Operação Venezuela: peças e jogadas no tabuleiro de Donald Trump

Gilmar Mendes Lourenço.
Os apressadinhos e oportunistas atores políticos atuantes em distintos cantos do planeta desencadearam celebrações, escancaradas ou discretas, da ofensiva militar dos Estados Unidos (EUA) na Venezuela, com bombardeio de quatro cidades, incluindo Caracas, que culminou na captura do ditador, Nicolás Maduro, e sua mulher, Cilia Flores, em 3 de janeiro de 2026, supondo a supressão do regime bolivariano.
Pouco mais de uma semana depois da operação, os admiradores das atitudes do presidente Donald Trump começaram a esboçar flagrante desapontamento com o não aproveitamento da apreciável chance de abate da gestão opressora e, o que é pior, a percepção da preocupação exclusiva com “America First” do empreendimento de assalto, que mira a deliberada evasão da mesa de discussões dos grandes dramas que afligem o mundo e respectivas soluções
Parece não restar qualquer dúvida, no reduto de analistas internacionais, de que a intenção da efetiva incursão militar não possui a menor aderência com a substituição da administração autocrata e restituição do aparato democrático à Venezuela, ao menos em curto termo.
Ao contrário, por incontáveis “pensamentos, palavras, atos e omissões”, Trump apresenta-se impregnado de autoritarismo e não demonstra qualquer sinal de apreço ao regramento democrático e a ordem mundial multilateral – que os EUA contribuíram decisivamente para a montagem – especialmente no que se refere ao reconhecimento de derrotas em conflagrações eleitorais.
Tanto é assim que, em janeiro de 2021, o atual presidente incitou seus raivosos seguidores à tomada do Capitólio americano, na convicção de evitar a ratificação da vitória de Joe Biden pelo parlamento e convicção de anular a vontade majoritária dos cidadãos locais, seja por quantidade de total de votos ou via arranjo previsto no colégio eleitoral.
Cumpre sublinhar a verificação de evento semelhante no Brasil, em janeiro de 2023, convocado por chefes de dinastias empenhados no recebimento do poder eterno, filhotes dos “anos de chumbo”, assessorados por membros de variantes egressas da escola de Steve Bannon, disseminadora de raiva, acéfalos dos atributos expressos em interlocução e entendimento democrático e autoproclamados soldados de causas nobres.
A intentona foi prontamente combatida pelas instituições representativas do “povo não golpista”, cujos desdobramentos levaram à descoberta e investigação de uma trama visando à anulação dos resultados das eleições ao cargo de presidente (somente), em segundo turno, seguidas de julgamento e condenação dos envolvidos.
Trump não apenas desperdiçou, deliberadamente, o clima de enorme inquietação inicial, propício a iniciativas mais ousadas, como a eliminação da cúpula associada a Maduro, como descartou a alternativa de oferecimento do governo à corrente de oposição, liderada por Maria Corina Machado, vencedora do pleito de 2024, com a candidatura formal de Edmundo González, da Plataforma Unitária.
Os oponentes do regime chavista teriam obtido 67% dos votos em 81,85% das urnas apuradas, de acordo com as atas recolhidas dos centros de votação, antes de Maduro confiscá-las e autoproclamar-se vencedor, com o beneplácito da Justiça, negação global generalizada e reconhecimento por ditaduras e teocracias, pela Executiva Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, sendo que este último chegou a comparecer à posse absolutamente fraudulenta.
Recorde-se que Corina, contemplada com o Nobel da Paz, em 2025, inadvertidamente cobiçado pelo comandante dos EUA e até oferecido como presente pela premiada, ostentaria considerável rejeição junto à população venezuelana, a julgar pelas afirmações de Trump.
Logo, não causou surpresa a posse imediata, ainda que provisória, da colaboradora adestrada do protetorado e vice de Maduro, Delcy Rodríguez, fiel escudeira do antecessor, com aval dos EUA – ante os ensaios fracassados no Iraque, Afeganistão e Líbia – e amparo do irmão Jorge Rodriguez, que toca a Assembleia Nacional.
A colunista da Folha de S. Paulo, Sylvia Colombo, apurou fragmentação da hierarquia chavista. De um lado, situa-se a ala “moderada”, controlada por Delcy e Jorge, e, de outro, perfila-se a linha dura, formada por Diosdado Cabello, titular da pasta do Interior, e Vladimir Padrino, da Defesa, ligados a organizações criminosas e milícias armadas, corrupção e esquemas de espionagem cubana praticados na Venezuela, além de serem responsáveis pela forte perseguição aos adversários políticos.
Na sequência, o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou, de maneira lacônica e visivelmente improvisada, um programa direcionado às próximas ações na nação do Sul que, sem detalhamento ou cronograma, aconteceria em três etapas que, a rigor, configuram receita para qualquer estado em instabilidade econômica, política e institucional. São elas: estabilização, recuperação econômica e passagem de poder.
A pretensão de intransigente enfrentamento do narcotráfico, justificativa primária do espetaculoso avanço militar, foi rapidamente minimizada, especialmente com o retrocesso manifestado pelas autoridades da Casa Branca, retirando a pecha de chefe do cartel de drogas sul-americano, carregada por Maduro, substituída pela condição de uma espécie de padrinho.
