Petardo tarifário e desenho do favoritismo eleitoral em 2026
Gilmar Mendes Lourenço.
Sondagem realizada pela Genial/Quaest, dedicada prioritariamente à medição do sentimento da população brasileira acerca das causas e efeitos do petardo tarifário desferido pela administração de Donald Trump contra as vendas externas nacionais endereçadas aos Estados Unidos (EUA), depois de insistente e fervorosa solicitação da família Bolsonaro, na popularidade do governo Lula 3½, serve para caracterizar a condição de autêntico “presente” oferecido pela conspiração internacional.
A pesquisa consultou, de modo presencial, um painel de 12.150 pessoas com 16 anos ou mais, entre 13 e 17 de agosto de 2025, em âmbito nacional e especificamente em oito estados da federação, e apurou queda de 17 pontos para 5 pontos na desaprovação líquida (satisfação menos rejeição) do governo, entre os meses de maio e agosto.
O resultado combina o declínio da insatisfação de 57% para 51% e a subida do apoio de 40% para 46%, no referido período, confirmando a conformação de tendência de reversão dos índices desfavoráveis à gestão federal, já estampada nos números captados na coleta de impressões feita em junho deste ano.
Na mesma linha, aqueles entrevistados que julgam a atual administração de Lula melhor que a anterior (2019-2022, sob o comando de Jair Messias Bolsonaro), cresceu de 40% para 43%, e os que avaliam como pior recuou de 44% para 38%, entre maio e junho.
Por essa perspectiva, soa lícito enxergar o princípio de esboço de saída do fundo do poço de corrosão da adesão da população ao incumbente de plantão e o ensaio de recomposição da fração de amparo, suficiente para catapultá-lo rumo ao êxito do projeto do quarto mandato.
Apesar da natureza prematura da formulação de hipóteses de consistente inversão da animosidade da maioria da sociedade em relação ao governo, erguida e sustentada por mais de três anos e meio, parece razoável supor a interferência de dois elementos na alteração para melhor dos graus de tolerância coletiva.
O primeiro deles diz respeito ao persistente prosseguimento do ciclo de impulsão do ambiente de negócios, traduzido na expansão do produto interno bruto (PIB) de 3,2% ao ano, entre 2022 e 2024, e que não tem emitido sinais contundentes de interrupção ou inflexão, não obstante a continuidade da ortodoxia monetária, patrocinada pelo Banco Central (BC), ao praticar a segunda maior taxa de juros reais do planeta, atrás apenas da Turquia.
A título de ilustração, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), encampado pelo mercado financeiro como uma espécie de previa da intensidade de variação do PIB, aumentou 3,9% em doze meses encerrado encerrados em junho de 2025.
Em semelhante sentido ressalta a estabilização da inflação ao redor de 5% ao ano, acima da faixa de tolerância estipulada pelo regime de metas de inflação, entre 1,5% e 4,5%, com centro de 3%, porém abaixo da média anual de 7%, aferida desde o lançamento do real, em julho de 1994, e menos pressionada pelo choque de oferta de alimentos, atenuado com a supersafra do corrente ano.
A reação da atividade econômica e emprego e o controle da inflação se reproduzem na pujança da absorção doméstica, capitaneada pelo consumo das famílias, atrelado ao alargamento da densidade de beneficiários e dos valores aportados nos programas de proteção social, o que explica os recordes dos patamares de renda e emprego da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE.
A segunda vertente do incipiente retorno do glamour oficial repousa na interferência direta das super sanções das compras de bens e serviços procedentes do Brasil por Trump, incitada pelo turista Eduardo Bolsonaro, traidor da pátria nos instantes de folga. Segundo a Genial/Quaest, 69% da população investigada considera que a performance do “zero três” atende a propósitos pessoais e familiares.
É fácil perceber o esboço de discreta recuperação do endosso à gerência da democracia e economia nacional, ocasionada pela pronta recusa dos comandantes dos três poderes de submissão à chantagem política, feita pelo chefe americano, de interrupção e eliminação do julgamento dos golpistas de 2022-2023.
