Honras ao PIB brasileiro: pode isso, Arnaldo?

A variação de 1,0% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, no primeiro trimestre de 2022, em relação ao quarto trimestre de 2021, e de 1,7%, frente a igual intervalo do ano anterior, aferida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), deve ser avaliada com redobrado cuidado.

Isso porque, a interpretação apressada de dados econômicos favoráveis, normalmente por inquilinos do poder empenhados na colheita de dividendos eleitorais, ostenta a capacidade de provocar disseminação inapropriada de posturas eufóricas dissociadas da realidade e, o que é pior, incitar de escolhas estratégicas equivocadas por parte dos agentes privados.

A rigor, a discreta expansão foi puxada pelo setor de serviços, reflexo da retirada das principais restrições sanitárias, que cresceu 1,0%, com estabilidade da indústria (0,1%) e declínio da agropecuária (-0,9%). Os motores dos serviços foram transportes (2,1%) e comércio (1,6%), enquanto o destaque na indústria coube à eletricidade (6,6%).

Já, pelo ângulo da demanda agregada, o consumo das famílias subiu apenas 0,7%, as despesas públicas aumentaram 0,1%, as exportações cresceram 5,0%, as importações caíram -4,6%, e a formação bruta de capital fixo recuou -3,5%. Com isso, a taxa de investimento decresceu de 19,7% do PIB para 18,7% do PIB, em um ano, atestando a diminuição do potencial de crescimento econômico nacional.

A reação constatada entre janeiro e março de 2022 repousa em fatores pontuais e/ou transitórios e em outras anomalias portadoras de fôlego extremamente limitado, que podem desaparecer de maneira tão rápida e surpreendente como surgiram.

Resumidamente, a âncora do empuxe trimestral repousou no boom das commodities, derivado do conflito bélico entre Rússia e Ocidente, realizado em território ucraniano, e o pagamento do Auxílio Brasil, programa assistencial eleitoreiro, substituto do Bolsa Família, que configurava uma política de Estado, e do apoio emergencial, aprovado pelo legislativo para suprimento da ausência de rendimentos da população vulnerável, durante abril de 2020 e dezembro de 2021.

Lembre-se que o amparo transitório sofreu descontinuidade entre janeiro e março de 2021, em consequência, por absurdo, de percepção e decisão estapafúrdia do ministério da Economia, que sentenciava a proximidade do fim da pandemia, no transcorrer do estágio mais dramático da evolução do surto, marcado pela insuficiência de oxigênio nas unidades de saúde de Manaus e a produção da cepa brasileira.

Ainda assim, o Auxílio Brasil revelou-se insuficiente para compensar o quadro de deterioração do fluxo de renda das famílias, diante do desemprego e informalidade elevados e da escalada inflacionária e, por extensão, dos juros, que ocasionou endividamento e inadimplência recordes.

Não há como negar que depois de escapar do fundo do poço recessivo, amargado no biênio 2015-2016, quando decresceu -3,5% ao ano, a economia brasileira mergulhou em uma fase de estagnação cíclica, com expansão média de 1,5% a.a., em 2016-2017, sob o comando do time de Henrique Meirelles, no governo Temer, e de 1,4% a.a., na gestão Guedes/Bolsonaro, situando-se 1,6% acima do patamar anterior à entrada e avassaladora propagação do Novo Coronavírus.

Há uma surpreendente carência de visão de longo prazo do atual governo que, de um lado, vem se esforçando para desmanchar as obras direcionadas à estabilização macroeconômica, construídas pela administração antecedente, particularmente a responsabilidade fiscal, e, de outro, tem revelado ausência de compromissos com a execução de reformas capazes de devolver funcionalidade a maquina estatal e facilitar ganhos de eficiência da microeconomia.

A esmagadora maioria das proposições encaminhadas pelo poder central ao parlamento, com endosso ou “aperfeiçoamento” deste, consegue a proeza de aprofundar situações bastante caóticas, como é o caso da mexida no ICMS sobre energia e combustíveis que, se deliberada, deve ocasionar enormes estragos nas finanças dos estados.

Enquanto mandatários e auxiliares e Congresso Nacional não se convencerem acerca da necessidade de rearranjo dos elementos determinantes da competitividade sistêmica (juros, tributos, câmbio, burocracia, ciência e tecnologia, inclusão social, dentre outros), a matriz de produção e transações do país permanecerá presa fácil das armadilhas ou componentes de perturbação externos e internos.

No front global, emerge presentemente o risco iminente de estagflação, expressa na perversa combinação entre avanço generalizado da inflação e abrupta perda de ímpeto da retomada econômica, explicada pelos desdobramentos dos eventos da guerra da Ucrânia e as elásticas quarentenas chinesas acopladas à política de Covid Zero, adotada pelos governantes do gigante asiático.

No plano das incongruências domésticas, sobressai a interferência das barbeiragens políticas no manejo das variáveis econômicas. A esse respeito, a orientação do Palácio do Planalto, seguida a risca pelo staff da esplanada dos ministérios visa exclusivamente à viabilização do empreendimento da reeleição a qualquer custo.

Mais do que isso, ao priorizar desejos imediatos e terceirizar a formulação e execução orçamentária à órbita legislativa, especificamente ao bloco de grupos de interesses representados pelo fisiologismo paroquial do centrão, o executivo esboça desprezo ao equilíbrio fiscal e à retomada sustentada do crescimento. A consertar a partir de 2023.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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