Nessas condições, parece razoável aventar a hipótese de existência de outras vertentes mais relevantes, explicativas do planejamento e execução da audaciosa e temerária empreitada dos EUA de promover um ataque inédito a um estado soberano da América do Sul, que englobam o entrelaçamento entre componentes geopolíticos, políticos e econômicos.
A lógica geopolítica atende à finalidade básica de fortalecimento da segurança nacional, sustentada na consolidação da interferência direta no continente, mediante a ressurreição do velho lema da Doutrina Monroe, “América para os americanos” e, de inibição da presença dos “intrusos”, China (destino de 70% do óleo venezuelano) e Rússia, na região, em formato de “chega pra lá”, ilustrado na reiterada retórica de intervenção militar ou, na melhor das hipóteses, anexação dos territórios do Panamá, Groenlândia e Canadá, colocando em xeque a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Na esfera política emerge, após um ano de comando sem a entrega de soluções tangíveis, a desidratação da satisfação popular com Trump – aprovado por 42% e reprovado por 54% das pessoas, segundo a média das sondagens de opinião, calculada pelo site Silver Bulletin -, passível de inversão em caso de a partida na Venezuela ser jogada a contento.
Mais do que isso, a instantânea recomposição de apoio da população à administração de Trump revela-se crucial ao abrandamento da quase que inevitável derrota na contenda legislativa de novembro deste ano e ao desmanche da forte probabilidade de formação de maioria democrata na Câmara e, por extensão, da instauração do terceiro processo de impeachment contra o mandatário.
No front econômico, a ocupação com a Venezuela serve como variável de deslocamento dos olhares da sociedade americana para o aparecimento e sentimento de alguns fatores de distúrbio domésticos, sobretudo a desaceleração dos níveis de atividade e emprego e o recrudescimento da inflação.
O escape da espiral de preços ao consumidor da linha de convergência à meta anual de 2%, estipulada pelo Federal Reserve (Fed), Banco Central dos EUA – renovado desafeto de Trump, em especial o chairman, Jerome Powell – para a zona de 3% a.a., está associado à pouco producente disparada do tarifaço contra tudo e contra todos, desatrelada da formulação e aplicação de estratégicas consistentes de desenvolvimento.
No memo embalo, o titular americano não fez a menor questão de esconder a sede pelas maiores reservas de petróleo comprovadas do planeta, que, a despeito de constituir o insumo principal da segunda revolução industrial – a terceira abrangeu biotecnologia, química fina, mecânica de precisão, novos materiais e informática, e a quarta, encampa robótica, digitalização e inteligência artificial -, ainda assume a responsabilidade de carro chefe de economias em processo de reindustrialização e/ou descomprometidas com transição energética e amenização das emissões de carbono.
No fundo, o fim não disfarçado da Operação Venezuela consubstancia a apropriação imperialista e, se for necessária, selvagem, das riquezas naturais e matérias primas, tradicionalmente baratas, da América Latina, engrossada com itens fora do cardápio como as terras raras e os minerais críticos.
Somente em caráter de argumentação quantitativa, enquanto o consumo estimado do óleo nos EUA estaria em 20 milhões de barris/dia, a produção interna não chega a 14 milhões de b/d, afetada pela diminuição do processamento de xisto, por conta do contínuo declínio das cotações globais.
Assim, o descompasso na balança tem sido coberto preferencialmente por compras externas oriundas do próprio continente, particularmente pela decrescente oferta mexicana, sendo, a opção de obtenção de petróleo barato da Venezuela autêntica válvula de escape ao suprimento, sem traumas, o que, de lambuja, colaboraria na repressão de novas ondas inflacionárias, em um ano complicado, marcado pela realização das já mencionadas eleições de meio de mandato.
Só que predominam incontáveis dúvidas quanto ao desejo de companhias americanas, algumas subsidiárias da estatal venezuelana PdVSA, na Costa do Golfo, na feitura de vultosos investimentos na revitalização da deteriorada estrutura de extração e refino de petróleo daquele país, e, o que é pior, de retorno temporal demorado, preponderantemente em clima de negócios profundamente inóspito, o que embute alargamento de riscos.
Sem contar que a maturação de tais projetos ultrapassa em larga medida os limites de tempo de governos em democracias e, por conseguinte, esbarra no salutar exercício de alternância de poder e visões energéticas distintas daquelas preconizadas e incentivadas por Trump. A não ser que o chefão cumpra a promessa de concessão de gordos subsídios aos interessados, bancados pelo contribuinte americano.
Para desconforto, criterioso estudo preparado pela International Energy Agency (IEA), amparado na redução das apostas em choques negativos de oferta, em razão da perda de força do cartel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), com o advento de novos players no mapa de produção, como o próprio EUA, Brasil e Guiana, permite projetar excesso de produção vis a vis a demanda até 2030.
Ao que tudo indica, esse quadro estrutural de super oferta de petróleo tende a provocar perene decréscimo do preço do barril e furar o piso de US$ 50, quando ficará abaixo do ponto de equilíbrio financeiro, o que inviabilizará algumas aventuras, a exemplo do aproveitamento da margem equatorial brasileira, entre Amapá e Rio Grande do Norte, compensatória ao declínio da produção do pré-sal, previsto para a partir de 2027-2029.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.







