagem do país na fronteira internacional e afastar potenciais interessados na efetivação de aportes de inversões produtivas.
Ao negar a condição de estagnação cíclica da economia brasileira, verificada desde o começo de 2017 – quando foi identificado o fim da maior recessão da história republicana -, agravada pela precária gestão dos desdobramentos da crise sanitária, em paralelo a um estágio de inquestionável retomada global, ainda que disforme espacialmente, o titular do governo brasileiro emitiu uma espécie de passaporte internacional de crassa incompetência, dada a impossibilidade prática de apresentação do comprovante de vacina.
A propósito do desastre sanitário, não houve qualquer aceno presidencial ao comportamento oficial no enfrentamento da evolução do surto de Sars-CoV-2 e na empreitada de imunização, objeto dos trabalhos da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), recém-concluída pelo Senado da República, e que deixa o governo em posição, no mínimo, desconfortável.
Em sua discreta aparição no G20 Bolsonaro também comprovou pleno desconhecimento da fragilização dos indicadores sociais da nação, notadamente a acentuação do desemprego, informalidade, miséria e fome, inflação e juros e declínio da renda das famílias, do consumo e dos investimentos, consequência da não preparação e discussão coletiva de um projeto de desenvolvimento de longo prazo para o país, imprescindível à definição dos ganhadores e perdedores diretos dos desejados tempos virtuosos.
Bolsonaro também se esqueceu de comunicar que o fôlego econômico produzido desde a entrada do Novo Coronavírus em terras brasileiras, é fruto de forças alheias a seu governo, particularmente o bônus das commodities, precipitado pela rápida e firme recuperação da economia chinesa, e o socorro financeiro às famílias pobres, empresas e estados e os dispêndios extraordinários em saúde, concebidos e aprovados por oportuna e coordenada ação do parlamento.
Daí a trajetória de progressiva corrosão da aprovação popular ao time de Brasília, liderado pelo presidente – o que pode inviabilizar o sonho de reeleição ou até as chances de disputa de um 2º turno no pleito de 2022 -, cujo esforço de reversão exigiu o estabelecimento de laços promíscuos com a velha política, conduzida pelo bloco parlamentar Centrão, que Bolsonaro teima em afirmar que rechaçou desde criancinha.
Se, de um lado, o aceite de incestuosas relações com o fisiologismo e patrimonialismo, reinantes em parcela do legislativo, garante o cumprimento do mandato presidencial, sem riscos de aceitação de impeachment pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de outro constitui o estouro da bolha fiscal – com o furo do teto de gastos e o calote dos precatórios, para a cobertura do programa social populista, ampliação do fundo eleitoral e multiplicação de recursos para atendimento das emendas de interesse dos amigos do rei – e, por extensão, explosão da dívida pública.
Os sintomas dessa grave patologia repousam na excitação dos ativos de risco, sintetizada na valorização do dólar e dos juros futuros e queda do preço das ações, com repercussões na escalada da inflação e retração dos níveis de atividade.
Seu tratamento e cura requerem a restauração da credibilidade da política econômica, ancorada na identificação e adoção de medidas direcionadas a abrandar os elementos exógenos e debelar os focos domésticos de subida de preços. Tais ações deverão ser reforçadas por políticas de transferência direta de renda aos componentes do piso da pirâmide social.
Trata-se de um esforço anticíclico amparado na manutenção do Programa Bolsa Família e renovação do auxílio emergencial, até a identificação de sinais consistentes de retomada da produção e do emprego, o que, por seu turno, exige estratégia do executivo e sintonia fina com o legislativo.
Nas difíceis circunstâncias atuais, a celebração do compromisso com a verdade, pouco provável, diga-se de passagem, seria um bom começo.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.
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