Brasil se aproxima de ciclo de corte de juros, mas risco fiscal pode adiar alívio

Brasil se aproxima de ciclo de corte de juros, mas risco fiscal pode adiar alívio

Acrefi prevê início da flexibilização monetária no fim de 2025 e alerta para inadimplência em alta das famílias

O Brasil pode entrar em um novo ciclo de corte de juros entre dezembro deste ano e o primeiro trimestre de 2026. É o que destaca a nova edição do Visão Financeira, boletim assinado pelo economista-chefe da Acrefi, Nicola Tingas. O estudo indica que a desaceleração da economia, a convergência da inflação para a meta e o enfraquecimento do dólar criam espaço para a flexibilização da política monetária. Esses fatores, combinados à expectativa de redução das incertezas fiscais, podem permitir que o Banco Central comece a aliviar a Selic em breve – desde que o cenário fiscal se mostre consistente.

Apesar da perspectiva, o documento alerta que o prêmio de risco fiscal segue elevado, resultado de anos de expansão de gastos públicos e aumento do endividamento, o que mantém a cautela dos investidores em relação à sustentabilidade das contas públicas. Essa condição pode reduzir a velocidade e a intensidade do alívio monetário, fazendo com que eventuais cortes de juros sejam graduais e condicionados a uma execução fiscal mais sólida.

No cenário internacional, o Federal Reserve também sinaliza cortes de juros ainda em 2025, possivelmente em setembro, em resposta ao enfraquecimento do mercado de trabalho nos Estados Unidos.

“Esse movimento é acompanhado com atenção pelo Brasil, pois abre espaço para maior fluxo de capitais a economias emergentes e reduz a pressão sobre o câmbio. Mas não elimina a necessidade de ajustes internos. Assim, a consistência fiscal continua sendo a chave para sustentar uma política monetária mais flexível e duradoura”, afirma Tingas.

Voltando ao Brasil, a combinação entre menor atividade econômica, valorização do real frente ao dólar e emissões soberanas no mercado internacional reforça a percepção de estabilidade no curto prazo. Por outro lado, a inadimplência das famílias segue em trajetória ascendente, comprometendo a saúde financeira doméstica e impondo limites ao consumo – fator que amplia a vulnerabilidade do sistema de crédito. Dados recentes da PEIC (CNC) mostram que, em janeiro de 2025, 76,1% das famílias estavam endividadas, e 20,8% destinavam mais da metade da renda ao pagamento dessas dívidas. Além disso, o cartão de crédito também aparecia como principal modalidade de endividamento, citado por 83,7% das famílias.

Endividamento das famílias

A preocupação com o endividamento das famílias já havia sido destacada no boletim Radar Crédito & Economia, também assinado por Tingas. Em agosto, o documento mostrou que a taxa total de inadimplência do sistema financeiro alcançou 3,8% – o maior nível em quase oito anos –, enquanto no crédito livre chegou a 5,2%, recorde desde 2017. Agora, o Visão Financeira reforça a vulnerabilidade financeira das famílias diante do endividamento elevado, o que pode limitar os efeitos de um ciclo de cortes de juros.

“A escalada da inadimplência das famílias é um dos principais entraves para que a queda dos juros se traduza em crescimento real. Sem enfrentarmos o endividamento excessivo e seus impactos sobre o orçamento doméstico, o risco é que a recuperação seja frágil e limitada. É fundamental criar condições para crédito mais acessível e sustentável”, avalia o economista.

Nesse contexto, o relatório observa ainda que os contratos futuros de juros (DI) negociados na B3 já embutem apostas em cortes a partir de 2026, mas mantêm prêmio elevado até o fim da década. “O Brasil está em um ponto de inflexão, onde as condições para cortes de juros se consolidam, mas o desequilíbrio fiscal e a escalada da inadimplência das famílias podem comprometer a recuperação. Só com disciplina fiscal e reformas estruturais conseguiremos sustentar um ciclo de crescimento de longo prazo. A travessia exige prudência e reformas estruturais que devolvam confiança e sustentação ao crescimento”, conclui Tingas.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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