50 anos do Ipardes: Fadiga e risco de ataque de predadores

50 anos do Ipardes: Fadiga e risco de ataque de predadores
Gilmar Mendes Lourenço.

Parte III

Este artigo é o derradeiro da trilogia responsável pelo resgate e exposição sumária da marcha de 50 anos do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), o aniversariante deste 07 de junho de 2023, acomodada no Portal “Economia e Negócios”, da minha estimada amiga e editora, Mirian Gasparin.

Penso que, além das merecidas comemorações, é tempo adequado a reflexões críticas acerca do acentuado agravamento, desde o final da década passada, da diminuição da expressiva presença e participação do Ipardes no multifacetado ambiente de planejamento e tomada de decisões do estado, iniciada com a debilidade financeira dos anos 1980.

A despeito da razoável cesta de estudos oferecida à sociedade, a instituição vem sendo contemplada, por observadores posicionados do lado de fora da esfera oficial – alguns “engenheiros de obra feita” e outros reconhecidos como pessoas atentas e esclarecidas – com o rótulo de fatigada e enfraquecida.

Na verdade, a produção técnica tem sido proveniente do trabalho de poucos abnegados e audaciosos “guerreiros” da pesquisa e estatística, alojados no tabuleiro diretivo e funcional da entidade, que, em quase todos os lances decisivos, postam-se como cobradores de escanteio e movem-se a cabeceadores de área.

É lícito admitir que esses teimosos ainda estão ferrenhamente comprometidos no combate em batalhas inglórias de superação dos inúmeros percalços subjacentes ao abandono da tarefa de geração de referências futuras para as escolhas presentes pelos inquilinos do andar de cima da administração pública, bastante comum com a submissão nacional à globalização dominada por fluxos financeiros voláteis.

Há suspeitas de que parcela da cúpula e contingente de técnicos sofreram influência decisiva de corpos diretivos pretéritos, adeptos da impaciência com o mero comodismo do treinamento e escalação do time e da transformação da vontade de adentrar o campo de jogo para participação ativa na disputa das pelejas.

O que atrapalha é a persistência do staff das autoridades locais na convicta abdicação das incursões no atacado, imprescindíveis à edificação de um novo paradigma de desenvolvimento, e a concentração em assuntos de varejo, mais simpática e aderente aos propósitos imediatos, focados na colheita de dividendos eleitorais.

A não recomposição de quadros técnicos de excelência e massa crítica, autênticas fortalezas da caminhada histórica do Ipardes – que, por sinal, ensejaram incômodos com governantes avessos à geração e disponibilização de informações, indicadores e, sobretudo, conhecimento científico, discrepantes das retóricas triunfalistas -, pode tornar a entidade presa fácil ao ataque de predadores.

Só a título de ilustração, em 1990, insatisfeito com os resultados das estimativas de variação do Produto Interno Bruto (PIB) paranaense, apuradas pelo Ipardes, que contrariavam a peça publicitária “Paraná: ilha de prosperidade”, paga com recursos do Banco do Estado do Paraná (Banestado), o incumbente estadual determinou a não divulgação dos números ao Secretário de Planejamento.

Mais do que isso, revoltado com a derrubada do seu “castelo de cartas”, o governador encaminhou à Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) um projeto de reforma administrativa que, dentre vários ajustes, propunha a extinção do ente oficial de pesquisas.

O escape da degola contou o inestimável apoio do ex-deputado estadual, federal e senador, Nivaldo Passos Krüger, um dos fundadores do Instituto, que compareceu até a sua sede – localizada na Rua Jaime Reis, no Bairro São Francisco, em Curitiba, entre a Cúria Metropolitana e o famoso Clube Operário, ou entre a cruz e a espada – para conversar com os servidores e anotar as respectivas apreensões e demandas.

Também destacável foi a postura do então presidente da ALEP, deputado Anibal Khury, em interromper a tramitação daquela proposta, por julgá-la inoportuna, por coincidir com o fim do mandato dos membros do poder executivo e dos ocupantes da Casa de Leis do estado.

Por tudo isso, parece razoável a hipótese de que o desprezo ao exercício de planejamento de longa maturação poderá resultar no escancaramento das portas da instituição a entrada de aventureiros, associados à politicagem primitiva, travestidos de mágicos ou salvadores da pátria.

O pior é se os forasteiros aportarem ocupados exclusivamente com o enriquecimento de currículos e/ou a engorda dos rendimentos brutos por meio do recebimento de proventos derivados de cargos comissionados, o que remonta ao comportamento dos exploradores europeus com os povos das Índias orientais, “mais desejosos de encher as bolsas do que a cabeça”, segundo argumentação do filósofo suíço, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), utilizada no clássico “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”.

Isso torna-se mais crucial se se atentar para a premência de obrigatória ampliação do conhecimento científico, motivada e arrastada pela vasta amplitude e diversidade de oportunidades de absorção da multiplicidade de temas de pesquisa do novo cardápio mundial e doméstico.

As novas fronteiras de investigação vêm sendo ditadas e encomendadas pelos rearranjos geopolíticos e econômicos no mundo, com Estados Unidos e China em acirrada disputa pela hegemonia, em clima de aceleração da quarta revolução industrial, guiada por digitalização e inteligência artificial, e protagonismo dos assuntos ambientais.

No Brasil, é fácil notar a inevitabilidade de prosseguimento das ferrenhas batalhas de defesa das instituições democráticas, contra ataques de extremistas e golpistas, e detecção de mecanismos e instrumentos que possam reparar a sucessão de equívocos passados e favorecer e reforçar uma retomada econômica sustentada, inclusiva e adequada aos ditames contemporâneos.

O roteiro da agenda de armação do futuro abrange inarredáveis compromissos com a redução das emissões de carbono, arrojado combate à fome e à miséria, manobras de conformação ao inevitável fechamento da janela demográfica e conexão com o novo pacto federativo.

A nova feição federativa deverá ser designada pela provável aprovação da correção das distorções do sistema de incidência de impostos indiretos, complicado e injusto, com magníficas chances de inviabilizar a guerra fiscal entre os entes federados na captura de novos projetos industriais.

Seria um grave pecado a omissão, neste último texto, de três projetos históricos, orientadores dos nexos da instituição com a comunidade regional – que a sustenta com o pagamento de tributos – e que conferem visibilidade junto aos atores públicos e privados.

O primeiro configura o “Custo de Vida”, ou o cálculo do “Índice de Preços ao Consumidor (IPC)”, herança do Badep, largamente utilizado nas atualizações de preços, contratos e dissídios coletivos, que foi extinto em 2019, por manifestação autoritária de preferência individual de uma mente inapta ao pensamento científico aplicado à realidade social. A série histórica mensal de mais de meio século foi definitivamente sepultada.

A segunda publicação compreende o “Análise Conjuntural”, boletim produzido desde 1979, com artigos bimestrais que estabelecem conexões entre os movimentos pendulares globais e nacionais e as intrincadas relações econômicas e sociais locais. Esse esforço foi interrompido, sem argumentos públicos, por aquela mente perturbada, entre março de 2019 e novembro de 2020, e restabelecido depois de seu afastamento da entidade.

Dois antecedentes intervencionistas são merecedores de lembrança: a extinção da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada entre 1994 e 1997, em parceria com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), do Governo do Estado de São Paulo, e o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos (Dieese), em 1998, e da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), substituta da PED, a partir de 1999, em outubro de 2013.

No caso do cancelamento da PED, o motivo velado repousou na colisão entre a escalada do desemprego, fruto da estratégia de juros altos de sustentação do plano real, e o anúncio de geração de milhares de empregos, subjacente ao programa de atração de investimentos industriais implementado pelo governo do estado.

Já a decisão de parada da PME encontrou justificativa no iminente fornecimento de indicadores mensais (calculados em médias móveis trimestrais), retroativos a 2012, sobre a dinâmica do mercado de trabalho, por unidades de federação, regiões metropolitanas e capitais, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do próprio IBGE.

A terceira contribuição perene reúne o Sistema de Contas Regionais (SCR), organizado e consolidado em parceria com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), desde 1985, quando este, plenamente recapacitado, solicitou, à Fundação Getúlio Vargas (FGV), a devolução da delegação recebida para a mensuração dos agregados econômicos nacionais, com pontuais inferências subnacionais.

Porém, o envolvimento do Ipardes na área de contabilidade social, também legado do Badep, remonta a década de 1970, com a montagem da Matriz Insumo Produto, afinada com os ensinamentos dos professores Wassily Leontief (1906-1999) e Richard Stone (1913-1991).

Presentemente, o SCR está integrado à uma rede de aproximação e uniformização de critérios metodológicos e informacionais, coordenada pelo IBGE, seguindo as normas internacionais, tendo como base a construção de “matrizes de recursos e usos” para as estimativas anuais e trimestrais dos principais agregados, notadamente do PIB.

Em sendo portador de incomensurável orgulho e fascínio, por constituir mais um produto oriundo do rigoroso controle de qualidade prevalecente nas nobres linhas de produção do Ipardes, desejo os meus sinceros parabéns a todos os pesquisadores e demais servidores e colaboradores “das antigas e do presente”.

Também cumprimento os usuários das incontáveis estatísticas e relatórios de pesquisa e Working Papers, forjados pela Fundação e o Instituto e repletos de análises e reflexões de qualidade, além de prospecções e recomendações de intervenções públicas.

Por fim, não poderia deixar de louvar o trabalho dos agentes formadores de opinião regionais que rotineiramente repercutiram os, na maioria das vezes polêmicos, dados e estudos entregues pelo Ipardes, por meio da abertura de relevantes espaços de exposição aos pesquisadores.

* Agradeço a Luiz Eduardo Sebastiani, ex-Secretário da Fazenda do governo do Paraná, meu nobre amigo, irmão e ipardiano “da gema”, pela carinhosa leitura dos três artigos e a realização de comentários e críticas, plenamente absorvidas e acolhidas.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

4 comentários sobre “50 anos do Ipardes: Fadiga e risco de ataque de predadores

  1. Meus cumprimentos pelos três excelentes artigos referentes aos 50 anos do Ipardes. Eu que tenho acompanhado durante quatro décadas o trabalho do Ipardes, posso te dizer o quanto os teus artigos mostraram a realidade vivida no Instituto. A terceira parte diz tudo. Parabéns pela clareza e fidelidade em relatar os 50 anos do Ipardes.

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