Educação financeira como base pode redefinir crescimento econômico no Brasil

Educação financeira como base pode redefinir crescimento econômico no Brasil

Endividamento elevado e baixa organização financeira pressionam famílias e empresas e reforçam a necessidade de tratar o tema como prioridade estrutural

Dados recentes do Banco Central mostram que o endividamento das famílias brasileiras permanece elevado, na faixa de 78% da renda anual em 2025. Ao mesmo tempo, levantamento da Confederação Nacional do Comércio indica que a inadimplência gira em torno de 28% no país, evidenciando fragilidades no controle financeiro.

Para Ricardo Hiraki, sócio-fundador da Plano e especialista em educação financeira, esse cenário revela um problema estrutural. “O Brasil precisa tratar educação financeira como política de base. Não é um tema complementar, é fundação para qualquer crescimento sustentável”, afirma.

A avaliação dialoga com um movimento internacional. Estudos da OCDE indicam que países que incorporaram educação financeira desde a formação básica apresentam maior capacidade de poupança, menor vulnerabilidade ao crédito e decisões financeiras mais consistentes ao longo do tempo. No Brasil, a aplicação ainda ocorre de forma dispersa, concentrada em iniciativas privadas e conteúdos pontuais no sistema educacional.

O impacto não se limita às famílias e chega diretamente às empresas. “Negócios são reflexo das decisões das pessoas. Quando o empreendedor não domina fluxo de caixa, margem e planejamento, o crescimento pode virar risco”, diz. Em períodos de alta demanda, como eventos sazonais ou picos de consumo, essa fragilidade tende a aparecer com mais intensidade.

A falta de organização financeira também limita o acesso a crédito e a capacidade de expansão. Pequenas e médias empresas, que representam cerca de 99% dos negócios no Brasil segundo o Sebrae, enfrentam dificuldades recorrentes na gestão de capital de giro e na previsibilidade financeira.

“Muitos empresários aumentam faturamento, mas não conseguem transformar isso em lucro real. Sem clareza financeira, a empresa cresce, mas fica mais vulnerável”, afirma Hiraki.

Esse descompasso reforça a necessidade de estruturar o tema desde a base educacional até a prática empresarial. “Educação financeira não é só sobre economizar. É sobre tomar decisões melhores, com consciência e previsibilidade”, pontua.

Como começar na prática e evitar erros básicos

A aplicação da educação financeira exige ações concretas no dia a dia, tanto para indivíduos quanto para empresas. A seguir, caminhos para estruturar esse processo de forma consistente e evitar erros comuns.

  • Começar pelo diagnóstico financeiro
    Antes de qualquer estratégia, é necessário entender para onde o dinheiro está indo. Mapear receitas, despesas e padrões de consumo permite identificar desperdícios e oportunidades de ajuste. “Sem diagnóstico, qualquer decisão vira tentativa”, afirma.
  • Separar finanças pessoais e empresariais
    A mistura entre contas é uma das principais causas de desorganização em pequenos negócios. A recomendação é estabelecer contas distintas e definir pró-labore, garantindo clareza sobre o desempenho real da empresa.
  • Criar rotina de controle e acompanhamento
    Planejamento sem acompanhamento perde eficácia. Revisões periódicas permitem corrigir desvios rapidamente e manter o controle sobre o fluxo de caixa.
  • Buscar orientação especializada
    Consultorias financeiras e profissionais especializados ajudam a estruturar processos e evitar erros recorrentes. “Contratar um especialista reduz o tempo de aprendizado e evita decisões que podem custar caro”, diz.
  • Desenvolver cultura financeira dentro da empresa
    A educação financeira precisa envolver equipes. Quando colaboradores entendem metas, custos e impactos das decisões, a execução se torna mais eficiente e alinhada.

A adoção dessas práticas tende a gerar ganhos diretos, como maior previsibilidade, redução de riscos e melhor aproveitamento de oportunidades de crescimento. Ainda assim, há alertas importantes. “O maior erro é tratar educação financeira como algo pontual. É um processo contínuo, que exige disciplina e revisão constante”, afirma.

O avanço do tema depende também de uma mudança mais ampla na forma como o país trata o assunto. A ausência de uma base sólida mantém ciclos de instabilidade financeira e limita o crescimento sustentável.

“Sem educação financeira estruturada, o Brasil continua formando pessoas que ganham dinheiro, mas não sabem administrar. E isso impacta toda a economia”, conclui Ricardo Hiraki.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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