Mísseis contra a popularidade de Lula 3½

Mísseis contra a popularidade de Lula 3½

Gilmar Mendes Lourenço.

Ainda que levantados e acatados eventuais reparos à possíveis incongruências de critérios metodológicos e anomalias na construção das referências sociais e espaciais dos planos amostrais, bastante comuns em investigações opinativas de “tiro curto”, os resultados da pesquisa do Datafolha, efetuada junto a 2.007 eleitores em 113 cidades, nos dias 10 e 11 de fevereiro, caíram como uma bomba nos meios políticos ao assinalarem desabamento da aprovação do governo Lula, entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025.

Expressões corriqueiras, utilizadas durante a pandemia de Covid-19, como “fique em casa e evite exposições em público”, ganharam conotações de palavras de ordem ao chefe do poder executivo, em um estágio de rápida deterioração da relação direta com o conjunto dos atores sociais.

A avaliação positiva (conceitos ótimo e bom) assinalada ao governo do atual incumbente da nação diminuiu de 35% para 24%, em um curto período de dois meses, sendo uma medição inédita acontecida durante os dois mandatos e meio do petista (2003-2010 e a partir de 2023).

Enquanto isso, a reprovação (selo ruim e péssimo) saltou de 34% para 41%, acrescentando, aos descontentes tradicionais, os segmentos tidos como de tradicionais seguidores, como mulheres, negros, nordestinos, pobres e menos escolarizados. O avanço da rejeição também derivou da insatisfação de empreendedores individuais, liberais sociais, progressistas moderados e não petistas que escolheram Lula por reprovar o postulante à reeleição, em 2022.

Em relação à população carente, convém destacar a influência de apreciável modificação de postura desta categoria, que passou a encarar as ações assistenciais, abraçadas por todos os governos, a partir de Itamar Franco (1992-1994), ainda que de modo eleitoreiro e bagunçado em alguns momentos, como uma espécie de direito fundamental – o Welfare State brasileiro -, plantado como contrato social pela Assembleia Nacional Constituinte, em 1988, e desvinculado da obrigatoriedade de devolução na forma de agradecimento pelo voto.

Essa encorpada avaliação negativa pode ser imputada à conjugação de inúmeras falhas de comunicação, como no episódio do pix – surgido com o vídeo produzido pelo deputado Nikolas Ferreira, que transmitiu a falsa impressão de instituição de cobranças da população por transações efetuadas -, e nos estímulos a boicotes aos produtos com preços em “alta excessiva”, além dos insuficientes laços estabelecidos com o ajuste fiscal e a desgarrada inflacionária.

O descontrole e resistência da espiral de preços foi aprofundado com o choque negativo de oferta de alimentos (entre agosto e novembro de 2024), ao lado do desequilíbrio transitório entre oferta e demanda de outros produtos e serviços essenciais, acrescido do peso exercido por práticas oligopolistas e de cartelização, especificamente na distribuição e comercialização de derivados de petróleo.

Em tais circunstâncias, é curioso notar que a conduta de subida dos juros, desencadeada pela autoridade monetária, antes de resultar em encolhimento da demanda se desdobrou em mais inflação pelos canais de majoração das despesas financeiras das empresas, na maioria das vezes transferidas aos preços finais.

Quanto à precariedade comunicativa, amparada mais na embalagem e menos no conteúdo, não é de agora que a periclitante esquerda anacrônica, com exceção do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), vem perdendo de goleada para a extrema direita, abundantemente financiada na operação das mídias digitais, notoriamente com a disseminação de notícias falsas, centrada na execução de terrorismo econômico dirigido prioritariamente ao segmento mais fragilizado da sociedade.

Aliás, a maestria no manuseio das redes pela ultradireita, com a propagação de eventos distorcidos por arautos do dissenso, plenamente absorvidos como reais pela maioria da população, configura um fenômeno ou onda de ordem planetária, organizada desde as eleições de Donald Trump ao primeiro mandato, em 2015.

