Não é o narcotráfico, estupido: Maduro caiu de podre

Não é o narcotráfico, estupido: Maduro caiu de podre
Gilmar Mendes Lourenço.

A primeira parte do título deste artigo constitui uma mera adaptação da frase “é a economia, estupido”, cravada pela equipe de comunicação da campanha do candidato à presidência dos Estados Unidos (EUA), Bill Clinton, em 1992, em disputa contra George W. Bush, em tempos de profunda retração dos níveis de atividade. Em inglês, “It’s the economy, stupid”.

A tomada por empréstimo da afirmação repetida em episódios eleitorais por mais de três decênios, colocando as dificuldades econômicas atravessadas por famílias e empresas no centro do debate, soa apropriada à apreensão resumida da intervenção no território venezuelano e captura do surpreendentemente desprotegido comandante nacional, Nicolás Maduro, pelos americanos, em 3 de janeiro de 2026.

É claro que o presidente Maduro representava a perpetuação, por vias autoritárias, da tirania explícita da revolução bolivariana, concebida, liderada e conduzida por Hugo Chávez, entre 1999 e 2013, quando de seu falecimento motivado por um câncer terminal.

Sob inspiração das ideias do prussiano, Karl Marx, e do italiano, Antonio Gramsci, o grupo chavista perseguia a implantação de uma espécie de socialismo do século 21, centrado em estratégias populistas de defesa veemente do nacionalismo, repúdio ao imperialismo americano e reestatização dos meios de produção.

Na condição de portador das maiores reservas de petróleo do planeta (estimadas em 303 bilhões de barris), a nova nacionalização (estatização em 1976, com a criação da Petróleos de Venezuela S.A, e revendida nos anos 1990) das empresas dos EUA atuantes no país, ensejou à Venezuela o embarque na locomotiva que os economistas denominam de “bênção dos recursos naturais”.

Em ambiente de contínua elevação das cotações da commodity, o boom do óleo viabilizou crescentes e vultosos ingressos de moeda estrangeira suficiente à cobertura das necessidades financeiras domésticas, notadamente aquelas focadas na população mais pobre, e, em consequência, a garantia de um encorpado reduto cativo de massa votante.

Na fronteira política e institucional, de maneira rápida, o regime empenhou-se em organizar sólidas alianças com as forças armadas e exercer controle pleno, submissão, ou mesmo cooptação, permanente dos poderes legislativo e judiciário e tutela dos veículos profissionais formadores de opinião, além de perseguir e/ou sufocar as atividades das oposições.

É estarrecedor constatar que, de acordo com algumas missões da Organização das Nações Unidas (ONU), houve exponencial crescimento do número de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual de pessoas abertamente contrárias ao regime, desde o seu nascedouro.

Os requisitos de governabilidade esboçavam acentuada flutuação nos derradeiros tempos de Chávez, influenciados pela volatilidade da demanda e preços globais do petróleo e, principalmente, a proliferação de denúncias de corrupção e malversação de haveres do estado, neutralizadas pelo absoluto beneplácito do parlamento, justiça e imprensa, com a permissão de reeleições praticamente ad aeternum.

Com a morte do empreendimento Hugo Chávez de eternização personalista no poder, que excluía a preparação de lideranças sucessórias, Maduro, na condição de vice, assume a direção da nação, num contexto de “maldição das matérias primas”, falência do estado totalitário e incontáveis barreiras financeiras à reversão da crise social.

Há quem defenda que, por carregar uma personalidade formada pelo universo de defeitos do mentor e praticamente nenhuma das inúmeras virtudes contabilizadas pela figura mítica, em especial a sapiência, Maduro teria apostado todas as fichas na intensificação de nexos financeiros incestuosos com o crime organizado e milícias armadas para assegurar o poder.

Ainda assim, empilhou problemas políticos, como a autoproclamação do presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaido, líder da oposição, como presidente interino da Venezuela, em 2019, reconhecido por diversos países, dentre os quais EUA, União Europeia e Brasil. Como não poderia deixar de ser, a atitude foi desqualificada pelo Supremo Tribunal de Justiça.

A repressão política mais recente repousa na fraude e/ou não apresentação das atas das eleições presidenciais de julho de 2024, que confirmariam a acachapante derrota de Maduro para o candidato de oposição Edmundo González, da Plataforma Unitária Democrática (PUD), apurada por diferentes observadores internacionais. Antes disso, a favorita, Maria Corina Machado, ex-deputada, cassada em 2014, foi impedida de registrar a candidatura.

Desde então, aprofundou-se o quadro de recessão econômica, escalada da inflação (mais de 170% ao ano), desemprego, escassez de produtos essenciais e miséria e de acentuado movimento de migratório de venezuelanos em busca de condições de vida mais dignas nos estados vizinhos, preponderantemente Colômbia, o que conferiu contornos à inescapável “queda de podre” de Nicolás Maduro.

Calcula-se que a população da Venezuela seria de 30 milhões de habitantes, tendo mais de 7 milhões deixado o país e que o produto interno bruto (PIB) encolheu mais de 70%, desde 1999, e que mais da metade das pessoas vivem na pobreza extrema, o que equivale a US$ 2,15 per capita por dia, segundo o método paridade de poder de compra do Banco Mundial (PPP/BIRD).

Nessas circunstâncias, o espetáculo militar de Donald Trump, destituído de respeito aos princípios elementares do direito internacional de soberania territorial e autodeterminação dos povos e da própria Constituição americana, não possui a mínima aderência com o combate ao terrorismo acoplado ao tráfico de drogas, à segurança energética ou à defesa de liberdades.

Recorde-se que o regramento mundial prevê invasão somente em casos de autodefesa ou aprovação do Conselho de Segurança da ONU, que, por sinal, foi simplesmente ignorado, em 2003, por ocasião da “Operação Liberdade do Iraque”, que visava derrubar Saddam Hussein e descobrir e retirar armas de destruição em massa, jamais localizadas.

Na verdade, o palavrório de Trump preconiza a reindustrialização americana, ancorada no paradigma de substituição de importações, que depende crucialmente do uso intensivo de combustíveis fósseis, em contraste com a imprescindibilidade global da transição energética e diminuição dos gases de efeito estufa.

Para tanto, os maiores produtores e consumidores de petróleo do mundo, EUA, carecem de escalas crescentes de suprimento sem nenhum óbice de caráter técnico ou político, que serão propiciadas por corporações americanas, satisfatoriamente estimuladas à novamente funcionar e lucrar na Venezuela.

Por fim, a postura de regresso do imperialismo da superpotência, expressa no slogan “é permitido invadir e atacar”, criticado apenas protocolarmente pela comunidade democrática, particularmente a Europa, e aplaudido por vários outros países, dentre os quais destacam-se os ultradireitistas chileno (recém-eleito), argentino e paraguaio, e contestado, não de modo tão agressivo, por China, Rússia, Brasil, Colômbia e Uruguai, emite um recado aos protagonistas da geopolítica global.

A mensagem encaminha a ideia de que a América Latina deve retornar a posição de zona de tutela estratégica, ou quintal, dos EUA”, em resposta à progressiva presença econômica e política chinesa no continente. Contudo, o comunicado velado abre flancos para outras instâncias magnificarem agressões aos vizinhos, como a Rússia abocanhando pedaço expressivo da Ucrânia, a China adentrando em Taiwan, e Israel subjugando o que sobrou da Palestina.

A única certeza para o povo venezuelano, perplexo e empobrecido, é a deposição definitiva de Maduro. A liberação do estigma do Chavismo e a recuperação da democracia por caminhos pacíficos ainda configuram enormes incertezas, a despeito da existência de oposição organizada e dotada de considerável densidade eleitoral e adesão social.

No Brasil, integrantes de correntes políticas conservadoras apressaram-se no lançamento da argumentação de razoáveis chances de interferência americana na contenda eleitoral brasileira deste ano, como reprodução ampliada do acontecimento na Venezuela, assentada no petróleo. Afinal, o país possui a segunda maior reserva mundial de terras raras e minerais críticos, crucial aos EUA.

Todavia, cumpre advertir que, ao contrário da deterioração da mesmice autocrata da Venezuela, o Brasil foi palco, ao menos ao longo das últimas quatro décadas, da conquista coletiva de inúmeros e apreciáveis ativos institucionais e de estabilidade econômica.

Dentre eles caberia sublinhar a redemocratização – obtida pela persistente jornada de renovação proporcionada pelo voto direto e marcada pela pluralidade e alternância de poder-, o fortalecimento das entidades típicas de estado, a desinflação, oportunizada pelo Plano Real, e a ampla retaguarda de proteção social, plantada na Constituição de 1988 e montada, operacionalizada e alargada por cúpulas de distintos governos desde 1994.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *