Economistas em ambientes menos malígnos

Economistas em ambientes menos malígnos
Gilmar Mendes Lourenço.

Na gélida manhã de 29 de julho de 2023, logo após a inesperada derrota da seleção brasileira feminina de futebol na disputa com a da França, tive o privilégio de proferir a palestra de abertura do evento “AsBEA Meet: INOVAÇÃO E TECNOLOGIA COMO ESTRATÉGIA COMPETITIVA”, promovido pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea).

Em um ambiente extremamente acolhedor, me coube a espinhosa tarefa de descrever o curso recente e prospectar os rumos da economia brasileira vis a vis, os não poucos percalços esboçados pela economia global, especialmente a resistência da inflação à terapia de juros elevados, a desaceleração dos negócios e a exacerbação das incertezas associadas ao aprofundamento dos distúrbios geopolíticos e ao interminável conflito entre Ocidente e Rússia, em terras ucranianas.

No que se refere ao Brasil, procurei abordar a combinação entre os indiscutíveis avanços macroeconômicos; a fragilização microeconômica, derivada notadamente das taxas de juros exorbitantes; a superação do imbróglio político, com a construção de maioria parlamentar flutuante pelo governo, formada por enorme coligação ao velho estilo “coração de mãe” ou “balaio de gatos”; a escolha social pela intransigente defesa da democracia; e a alentadora, ainda que moderada, retomada da confiança dos agentes em relação ao futuro.

A atenta plateia percebeu e aderiu plenamente à tentativa de construção de cenários menos malignos, baseada na premissa de que o Brasil estaria condenado ao experimento de um ciclo duradouro de expansão econômica e inclusão social e à espera de um estadista para a, não demorada, decretação do cumprimento da sonhada e desejada sentença.

O componente principal explicativo da inclinação otimista repousou na necessidade premente de introdução, por essas paragens, dos aprimoramentos institucionais aplicados pelas nações avançadas e emergentes que, em coincidentes ou diferentes momentos históricos, deram certo.

Uma melhor compreensão dos condicionantes levantados requer a recuperação das modificações do modus operandi brasileiro desde a exaustão do paradigma de desenvolvimento amparado na substituição de importações, implementado entre os anos 1930 e o final da década de 1970, bancado financeiramente pela concatenação entre poupança pública e externa, que despencou com o segundo choque do petróleo, em 1979, e o subsequente estouro da bolha de endividamento externo dos países do terceiro mundo, contratada a juros flutuantes, a partir de 1974.

O equacionamento da crise da dívida externa só aconteceu com pronunciada interferência do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre 1981 e 1989, na elaboração e implementação de programas econômicos direcionados à facilitação da remessa de recursos líquidos ao exterior, mediante a geração de enormes e crescentes superávits comerciais, ainda que a custa de encolhimento dos mercados domésticos.

Já o decênio de 1990 foi palco de uma verdadeira mutação do marco funcional do Brasil, a partir da avassaladora penetração das regras neoliberais – recomendadas pelo G7 às nações emergentes em reunião conhecida como Conselho de Washington, em 1989 – centradas na abertura comercial, liberalização financeira, desregulamentações e privatizações.

A encomenda neoliberal foi reforçada e/ou compensada pela edificação e cumprimento dos pilares de responsabilidade fiscal e a eliminação da superinflação, oportunizada com a criação da Unidade Real de Valor (URV), pareada com o dólar, eixo dos fundamentos da estabilização monetária, que antecedeu a instituição da nova moeda e a consolidação do Plano Real.

Mesmo que conduzida de maneira passiva, de fora para dentro, e com preservação marginal dos interesses nacionais, a execução daquele aglomerado de reformas ensejou a produção dos requisitos ao ingresso brasileiro em uma etapa econômica virtuosa, nos anos 2000, em linha com o maior crescimento do comércio global desde a segunda guerra, catapultado pela demanda chinesa e, por extensão, a valorização das commodities.

Idêntica relevância coube as iniciativas oficiais de transferência direta de renda, plantadas na Constituinte de 1988, instaladas no primeiro quinquênio dos anos 1990 e intensificadas a partir de 2003, que, lideradas pelo programa Bolsa Família e a política de valorização do salário mínimo, promoveram a maior inclusão e mobilidade social dos tempos de república.

Da década de 2010 em diante constatou-se brutal reversão daquelas conquistas econômicas e sociais, por conta de novo esgotamento financeiro da capacidade de ação anticíclica do estado e do populismo antinflacionário, determinado pela interferência oficial nos preços administrados, no câmbio e nas taxas de juros, que desembocou na maior recessão da história e na instabilidade política responsável pela cassação do mandato da presidente da república, em 2016.

