“Tudo o que acontece de ruim na vida da gente é pra meiorá”

“Tudo o que acontece de ruim na vida da gente é pra meiorá”
Gilmar Mendes Lourenço.

A frase emblemática proferida pelo personagem Candinho, interpretado brilhantemente pelo protagonista, Sergio Guizé, na divertida novela “Êta Mundo Melhor”, exibida de segunda-feira a sábado, no princípio da noite pela Rede Globo, e de autoria de Walcyr Carrasco e Mauro Wilson, comporta, naturalmente, mais uma obra de ficção motivacional.

No entanto, a lógica da sentença afirmativa e radicalmente virtuosa proferida pelo astro deve ser instantaneamente entendida e absorvida por pelo menos duas autoridades da república brasileira que ocupam, respectivamente, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).

De fato, investigações, julgamento, condenação e prisão de Lula, em abril de 2018, por crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, e posteriores deliberações judiciais sugestivas de falhas processuais, anulação de provas e inquéritos e soltura do ex-presidente, que preencheram o intervalo de tempo entre 2019 e 2021, seguidas do retorno triunfal do incumbente – consagrado pelas urnas eletrônicas em 2022, pela terceira vez na história – em janeiro de 2023, não costumam acontecer com frequência.

Em semelhante perspectiva analítica, parece razoável admitir que ninguém consegue escapar do rigoroso enquadramento no labirinto da Lei Magnitsky – aplicada pelo governo americano como punição a cidadãos estrangeiros violadores de direitos humanos e/ou envolvidos em graves delitos de corrupção, por meio de congelamentos de bens e proibição de ingresso nos Estados Unidos (EUA) – de maneira tão rápida e surpreendente como ocorrido com o Ministro da Suprema Corte, Alexandre de Moraes, e sua esposa, Viviane Barci.

Na prática, com decisão de tamanha envergadura, a gestão de Donald Trump esvaziou as iniciativas “ideológicas” dos três “patriotas” – patetas, para alguns, sendo Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Allan dos Santos – brasileiros, exilados na América na busca desesperada de inverter eleições democráticas, e estourou a bexiga da pré-candidatura familiar à mandatário do país, em 2026, para a alegria generalizada das demais correntes postulantes, englobando tanto ortodoxos quanto progressistas.

A esse respeito, cumpre alertar que a pesquisa Quaest, encomendada pela Genial Investimentos e efetuada entre os dias 11 e 14 de dezembro de 2025 junto à 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, ofereceu o delineamento de contornos diferentes, ao vislumbrar o senador Flávio Bolsonaro em segundo lugar na contenda eleitoral, em qualquer simulação, desidratando as demais vontades de direita e sendo derrotado por Lula por 46% a 36% das intenções de voto, no segundo turno.

Voltando ao episódio Magnitsky, enquanto Moraes catalisou a intransigente coordenação da defesa da democracia contra a conspiração golpista de 2022-2023, a Corte Superior vem sendo chamuscada por incursões menos transparentes, amparadas em deliberações monocráticas, e por graves deslizes processuais ou de conduta, cometidos por certos ministros.

Já para os integrantes da Casa de Leis, a expressão de Candinho não soa pertinente. Por lá, predomina permanentemente o “melhor dos mundos”, fartamente abastecido com vultosas emendas e generosos haveres alocados nos fundos partidário e eleitoral, além das chances concretas de participação direta em nomeações para cargos e arregimentação de verbas dos ministérios mais encorpados, ainda que ao preço da diminuição da eficácia ou mesmo desmanche de importantes políticas públicas.

Nesse caso, é pertinente resgatar a perseguição da expressão máxima “dias melhores virão”, por agremiações partidárias e blocos com desejos financeiros supridos, e o quase absoluto descaso no atendimento das demandas explicitadas pela sociedade, que, ao que tudo indica, enxerga o cotidiano parlamentar com as lentes do “nada é tão ruim que não possa piorar”.

Particularmente a Câmara dos Deputados tem se notabilizado pela condução de uma agenda, ou melhor metodologia, centrada na elaboração de arranjos que se caracterizam como verdadeiros entulhos institucionais, a exemplo da proposta de anistia ampla aos envolvidos no planejamento e ações operacionais direcionados à supressão da democracia, que, em sendo rejeitada pelo Senado, foi substituída pelo projeto da dosimetria, uma espécie de anistia disfarçada.

Nunca é demais recordar a frase do jurista e filósofo austro-húngaro, Hans Kelsen (11 de outubro de 1881 – 19 de abril de 1973), enaltecendo que “em uma democracia, a vontade da comunidade é sempre criada através de uma continua discussão entre maioria e minoria”.

A despeito da natureza inesgotável da leitura do ambiente político nacional, a reflexão neste espaço, a derradeira de 2025, parte de uma postura mais objetiva, menos pessimista ou alarmista e mais afinada com a percepção e encaixe em dinâmicas positivas, escancaradas e renovadas pelo astro da novela.

Nessas circunstâncias, a cena do texto procura exprimir os mais relevantes medidores ou marcadores das variáveis econômicas e sociais da nação, no espetáculo que se aproxima do epílogo em 2025, destacando uma conclusão sumária e, sobretudo, provocativa.

Pela ótica da oferta, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção nacional de grãos alcançará 354,392 milhões de toneladas, em 2024, suplantando em 0,6% a safra recorde obtida no ano anterior, combinando acréscimo de 3% na área plantada e queda de -2,3%, na produtividade.