Igualmente relevante foi o lançamento do programa de socorro creditício e fiscal às empresas das cadeias produtivas impactadas negativamente por medidas impostas de fora para dentro do país, que não guardam o menor laço com a lógica determinante do intercâmbio comercial entre nações.
Em paralelo, não surpreende o esvaziamento, ou ao menos a diminuição do alcance, da retórica vocalizada pelos políticos de oposição, hospedados na direita do espectro ideológico, alguns deles (notadamente os governadores de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás) ocupados exclusivamente com a viabilização das respectivas pré-candidaturas à cadeira presidencial.
Para tanto, empenham-se em imputar os impactos da iniciativa trumpista à suposta inação ou, preponderantemente, aversão ao diálogo, do executivo brasileiro, que estaria negligenciando a exploração de canais de comunicação com os Estados Unidos (EUA) e privilegiando o exercício de reforço de negociações com China e Rússia, o que sugeriria o aprofundamento de aderências ideológicas.
Na mesma linha, os postulantes ao Palácio do Planalto, de maneira disfarçada, alguns até escancarada, manifestam o endosso à tese propagada por Trump de verificação de uma ruptura democrática, perseguição política e crescente cerceamento às garantias coletivas e individuais no Brasil, no afã de arregimentar o espólio bolsonarista, fortemente mobilizado por milicias digitais, nas eleições do próximo ano.
Em contrapartida, os governadores correm o sério de risco de amargarem apreciável encolhimento da magnitude de apoios dos eleitores de centro e direita, portadores de perfil moderado, simpáticos a avanços civilizatórios, absolutamente divorciados de pendengas extremadas e arredios ao conservadorismo ou até fanatismo impregnado em plataformas e pautas anacrônicas.
Sintomaticamente, imediatamente após a notícia do anúncio da vontade de Romeu Zema, governador de MG, pelo Partido Novo, o “zero um”, vereador pelo município do Rio de Janeiro, Carlos, e o “zero três”, rotularam os integrantes do elenco principal de gestores estaduais de “ratos e oportunistas”, denotando instabilidade, ou no mínimo desconforto, na frente contrária ao governo, com inescapáveis desdobramentos no comportamento do rebanho.
Ainda assim, as hostes oposicionistas sequer insinuam o abandono dos cargos e vagas ocupadas no interior da estrutura de poder, caso da super federação recém-formada pelas agremiações Progressista (PP) e União Brasil, que, por seu turno, é originário da fusão entre Democratas (DEM) e Partido Social Liberal (PSL).
Não por acaso, 51% das pessoas consultadas mencionam o componente político como motivação da elevação exponencial das tarifas americanas, 71% destacam o equívoco de Trump em pressionar pela libertação de Bolsonaro, 55% atribuem a produção da encrenca ao núcleo da família do ex-mandatário, 67% advogam a insistência na continuidade das tratativas e 44% consideram corretas as atitudes do governo brasileiro, o dobro das assinalações para Jair e Eduardo.
Por fim, a Genial/Quaest também aponta o alargamento da vantagem do empreendimento de reeleição construído e/ou acalentado por Lula, em cotejo com qualquer um dos nove aspirantes, sediados no Sudeste e Sul do território da nação, e distribuídos entre os cinco governadores de direita e os quatro componentes do clã de Bolsonaro.
Como se vê, embora os indiscutíveis estragos ocasionados na economia, exigentes de urgente identificação de dimensão e mitigação, por uma observação ampla o tarifaço ensejou o desenho de uma virada no desgaste de Lula 3½, que, se adequadamente aproveitada, com a preservação das estratégias de transferência de renda, escoradas em responsabilidade fiscal e estendidas por meio da implantação da isenção do pagamento de imposto de renda (IR) até rendimentos mensais de R$ 5 mil, pode oferecer espaço incremental à uma nova, transparente e saudável vitória da democracia inclusiva e soberana, em outubro de 2026.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.