Não por acidente, os democratas (presidente, Joe Biden, e vice, Kamala Harris) se mostraram inviáveis e perderam o pleito presidencial nos Estados Unidos (EUA), em 2024, em clima de intenso crescimento econômico com pleno emprego e inflação e juros decrescentes, o que permitiria prospectar, de maneira precipitada, chances de reprodução da “bidenização” à brasileira, em 2026, tendo no check list alguns elementos similares, como idade avançada, recorrentes problemas de saúde e fragilidade do vice.

Vale sublinhar que mesmo com as empresas norte-americanas assinalado enormes obstáculos à contratação de mão de obra, a retórica da direita foi suficientemente competente na indução da sociedade a eleger a massa de imigrantes como principal causa das mazelas dos EUA.

Como por aqui não há problemas no campo da imigração, soa provável o regresso e/ou acentuação da velha cantilena de que o arcabouço de ajuda social, capitaneado pelo Bolsa Família – que pulou de 14,5 milhões de assistidos, em 2021, para 20,5 milhões, em 2025, com impulsão do rendimento médio mensal de R$ 190 para R$ 670, no mesmo período -, carrega permanente desestímulo ao ingresso das pessoas no mercado de ocupações. É a ressurreição da anacrônica tese “é preferível ensinar a pescar do que dar o peixe”.

No entanto, com desocupação e miséria nos menores níveis da história e performance do comércio de varejo e massa salarial recordes, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE, denota expansão generalizada do emprego – afora trabalhadores domésticos formalizados -, estabilidade do contingente à margem do mercado formal e redução da taxa e do número de desalentados e em trabalho parcial.

Por tudo isso, aos que tentam amenizar as dificuldades sucessórias sob o argumento da fragmentação e reposicionamento do conservadorismo de oposição, diante e inelegibilidade de seu líder supremo – denunciado formalmente pela Procuradoria Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF), em 18 de fevereiro de 2025, sob a acusação de trama golpista, sendo a primeira vez que isso acontece com um governante na história da república – e do desponte de figuras de calibre eminentemente regional, não é exagerado alertar para a flagrante incapacidade da esquerda de oferecer opções competitivas ao ainda favoritismo da Lula 3½.

No linguajar das sondagens qualitativas, se as eleições de 2026 ocorressem em meio ao ambiente caótico de hoje, rigorosamente, Lula sairia vitorioso em todas as simulações de segundo turno, conforme apresentado por pesquisa da Genial Quaest, do começo de fevereiro de 2025. Ao menos a fotografia expõe essa imagem. Resta assistir ao filme completo.

Quando ensaiam um discreto aparecimento, as alternativas progressistas costumam ser continuamente alvejadas pelo “fogo amigo”, ateados por ocupantes do Palácio do Planalto e da esplanada dos ministérios e pelos proprietários do Partido dos Trabalhadores (PT) e respectivos intelectuais orgânicos.

Mesmo que não reconheçam em público e admitam apenas parcialmente, em encontros intramuros, os esforços para o “gol contra”, esses ferrenhos formuladores e propagadores de proposições desprovidas de articulações com a realidade são os grandes responsáveis pelo contínuo desgaste, conjuntural e/ou estrutural, de Lula, em condições de independência da percepção do eleitorado, plenamente divorciada da economia.

Por sinal, o presidente, acompanhado do costumeiro azedume, peculiaridade ausente em Lula 1 e 2, também não tem colaborado. Ao contrário, agudiza a instabilidade com rompantes instintivamente improvisados, recomendados e alargados pela nova estratégia de comunicação, esboçada pelo marqueteiro de campanha, Sidônio Palmeira, recentemente alçado ao governo.

Essa situação desconfortável pode piorar em um contexto de agravamento do desequilíbrio no jogo de poder político, travado entre governo e Congresso Nacional, com o acelerado aumento da força do segundo, desde o impeachment de Dilma Rousseff, especificamente na elaboração e cumprimento da peça orçamentária, recheada com o clientelismo das emendas parlamentares, que distorce ou até anula as prioridades ditadas por políticas de estado.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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