Em contraposição, os indicadores industriais traduzem um quadro de desaceleração da economia, ou “pouso suave”, em reposta às incertezas acopladas às turbulências globais, às disfunções políticas domésticas e à persistente estratégia de juros reais demasiadamente elevados, tocada pelo Banco Central (BC), em nome do objetivo prioritário de combater “supostos” focos inflacionários de demanda.

A produção industrial, acompanhada pelo IBGE, deverá fechar o ano com variação inferior a 1%, afetada pelo encolhimento das encomendas e fabricação de bens de consumo não duráveis e semiduráveis, por conta da exaustão da capacidade de endividamento primário da população.

Com isso, a atividade fabril atingirá nível apenas 2% acima do apurado pré-pandemia de Covid-19, em fevereiro de 2020, e 14% abaixo do ápice da série, verificado no distante maio de 2011, sob as bençãos iniciais da Nova Matriz Econômica. Ressalte-se que parte do comportamento desfavorável da oferta industrial será contrabalançado pelo incremento de quase 8% das importações.

Em paralelo, levantamentos da Confederação Nacional da Indústria (CNI) igualmente encaminham performance negativa para o conjunto de elementos observados, notadamente, faturamento real (com depuração da inflação), horas trabalhadas na produção e utilização da capacidade instalada.

Pelo ângulo da demanda, as exportações devem subir menos de 2%, em face da interferência do tarifaço fixado pela administração de Donald Trump, não compensada integralmente pelo desvio para outros mercados, e do enfraquecimento do dólar, em escala planetária.

O volume de vendas do comércio varejista ampliado, também mensurado pelo IBGE, tende a terminar 2025 empatado com 2024, ou até amargar variação levemente negativa, afetada por móveis, veículos, motos, peças e partes e atacado de alimentos, bebidas e fumo, imputada à retração dos orçamentos das famílias provocada pelo endividamento.

Sondagem da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) sugere possibilidades de o montante de dívidas acertar 80% das famílias, tendo 1/3 delas com contas atrasadas, por mais de 60 dias, e mais de 13% sem condições mínimas de regularização dos pagamentos. O pior é que aproximadamente 85% dos consumidores possuem passivos no cartão de crédito, que na modalidade rotativo cobra juros médios superiores a 440% ao ano, segundo o BC.

De seu turno, a movimentação dos serviços, que representam 68,9% do produto interno bruto (PIB) – versus 24,4% do PIB, da indústria, e 6,7% do PIB, da agropecuária -, devem virar o ano com expansão de 3%, impulsionada por informação e comunicação, transporte aéreo e terrestre e meios de hospedagem, o que representará o recorde da série e ocupará patamar 20% superior ao antecedente ao surto de Sars-CoV-2.

Um dado extremamente preocupante é a retração da intensidade de geração de emprego, massa salarial real e salário médio real na indústria, segmento econômico portador dos mais expressivos efeitos multiplicadores para frente e para trás, denotada por pesquisa da CNI.

A título de complementação, os indicadores antecedentes, encarregados de dimensionar as expectativas dos agentes econômicos (empresários da indústria e comércio) e consumidores, tem exibido curso descendente e/ou figurando na zona de pessimismo.

Em um raciocínio bastante ousado, a apreensão da conjuntura oportunizaria argumentar que os aspectos benignos elencados derivam fundamentalmente da frouxidão fiscal, que apoia as transferências oficiais diretas de renda dirigidas à proteção dos vulneráveis, atestada pelo registro de pisos históricos de desemprego, desigualdade social, pobreza e miséria.

Não obstante, os aprimoramentos sociais ainda somem na linha do horizonte. Essa anomalia pode ser contemplada em investigação do economista francês, Thomas Piketty, que identificou o Brasil como a quinta nação mais desigual do mundo, em rendimento médio per capita, a frente apenas de África do Sul, Colômbia, México e Chile, com os 10% mais ricos da população abocanhando 59,1% da renda, contra 9,3% dos 50% mais pobres.

Quando considerada a soma das riquezas (incorporando ativos financeiros e imóveis), a concentração experimenta apreciável adensamento, com os 10% e 1% estabelecidos no cume da pirâmide de rendimentos arrebatando 70% e 33% do total, respectivamente.

De outro extremo, valeria a pena lançar a atrevida narrativa de que a conformação do conjunto de componentes de adversidades repousa no incisivo empenho da autoridade monetária em “virar as costas” à premência de oxigenação da economia e assegurar a maximização da satisfação das gananciosas instituições financeiras, em fiel adesão à confortável doutrina do “dinheiro gera mais dinheiro.

É claro que a justificativa final aqui alinhavada está sujeita a “chuvas e trovoadas” e, principalmente, a contestações em campos de debates maduros, no interior da academia, ou primitivos, normalmente sediados em mesas de botecos, e aberta ao convencimento de equívocos.

Há que se manter a noção fundamental de que o desmanche dos canais perpetuadores da disparidade social e, por extensão, a transformação em realidade de fração dos tenros pensamentos e profecias feitas por Candinho, com endosso do “burro Policarpo”, requer inarredável e definitiva resolução da equação que impede o cumprimento dos compromissos políticos de democratização de oportunidades em educação e saúde.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *