Ameaça recessiva nos EUA e o Brasil

Gilmar Mendes Lourenço.
Os especialistas crédulos na iminência de desencadeamento de um estado de recessão nos Estados Unidos (EUA), influenciadores de rearrumações de portfólios de aplicações de risco, parecem estar acometidos de sérias limitações de visão prospectiva.
As manifestações de percepções apressadas, no final do mês de julho e começo de agosto de 2024, provocaram a precipitação de um movimento de abrupto enfraquecimento do dólar e das cotações dos papéis negociados nas bolsas de valores e dos juros futuros nas principais praças financeiras internacionais.
Esse evento teria repousado na disseminação do diagnóstico realizado pelos meios conservadores de chances concretas de verificação de efeito dominó da “inescapável” recaída recessiva da maior economia do planeta, a partir da identificação de menor exuberância do indicador do comportamento do mercado de trabalho norte-americano, referente ao mês de julho de 2024.
Mais precisamente, não bastasse a perda de ímpeto da criação de novas vagas, a taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,3% da força de trabalho, entre junho e julho, e de 3,6% para 4,1%, na média móvel trimestral, o que, por uma observação retrospectiva, justificaria a interpretação de delineamento de um cenário contracionista e, em consequência, a exacerbação das apostas em imediatos e pronunciados corte de juros e atiçamento do fogo especulativo.
No entanto, o fenômeno causador da flutuação cíclica possui natureza passageira, destituído de qualquer amparo confiável no comportamento cotidiano da atividade econômica, dos rendimentos das famílias e do endividamento corporativo nos EUA, que, ao menos por enquanto, permanecem denotando estabilidade.
Mais do que isso, a inevitabilidade da desaceleração dos fluxos de produção e comércio globais, derivada do acirramento das tensões geopolíticas, com a rápida e crescente intromissão de China e Rússia, no palco principal, e a perspectiva de não arrefecimento ou reversão dos conflitos bélicos em território ucraniano e russo e no Oriente Médio, estavam precificadas nas transações dos balcões de negociações de ativos de risco.
Só que a possível transformação do Irã, de financiador dos grupos terroristas Hezbollah, no Líbano, Hamas, na Faixa de Gaza, e Houthi, no Iêmen, em confrontador direto de Israel, podem catapultar as dimensões do cotejo e suas implicações econômicas, principalmente quanto ao suprimento e às cotações do petróleo.
Ademais, as significativas modificações introduzidas no tabuleiro eleitoral dos EUA, com a desistência do presidente Democrata, Joe Biden, postulante à reeleição, e substituição pela vice, Kamala Harris, que conseguiu retirar o favoritismo Republicano, Donald Trump, segundo as sondagens opinativas, sugerem chances de protagonismo de soluções não traumáticas para os percalços políticos e econômicos, domésticos e externos.
Tanto é assim que a maioria dos analistas globais tem sublinhado que a conformação de um panorama de menor velocidade de expansão da economia e da inflação americana, que recuou para 2,9% em doze meses, em junho de 2024. convergindo para a meta de 2% ao ano, referência para o Federal Reserve (FED) retomar expedientes de diminuição das taxas de juros básicas, atualmente entre 5,25% a.a. e 5,50% a.a.
Não obstante, o Fundo Monetário Internacional (FMI) mantém a projeção de acréscimo de 2,6% do produto interno bruto (PIB) norte-americano, em 2024, praticamente repetindo o desempenho de 2023 (2,5%), e perda de embalo apenas em 2025, com variação de 1,9%.
As previsões dominantes sublinham a virada de chave dos juros no encontro do FED de setembro de 2024, conforme já insinuado pela autoridade monetária, com declínios graduais, que devem somar 2 pontos percentuais até o final de 2025, chegando ao nível de 3,5% a.a.
Isso significa que os experts que incitaram as incursões especulativas, na melhor das hipóteses, escolheram a “bola da vez” errada. Isso porque, o flerte com a estagnação dos negócios vem acontecendo na Europa, por conta da resistência do Banco Central Europeu (BCE), em aprofundar a descida dos juros básicos, presentemente em 4,2% a.a.
Mesmo assim, com inflação de 2,6%, em doze meses, encaminhando-se à meta de 2%, em paralelo à elevada desocupação de mão de obra, em 6,5%, o FMI estima discreta recuperação da economia da Zona do Euro, com incremento de 0,9% do PIB, em 2024, quase o dobro de 2023 (0,5%), e de 1,5%, em 2025.
Decerto que a consolidação de um ambiente de afrouxamento monetário, em escala mundial, capitaneado pelos EUA e Europa, e de menor apreciação do dólar, constituem elementos exógenos favoráveis à tarefa de manejo da inflação, sob a reponsabilidade do Banco Central (BC) brasileiro.
Contudo, convém não esquecer os apreciáveis contrastes entre a conjuntura nacional e a americana e europeia, notadamente a tendência ascendente dos juros, por aqui, ratificada nos comunicados e atas do Comitê de Política Monetária (Copom), publicadas a cada 45 dias, que podem abortar a moderada reativação da produção e do emprego, em curso desde o segundo semestre de 2022.
Há quem defenda que os radares do BC estariam viciados na captura dos elementos de perturbação ligados exclusivamente à exacerbação das incertezas quanto à gestão autônoma da instância monetária, a partir de 2025, com a troca da presidência e algumas diretorias, reforçadas por inoportunas manifestações do chefe de estado, respondidas e, o que é pior, por vezes, antecipadas pelo comandante do banco.
Enquanto isso, o Copom não demonstra o mesmo empenho na crítica aos descalabros na formulação e execução orçamentária, fruto de articulações promíscuas entre governo enfraquecido e legislativo empoderado, instrumentalizadas pelas famosas e quase intocáveis emendas que beneficiam os caciques do Congresso Nacional e seus asseclas.
Em não economês, tais procedimentos representam autêntica caça às verbas destinada à composição de fontes de financiamento paralelo de campanhas eleitorais, que, se não forem desmanchadas por meio de entendimentos maduros ou interferência do judiciário, manterão acesas as chamas do descontrole fiscal.
Portanto, é prudente caprichar na lição de casa para não perder, mais uma vez, o bonde da reativação econômica mundial.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