As dificuldades inerentes à tarefa de arrumação da casa, entre 2016 e 2018, e o pesadelo da assunção ao poder da extrema direita, em 2019, retrógrada em múltiplos campos de atuação, negacionista e negligente durante a pandemia de Covid-19 e perdulária no gerenciamento das finanças públicas, contribuem para o esclarecimento do prosseguimento dos retrocessos.

No entanto, a recondução das correntes de centro-esquerda ao palco do executivo, por vontade popular decretada pelas urnas eletrônicas, em permanente, mesmo que complicado, diálogo e entendimento com o legislativo de centro-direita – dominado pela supremacia dos blocos de interesses, nem sempre republicanos, sobre as inúmeras agremiações partidárias – favoreceu o redesenho menos vicioso do clima de negócios.

No elenco de ativos contabilizados entre janeiro e julho do corrente ano sobressai a nova regra fiscal, em substituição ao derrotado teto de gastos primários da União, a reforma tributária e a volta da previsibilidade decorrente do declínio estrutural da inflação, imputado primordialmente ao resgate da credibilidade do conjunto da orientação macroeconômica.

Se for considerado, ainda que transitoriamente, contornado o arranjo das variáveis de estabilização – notadamente com a retardada sinalização positiva da autoridade monetária no sentido de gradativa retirada dos instrumentos ortodoxos que asfixiam os níveis de atividade, no transcorrer do restante de 2023 e em 2024, em um aceno com bandeira branca ao Palácio do Planalto -, urge atacar de imediato os entraves de longo prazo ou retirar as pedras no caminho do desenvolvimento.

Para tanto, é imperioso o desencadeamento de novo estágio de transformações institucionais, capazes de permitir a operação sincronizada dos parâmetros de competitividade sistêmica, mesmo que em regime de equilíbrio instável, conceito que os economistas tomaram emprestado da física.

Em outros termos, afigura-se fundamental a negociação política da revisão, atualização e aprofundamento das reformas instaladas nas décadas de 1990 e 2000 e daquelas lançadas no lapso temporal entre 2016 e 2019, na perspectiva de encaixe contemporâneo do país em uma geografia mundial afetada pelo protagonismo da agenda ambiental, da proliferação de acertos multilaterais e da poderosa reaparição de táticas de fortalecimento dos mercados internos, em regime de radicalização da quarta revolução industrial, carregada por processos digitais, robótica e inteligência artificial.

Cabe aos economistas, neste 13 de agosto de 2023, por ocasião das celebrações alusivas aos 72 anos de regulamentação da profissão no Brasil, a maioria antecipadas para esta semana, a evocação renovada do, por vezes rejeitado, “bom senso”.

Trata-se de mergulho reflexivo de fixação de firme propósito de menor envolvimento com esforços simplificadores do campo de atuação profissional à mera “ciência de dados”, em suporte aos exercícios de tomada de decisão, e maior atenção ao engajamento nas tarefas voltadas à resolução dos enormes e complexos problemas que interferem no comportamento intertemporal dos atores sociais, provocando a agudização da desigualdade, segregação e abismos.

Soa imprescindível o empenho e estabelecimento de compromissos com o atendimento das demandas subjacentes à imposição, solução ou máxima do crescimento econômico, com ênfase à progressividade tributária, ajuste do tamanho da máquina pública às disponibilidades orçamentárias, redesenho previdenciário, repasse de funções governamentais não essenciais às corporações empresariais e desburocratização da vida de empresas e famílias.

Só assim será factível a restauração e otimização dos investimentos em recuperação, modernização e ampliação da infraestrutura, tocados pelo estado ou por meio de parcerias público-privadas, e em educação, ciência, tecnologia e inovação, cruciais à multiplicação da produtividade.

A propósito disso, convém reter que a eficiência vem sendo fortemente prejudicada por crônicos constrangimentos estruturais, agravados pelo iminente fechamento da janela demográfica, caracterizada pela diminuição da proporção de jovens e ampliação da de idosos na estrutura etária.

Por fim, parece oportuno o desvio de propostas de “nova industrialização” escoradas em fetiches pretéritos, como o desastrado ensaio de concessão de subsídios à desova de estoques de supostos veículos populares, movidos a fontes fósseis, e embarcar no irrestrito apoio financeiro às iniciativas de transição energética, com utilização de recursos limpos, com a emissão de bônus verdes.

Parabéns à brilhante equipe de economistas do cinquentenário Ipardes, instituição que me acomodou por quarenta anos, que, provavelmente por excesso de encomendas de estudos e pesquisas, ficou devendo à sociedade paranaense um relatório analítico detalhado acerca das oportunidades e ameaças da desestatização da Copel, maior empresa do estado, e respectivos vínculos com o projeto de desenvolvimento regional em andamento.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *