E o PIB insiste em não encolher

Gilmar Mendes Lourenço.
A variação de 0,1% do produto interno bruto (PIB) brasileiro, registrada no terceiro trimestre de 2025, em relação aos três meses imediatamente anteriores, calculada pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE, reflete a continuidade da trajetória de moderada desaceleração da velocidade de crescimento, iniciada em abril deste ano. O incremento foi de 2,4%, no ano, e de 2,7%, em doze meses.
Pela ótica da produção, houve crescimento de 0,4%, na agropecuária, 0,8%, na Indústria, impulsionada por extrativa e construção civil, e 0,1%, nos serviços, sustentados por comércio, transportes, armazenagem, correios e atividades imobiliárias.
No terreno dos elementos da demanda agregada, os destaques foram o consumo do governo (1,3%) e formação bruta de capital fixo (0,9%), além da evolução de 3,3% das exportações e 0,3% das importações e estabilidade das compras das famílias (0,1%). A taxa de investimento situou-se em 17,3% do PIB, praticamente igual à do mesmo período de 2024 (17,4% do PIB).
Em prosseguimento à marcha de estagnação, a produção industrial aumentou apenas 0,1% em outubro de 2025, em cotejo com setembro, e caiu -0,5%, em relação ao mesmo mês de 2024, ficando 2,4% acima do nível pré-pandemia (fevereiro de 2020) e 14,8% abaixo do recorde constatado em maio de 2011.
Os resultados menos favoráveis da principal grandeza macroeconômica da contabilidade social nacional reproduzem a pronunciada influência de fatores exógenos, traduzidos na perda de embalo das exportações, em decorrência da apreciável rearrumação dos fluxos de comércio internacional, determinada pelas incertezas subjacentes aos movimentos pendulares da guerra comercial, patrocinada pelo presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, com avanços e recuos, ao velho estilo “morde e assopra”.
É pertinente sublinhar que o estilo do comandante do governo norte-americano reflete o que a teoria comportamental define como processo social escorado em repreensíveis e múltiplas malandragens visando à destruição das regras, ou semeadura de confusões, como, por exemplo, o escape do pagamento de tributos, cuja cobrança constituiria uma espécie de violação da liberdade, conforme as sutilezas teóricas amarradas pelos arautos da escola de Chicago.
O curso de inflexão do PIB também advém, de maneira inquestionável, de pressões de natureza doméstica, exprimidas pela chegada, embora defasada, das severas restrições monetárias, empregadas pelo BC, que podem ser sintetizadas na subida e preservação dos juros primários, em patamares exorbitantemente elevados, mesmo com a interferência do ambiente de exacerbação das tensões políticas e institucionais, marcadas por perenes quedas de braço entre os poderes.
O pior é que a intransigência conservadora da agência monetária, mantém o preço de rolagem da dívida pública e das transações interbancárias e os custos de captação dos recursos pelas instituições financeiras no ápice, o que, em um contexto de exacerbada concentração bancária, contamina os demais elos da cadeia de empréstimos e financiamentos e potencializa ganhos com especulação financeira bastante superiores ao retorno esperado do capital, sem a necessidade de ajuste pelo risco.
As alegações sedutoras, com verniz acadêmico, renovadas pelo BC para a dolorosa terapia ortodoxa, por intermédio do Comitê de Política Monetária (Copom) – ocupado exclusivamente com a produção intertemporal da convergência da inflação para a medida central de 3% ao ano, definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) -, parecem declarações abstratas cada vez mais descoladas da realidade da espiral de preços.
Isso porque, o principal parâmetro da inflação, referenciado pelo índice nacional de preços ao consumidor amplo (IPCA), do IBGE, tem exibido curso declinante, com propensão à estabilização ao redor do teto da meta anual de 4,5%, em razão primordialmente de choques negativos de oferta (dólar, alimentos e energia), que, por sinal, mostram-se absolutamente inertes à prescrição de juros elevados, recomendada para o combate de pressões de demanda.
Na verdade, na retórica e ação, a entidade encarregada do controle da moeda sugere representar o papel de contraponto à substancial expansão fiscal, e, o que é, mais grave, ao desinteresse do executivo e legislativo – rotineiramente mais pragmático e pouco programático – na interrupção dos abusos na preparação e, sobretudo, execução da peça orçamentária, no que está inteiramente coberta de razões.
No entanto, o inconveniente repousa no rechace pelo BC de qualquer insinuação de parcialidade nas condutas, expressa na submissão aos interesses do rentismo, que, diga-se de ´passagem, encontra-se incrustrado no cotidiano econômico nacional desde a década de 1970.
Por sinal, o privilegiamento da orbita financeira em detrimento da produtiva foi o grande responsável pela falência do estado desenvolvimentista e a eclosão e consolidação da hiperinflação da década de 1980 e começo da de 1990, derrubada graças ao consenso político e à adesão social à elaboração, criterioso anúncio e implantação do Plano Real, a partir de 1994.
Perceptíveis, ainda que em doses homeopáticas, na produção e emprego, os estragos da austeridade monetária mostram-se mais visíveis nos indicadores de consumo, particularmente na contração da renda líquida disponível pelas famílias, desdobrada, rapidamente na impulsão do endividamento e inadimplência.
Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) constatou que 79,5% dos consumidores brasileiros possuíam algum tipo de dívida (cartão de crédito, cheque especial, cheque pré-datado, crédito consignado, crédito pessoal, carnês, financiamento de casa e carros, e outros), em outubro de 2025, contra 76,9%, no mesmo mês de 2024.
