Bolsonaro: queda de popularidade e sinais de desembarque em 2023
A mais recente pesquisa de opinião, realizada pela Genial/Quaest, entre os dias 03 e 06 de novembro de 2021, junto a 2.063 brasileiros eleitores, corrobora o derretimento da aceitação popular à administração de Jair Bolsonaro, em todas as áreas de observação e quesitos de investigação.
De acordo com o inquérito, 56% dos entrevistados avaliaram a gestão governamental como ruim e péssima, contra 53%, em outubro, e 46%, em setembro. Em contrapartida, a aprovação à atuação do presidente, identificada pela anotação dos conceitos ótimo e bom, caiu de 23%, em setembro, para 20%, em outubro, e 19%, em novembro.
Enquanto as preocupações da população com a crise sanitária (pandemia) exibiram rota cadente, explicada pelo avanço da vacinação, a despeito do descaso e barreiras oficiais, declinando de 41%, em julho, para 36%, em agosto, 28%, em setembro, 24%, em outubro, e 17%, em novembro, as aflições com a economia subiram de 28% para 32%, 42%, 44% e 48%, respectivamente, no mesmo intervalo mensal de investigação.
Na verdade, as sondagens qualitativas vêm apenas captando o salto das inquietações socais em face dos efeitos das ações improvisadas, adotadas em especial pelo ministério da Economia, incapazes de resolver, ou ao menos abrandar, as distorções estruturais apresentadas pela nação, agravadas com os enormes impactos ocasionados pelo surto de Sars-CoV-2, maximizados pelos sucessivos erros cometidos por comandante e comandados do Palácio do Planalto.
A falta de visão e iniciativas estratégicas voltadas à formulação, negociação politica e discussão de um projeto de longo prazo de nação, imprescindível à definição do tratamento adequado das mazelas conjunturais e inserção competitiva do Brasil no ambiente global, delineado pela 4ª revolução industrial, ancorada na digitalização e inteligência artificial, tornou o país presa fácil do retorno da indesejável de estagflação, definição do ambiente de convivência perversa entre inflação e estagnação econômica ou recessão.
Em outras palavras, o desinteresse em conhecer a complexa lógica de funcionamento das engrenagens da matriz política, econômica e social brasileira levou as autoridades a desperdiçarem as chances de revisar e dar prosseguimento ao bloco de reformas institucionais, retomadas no curto mandato de Michel Temer, cruciais à devolução da operacionalidade ao Estado, impulsão da eficiência privada e diminuição da desigualdade na apropriação do produto social, amparada na consolidação e alargamento dos programas públicos de transferência de renda.
As essas graves omissões somaram-se as escancaradas e deliberadas intenções e concretização de desmanche das fortalezas erguidas pelo governo anterior para a superação da maior recessão da história, verificada entre abril de 2014 e dezembro de 2016 – a despeito do mergulho em um pântano de estagnação cíclica dos níveis de atividade -, obtenção de marcha inflacionária cadente e esboço de ajuste fiscal, especificamente com o teto de gastos e a reforma da previdência.
Mais do que isso, desprovido de apoio parlamentar amplo e qualificado e de propósitos, ideias e medidas consistentes para a reversão da impulsão do desemprego, informalidade, pobreza, miséria, juros e desequilíbrio fiscal, e redução da renda líquida disponível das famílias e firmas, o governo optou pela saída fácil da priorização da viabilização da empreitada de reeleição, baseada na ressureição do presidencialismo de cooptação, tão repudiado na campanha de 2018.
A alternativa se materializou no estreitamento de laços com o fisiologismo e clientelismo do parlamento, liderado pelo bloco chamado Centrão, caracterizado pela maestria no exercício do “toma lá, dá cá”, predominante desde a redemocratização conservadora, implantada em 1985 e referendada pela Constituição de 1988.
Por tais circunstâncias, a sociedade brasileira amarga o regresso da exacerbação da instabilidade macroeconômica, traduzida na fuga de investidores, depreciação do real, multiplicação das incertezas e inseguranças quanto à solvência das finanças do setor público e, em consequência, delineamento de referências de um futuro sombrio.
A sintomatologia no cotidiano econômico é expressa pelas agruras da disparada da variação de preços que, mensurada em doze meses até outubro, pulou de 3,92%, em 2020, para 10,67%, em 2021, conforme o índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do IBGE.
Ao mesmo tempo, os resultados da atividade fabril e do comércio, também medidos pelo IBGE, tem se revelado frustrantes. A produção industrial diminuiu por quatro meses consecutivos, acusando contração de -2,6%, entre junho e setembro, e o volume de vendas do comércio varejista acumulou queda de -0,9%, no trimestre móvel terminado em setembro de 2021.
Trata-se de pesada fatura derivada da incompetência governamental, acompanhada do desenho dos elementos explicativos de seu inevitável desembarque do poder em janeiro de 2023. Até porque, 69% dos consultados pela Genial/Quaest avaliam que o atual presidente não é merecedor de outros quatro anos de mandato.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes
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