Criptomoedas terão novas regras no Brasil a partir de fevereiro de 2026

Criptomoedas terão novas regras no Brasil a partir de fevereiro de 2026

Entenda o que muda para corretoras e investidores

O mercado brasileiro de ativos virtuais entra em um novo capítulo a partir de 2 de fevereiro de 2026, quando passam a vigorar as três resoluções do Banco Central (BCB) que estabelecem o regime regulatório para PSAV (Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais) e SPSAV (Sociedades Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais).

O Brasil já ocupa a 5ª posição mundial em adoção de ativos virtuais, segundo relatório da Chainalysis, e movimenta bilhões mensalmente em operações digitais. Com a consolidação da Lei nº 14.478/2022, o país passa a ter um dos arcabouços legais mais abrangentes da América Latina, e as regras que entram em vigor em 2026 devem redefinir a atuação de exchanges — plataformas onde as pessoas compram, vendem e trocam criptoativos como Bitcoin, Ethereum e outras moedas digitais —  e para os prestadores de serviços de ativos virtuais.

O objetivo do regulador é criar padrões mínimos de segurança, transparência, governança e proteção ao consumidor, aproximando o setor ao nível de exigência aplicado ao sistema financeiro tradicional.

Segundo o especialista em tecnologias financeiras e CRO da Azify, Gustavo Siuves,  o efeito principal será a maturação do mercado.

“O Brasil está seguindo a rota dos países que estruturaram marcos sólidos para ativos virtuais. As novas regras permitem o avanço da inovação e estabelecem profissionalismo. Para operar com escala e longevidade no país, será preciso comprovar controles reais, governança robusta e capacidade financeira compatível com a complexidade do setor”, explica Siuves.

Além da PSAV e SPSAV, o artigo 20 da Resolução BCB nº 520/2025 também permite que outros tipos de instituições autorizadas prestem serviços relacionados a ativos virtuais, desde que enquadradas nos parâmetros regulatórios.

O que muda: os pilares da regulamentação

O novo marco regulatório se apoia em quatro eixos centrais. São eles:

Governança e estrutura societária mínimas

As empresas deverão adotar estrutura jurídica compatível com o nível de risco operacional e com suas funções, com administradores residentes no país, antecedentes limpos e experiência comprovada na área financeira ou de tecnologia. O BC avaliará, caso a caso, capacidade técnica e alinhamento com as atividades pretendidas.

Solidez financeira proporcional às atividades

As resoluções já substituíram os valores fixos da proposta inicial por uma metodologia proporcional ao risco e ao conjunto de atividades desempenhadas. Isso significa que cada empresa terá um nível de exigência próprio, algo que, segundo o advogado Eduardo Bruzzi, especialista em Direito Regulatório Bancário e de Pagamentos e sócio do escritório Becker Bruzzi Lameirão Advogados, exige atenção especializada.

“O novo cálculo é individualizado e considera a natureza específica de cada operação. Não existe mais um valor único aplicável a todas as categorias. Cada caso é um caso e por isso, planejamento antecipado é essencial para evitar surpresas ao longo do processo de autorização.”

Infraestrutura tecnológica auditável

O BC pode exigir certificações independentes sobre segurança cibernética, resiliência operacional, proteção de dados e continuidade de negócios. Os sistemas precisam ser auditáveis e integráveis aos mecanismos de supervisão.

Regras rígidas de prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) e combate ao financiamento do terrorismo (CFT)

As empresas deverão implementar monitoramento contínuo de transações, além de KYC/KYB aprofundado — isto é, procedimentos de ‘Conheça seu Cliente’ e ‘Conheça seu Negócio’, que verificam a identidade de usuários e empresas, confirmam documentos, analisam o quadro societário e validam a origem dos recursos. Também será obrigatório manter trilhas de auditoria, controles de risco e políticas proporcionais ao porte e à complexidade da operação.

Gustavo Siuves reforça: “O compliance não é mais opcional. O Banco Central verificará não apenas se as políticas existem, mas se funcionam de fato. Controles que funcionam na prática serão decisivos para aprovação ou indeferimento.”

Como será o processo de autorização? 

O processo de autorização junto ao Banco Central seguirá um fluxo estruturado em etapas. Primeiro, as empresas deverão protocolar um requerimento formal contendo toda a documentação comprobatória exigida pelo regulador. Esse dossiê incluirá desde documentos societários e demonstrativos financeiros até comprovações técnicas da infraestrutura operacional.

Após o protocolo, o BC iniciará uma análise técnica detalhada que poderá demandar esclarecimentos adicionais, apresentação de documentos complementares ou até mesmo visitas de supervisão in loco, dependendo da complexidade e do porte da operação pretendida.

O prazo para conclusão da análise ainda não foi divulgado oficialmente pelo Banco Central, mas especialistas estimam que processos dessa natureza possam levar de seis meses a um ano, considerando a necessidade de validações técnicas, jurídicas e operacionais.

De acordo com Eduardo Bruzzi, o rigor é proposital: “O Banco Central está sinalizando que prestadores de serviços de ativos virtuais serão tratados como instituições financeiras em termos de responsabilidade. O nível de diligência exigido é equivalente e o setor precisa se reorganizar para esse novo patamar”, ressalta o advogado.

Uma vez aprovado, o PSAV ou SPSAV receberá autorização formal para operar e será incluído no registro público mantido pelo BC. A partir daí, a instituição estará sujeita à supervisão contínua, podendo ser auditada periodicamente para verificação do cumprimento das obrigações regulatórias.

O que acontece a partir de fevereiro de 2026

A partir de fevereiro de 2026, quando as novas regras passam a vigorar, inicia-se oficialmente o período de transição. As empresas que já operam no mercado poderão continuar funcionando, desde que iniciem o processo de autorização dentro dos prazos estabelecidos pelo Banco Central. Já os novos entrantes só poderão começar a operar após a aprovação formal do regulador.

As entidades que optarem por atuar sem autorização estarão sujeitas a sanções administrativas, civis e criminais, além de possíveis restrições operacionais que podem comprometer totalmente a continuidade do negócio.

Para Gustavo Siuves, o momento deve ser encarado como oportunidade: “Estamos diante da maior reorganização regulatória da história do setor. As novas regras exigem preparo estrutural, tecnológico e jurídico, e marcarão uma fase de maior maturidade para o mercado de ativos virtuais no Brasil. O cenário tende a se tornar mais estável, com operações mais qualificadas e aderentes às boas práticas internacionais”.

Um setor que entra em 2026 mais técnico, regulado e competitivo

A implementação plena do marco regulatório inaugura uma fase de profissionalização do mercado de ativos virtuais no Brasil. Exchanges, custodians, infra providers e intermediários precisarão demonstrar maturidade operacional semelhante à de instituições financeiras tradicionais.

E, embora o processo seja rigoroso, especialistas são unânimes em afirmar: a regulação tende a fortalecer a competitividade, aumentar a confiança do consumidor e atrair players internacionais com histórico de compliance.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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