Em igual intervalo de cotejo, a população com contas atrasadas (média superior a dois meses) aumentou de 29,3% para 30,5%, e aqueles que não tem condições de pagamento subiram de 12,6% para 13,2%, sendo que o passivo na modalidade mais cara, o cartão de crédito, cresceu de 83,5% para 84,4%, que, no rotativo, cobrava juros médios de 439,8% ao ano, em outubro de 2025, segundo o BC.
Em idêntica direção, levantamento feito pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, estimou 72,17 milhões de consumidores negativados no país, em outubro de 2025, o que equivale a 43,30% da população adulta.
Por essas circunstâncias, os prognósticos para 2026 deverão contemplar inescapavelmente o não desaparecimento das flutuações globais, principalmente com a continuidade dos embates geopolíticos, notadamente a briga pela hegemonia entre China e EUA, e das guerras, e o acirramento dos atritos de ordem interna, agravados pela campanha eleitoral.
O calendário político deverá esboçar feições de transbordamento das rinhas da polarização enraivecida, ainda que de forma dissimulada pelas opções do disperso campo da direita do espectro ideológico, que, em algum momento, necessitarão das bênçãos da liderança do chefe de estado anterior, desbotado, preso e inelegível, configurando uma verdadeira carta fora do baralho, malgrado carregar o atributo de uma palavra não dicionarizada.
Logo, os episódios do espetáculo do desempenho da economia contarão com a influência decisiva do alívio provocado pela isenção do imposto de renda dos pobres e da classe média baixa, um passo inicial no sentido da tributação redistributiva, e da multiplicação do dispêndio público corrente, direcionado prioritariamente à proteção dos menos afortunados.
Também pesarão as incertezas quanto à dimensão da nova safra agrícola, crucial à continuidade da descida da inflação de alimentos (que recuou de 8%, em maio, para 3%, em novembro, quando tomada em doze meses), e às caminhadas dos preços das matérias primas minerais e metálicas e do dólar.
No plano político sobressairá a ausência de diálogos e entendimentos voltados à construção de plataformas de longa maturação, centradas em reformas que devolvam a operacionalidade do estado e beneficiem largamente a recuperação da eficiência da comunidade produtiva.
A propósito desse último ponto, documento preparado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), indica que a produtividade brasileira cresceu 0,9% a.a., entre 1991 e 2024, versus 1,2% da média das nações integrantes da entidade.
O mais complicado é que o indicador continua estacionado em 38% do contabilizado pelo painel de países da OCDE, ante 40% dos latino-americanos, que são capitaneados pela Costa Rica (64%) e contam com os extremos de Guatemala e Peru (27%).
Praticamente com carga tributária igual à da OCDE, o Brasil investe cerca de 1% do PIB em pesquisa e desenvolvimento (P&D), contra 3% do PIB, da organização, e 0,5%, da América Latinam, carecendo de alinhamento adequado das ações governamentais horizontais (investimentos, gastos e incentivos fiscais) com políticas verticais, focadas em áreas selecionadas como transição energética, digitalização e inteligência artificial, acompanhadas da explicitação do respectivo modelo de financiamento.
Considerando o cenário de aderência ou mesmo endosso das candidaturas conservadoras, fragmentadas, à esmagadora maioria das propostas anacrônicas, defendidas pelo mandatário antecessor, e a lacuna, ao menos por enquanto, de uma postulação equidistante dos extremos, esse tipo de arranjo poderá assegurar suficiente aprovação popular e amplo potencial competitivo ao incumbente de plantão no empreendimento de reeleição.
Até porque, no que diz respeito ao principal vetor de propulsão da vontade do grosso da população votante, acomodada no pé da montanha social, a taxa de desemprego fechou, no trimestre móvel findo em outubro de 2025, em 5,5% da força de trabalho, o que representa, 5,9 milhões de pessoas à procura de trabalho, a menor da série histórica, iniciada em 2012, aferida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE.
Cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com apoio da Pnad atestam o atingimento, em 2024, de recorde na renda e menores níveis de desigualdade social observados desde 1995, com destaque para os intervalos entre 2003 e 2014 e 2022 e 2024.
Já o IBGE revela que a pobreza (US$ 6,85 por dia, pela regra de paridade do poder de compra do Banco Mundial) e extrema pobreza (US$ 2,15/dia/PPP) registraram, em 2024, as menores taxas da série de levantamentos, começada em 2012, sendo, respectivamente, 23,1% e 3,5% da população, o que corresponde a 48,95 e 7,35 milhões de pessoas.
Porém, investigação da OCDE, cobrindo 40 países, denotou o Brasil com a maior densidade de trabalhadores pobres (16,7% do total), seguido por Costa Rica (15,1%) e México (14,2%), contra média de 8,2% do órgão internacional, ao passo que República Checa, Bélgica e Irlanda ostentam as menores taxas, com 3,6%, 4,0% e 4,4%, respectivamente.
Complementarmente, simulações da Receita Federal, baseadas em 40,7 milhões de declarações de pessoas físicas, retratam que, em 2023, os 10%, 5%, 1% e 0,1% mais ricos concentravam 64,2%, 54,7%, 24,5% e 12,5%, respectivamente, da renda nacional, contra 13,5%, dos 50% mais pobres.
Portanto, é crucial o entendimento de que as iniciativas inclusivas não podem se limitar ao populismo, implícito no assistencialismo aos pobres, devendo perseguir a promoção de condições para a realização absoluta do potencial das pessoas, factível apenas com inversões em capital humano (educação formal) e saúde de qualidade.
Nessa perspectiva, nunca é demais recordar a afirmação atribuída a Paul Samuelson (1915-2019), Prêmio Nobel de Economia de 1994: “uma economia é inservível se não opera no sentido de indicar os meios pelos quais, com recursos escassos, se possa promover o máximo de bem-estar possível para a maior parte da população.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.







