Com estabilidade macroeconômica, Brasil abre nova janela para Private Equity

Relatório realizado por Bain e ABVCAP aponta que a maturidade do mercado está entre os principais atrativos aos investidores
A Bain & Company, uma das principais referências em análises e insights sobre Private Equity no mundo, acaba de lançar uma edição dedicada ao mercado brasileiro, em parceria com a Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP). De acordo com a análise, o país vive um momento potencialmente atrativo para investidores que sabem navegar em ambientes de volatilidade estrutural.
Dados sobre o interesse em investimentos na América Latina, elaborados pela Preqin, empresa global especializada em pesquisa e análise de mercados privados e investimentos alternativos, corroboram com a análise, que aponta o fortalecimento da atratividade da região. Quase 70% dos investidores enxergam boas ofertas de investimento para o próximo ano e 70% consideram o Brasil na liderança das melhores oportunidades. Esse foco renovado nos mercados locais sinaliza um reequilíbrio mais amplo dos fluxos de capital em direção aos motores de crescimento latino-americanos no longo prazo.

A conjuntura atual é singular e combina maior estabilidade macroeconômica, amadurecimento institucional e sólidos fundamentos estruturais, o que cria um ambiente favorável para investimentos. Embora a volatilidade continue sendo uma característica do país, ela também orienta gestores disciplinados, especializados e focados na geração de valor operacional.
Segundo Gustavo Camargo, sócio e líder da prática de Private Equity da Bain na América do Sul, o estudo mostra que, após anos, o Brasil entra em uma fase de maior estabilização macroeconômica. “Em um contexto com inflação em patamares mais baixos, câmbio mais próximo do nível neutro e valuations mais racionais, o país abre uma janela de oportunidade para novos investimentos”, diz Camargo.

O material destaca o amadurecimento do setor ao longo de mais de três décadas, tornando-se mais profissional, diversificado e sofisticado. Avanços como a Resolução CVM 175, que moderniza o arcabouço regulatório brasileiro, a consolidação dos FIPs e a isenção de ganho de capital para investidores estrangeiros ajudaram a alinhar o país às melhores práticas internacionais, além de fortalecer a confiança de investidores locais e globais.
De acordo com Priscila Rodrigues, presidente da ABVCAP, o Brasil tem uma base sólida de gestores de private equity, tanto locais quanto internacionais, que ajudaram no amadurecimento da indústria nas últimas três décadas. “Essa evolução do mercado também foi possível graças ao caminho percorrido em termos de regulação, com grande participação da ABVCAP e de outras entidades do setor. Avançamos muito, a indústria ficou mais sofisticada e, hoje, já podemos nos comparar em pé de igualdade a mercados muito maduros de PE”, destaca a presidente.
O relatório também contextualiza o Brasil como uma das maiores economias do mundo, apoiada por fatores estruturais de longo prazo a exemplo de uma população de mais de 210 milhões de pessoas, crescimento da força de trabalho, melhora consistente nos níveis educacionais, maior inclusão financeira e um dos mercados digitais mais ativos do planeta. Somam-se a isso a liderança global em energia renovável, a relevância em alimentos, mineração e petróleo, bem como um ecossistema empreendedor cada vez mais robusto.
De modo transparente, o relatório não ignora riscos e indica como a volatilidade – inflação e juros historicamente elevados, câmbio instável, incertezas políticas e ciclos de liquidez – moldou um “playbook” próprio para o sucesso no Brasil. Os melhores retornos são alcançados por gestores que utilizam alavancagem de maneira conservadora, alocam capital gradualmente, apostam em elevada especialização setorial e focam no crescimento operacional e na expansão de margens.
Mesmo em um cenário global mais restritivo para levantamento de capital e saídas, a análise aponta que investidores continuam encontrando liquidez por meio de vendas estratégicas, transações secundárias e outras rotas alternativas. Nos últimos anos, gestores no Brasil têm demonstrado maior flexibilidade e sofisticação na gestão dos ciclos de investimento, recorrendo com mais frequência a vendas para compradores estratégicos, operações entre fundos, recompras e, em alguns casos, desinvestimentos parciais.
Esse movimento reflete a adaptação a um mercado de IPOs menos acessível e maior maturidade dos portfólios – somente 22% dos ativos em portfólio no país tinham menos de 2 anos – quase metade dos 43% de dez anos atrás. As empresas também se mostram mais preparadas do ponto de vista operacional, de governança e de geração de caixa, ainda que os prazos de desinvestimento tenham se alongado em função da volatilidade macroeconômica e cambial.

A combinação de fundamentos estruturais robustos, valuations mais racionais, capital disponível e maior sofisticação do mercado estabelece um cenário favorável para o Private Equity no Brasil.








