Cinco fatores explicam por que gigantes globais enfrentam dificuldades no delivery brasileiro

Cinco fatores explicam por que gigantes globais enfrentam dificuldades no delivery brasileiro

Operação local, logística e comportamento do consumidor impõem barreiras que vão além da tecnologia

O Brasil movimenta dezenas de bilhões de reais por ano no delivery de alimentação e está entre os maiores mercados do mundo, segundo estimativas de consultorias internacionais e entidades do setor. Apesar do potencial, a entrada de grandes plataformas globais tem encontrado dificuldades para ganhar escala no país, mesmo com investimentos relevantes e forte presença em outros mercados.

Marcelo Marani, professor e fundador da Donos de Restaurantes, avalia que a principal falha está na forma como essas empresas interpretam o Brasil. Com mais de 25 anos de experiência no foodservice, ele afirma que a dificuldade passa menos pela tecnologia e mais pela adaptação ao ambiente local. “O Brasil já tem tecnologia suficiente. O que falta para quem chega de fora é entender a operação real do restaurante, a dinâmica das cidades e o comportamento do consumidor”, diz.

Na análise do especialista, muitas empresas estrangeiras replicam estratégias de outros mercados sem considerar as particularidades brasileiras. “Existe uma leitura superficial. Copiam o modelo que funcionou fora e ignoram variáveis como logística urbana, custo operacional, informalidade e relacionamento com o restaurante”, afirma.

A complexidade logística é um dos principais entraves. Grandes centros urbanos com trânsito irregular, alta densidade populacional e dependência de entregadores autônomos elevam o custo da operação e impactam prazos. Ao mesmo tempo, o consumidor brasileiro apresenta alta sensibilidade a preço e valoriza conveniência e benefícios.

“Não basta ter um aplicativo eficiente. É preciso gerar resultado real para o restaurante, ajudando a vender mais e operar melhor”, aponta.

Outro ponto crítico está na relação com os estabelecimentos. No Brasil, o delivery funciona como extensão do negócio físico e não apenas como canal complementar. “O dono de restaurante não quer só visibilidade. Ele precisa de suporte, estratégia e previsibilidade. Quem não entrega isso perde espaço rapidamente”, explica.

A velocidade de expansão também influencia. Plataformas internacionais tendem a iniciar operações em poucas cidades, enquanto concorrentes locais já operam com capilaridade e conhecimento consolidado. “Abrir operação em algumas capitais não significa competir de verdade. É preciso presença consistente e entendimento profundo do mercado”, destaca.

Para empresas que atuam ou pretendem entrar no delivery brasileiro, o desafio envolve decisões estratégicas que impactam diretamente a sustentabilidade da operação. A seguir, cinco pontos críticos destacados pelo especialista.

O especialista aponta cinco fatores que explicam onde empresas acertam ou erram ao entrar no delivery brasileiro

Antes de escalar, é necessário estruturar bases sólidas que sustentem o crescimento. Decisões iniciais costumam determinar o desempenho no médio prazo.

  • Entendimento do comportamento local
    Empresas que analisam hábitos de consumo, horários de pico e preferências regionais conseguem maior aderência. Ignorar essas variáveis reduz a conversão. “O brasileiro tem uma relação diferente com preço, tempo e experiência. Quem não entende isso perde competitividade”, afirma.
  • Integração com a operação do restaurante
    A plataforma precisa atuar como parceira do negócio, oferecendo dados, suporte e estratégias. “Quando o restaurante cresce, a plataforma cresce junto. Essa relação precisa ser construída”, diz.
  • Logística adaptada à realidade urbana
    Modelos importados nem sempre funcionam em cidades com infraestrutura desigual. Ajustar rotas, prazos e custos é essencial para garantir eficiência operacional.
  • Estratégia comercial equilibrada
    Taxas, promoções e políticas precisam preservar a margem do restaurante. “Se o parceiro não ganha dinheiro, ele abandona a plataforma. É simples”, afirma.
  • Execução consistente no dia a dia
    Mais do que lançamento e marketing, o mercado exige constância operacional. “Concorrência real acontece na entrega, no suporte e no resultado. Não é discurso, é execução”, diz.

Além de orientar empresas de tecnologia, os pontos também servem como referência para restaurantes na escolha de parceiros. Avaliar transparência de taxas, capacidade de gerar demanda e integração com a operação são critérios considerados essenciais.

A tendência é de crescimento contínuo do setor, impulsionado pela digitalização e pela mudança de hábitos de consumo. A consolidação, porém, deve ficar restrita a quem conseguir adaptar estratégia e execução ao mercado brasileiro. “O Brasil não é um mercado de teste. É um dos mais complexos do mundo. Quem respeita isso constrói negócios sólidos. Quem subestima, dificilmente se sustenta”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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