Turnover e absenteísmo entram no radar da NR-1 e elevam pressão sobre a gestão de pessoas

Nova diretriz reforça prevenção de riscos psicossociais e leva empresas a tratar pedidos de demissão e faltas recorrentes como sinais estratégicos de alerta
Turnover elevado, faltas frequentes e queda de engajamento deixaram de ser apenas indicadores internos de recursos humanos e passaram a ganhar peso na agenda de compliance trabalhista. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata do gerenciamento de riscos ocupacionais, ampliou a atenção das empresas sobre fatores psicossociais ligados ao trabalho, como estresse, assédio, sobrecarga e falhas de liderança.
Na prática, rotatividade e absenteísmo tendem a ser vistos cada vez mais como sintomas de problemas estruturais.
Para Jéssica Palin Martins, advogada, psicóloga e especialista em saúde emocional corporativa da consultoria Palin & Martins, empresa que atua com soluções estratégicas em gestão humana e inteligência emocional para organizações, a mudança exige nova postura das companhias. “Pedidos de demissão em sequência e ausências repetidas raramente surgem por acaso. Muitas vezes, eles revelam desgaste silencioso, clima deteriorado ou gestão inadequada. Quando a empresa observa só o número e não a causa, perde tempo e dinheiro”, afirma.
O tema ganhou relevância em meio ao avanço da rotatividade no mercado brasileiro. Levantamentos recentes de consultorias internacionais colocam o país entre os de maior turnover voluntário do mundo, movimento associado à busca por melhor qualidade de vida, crescimento profissional e ambientes mais saudáveis.
Ao mesmo tempo, o absenteísmo segue entre os principais desafios operacionais de médias e grandes companhias, especialmente em setores intensivos em mão de obra.
Os impactos financeiros são relevantes. Estimativas amplamente adotadas no mercado de trabalho, divulgadas por entidades como a Society for Human Resource Management (SHRM), indicam que substituir um profissional pode custar de seis a nove meses do salário da posição, considerando recrutamento, treinamento e perda de produtividade. Em funções estratégicas, esse valor tende a ser ainda maior.
Segundo a especialista, a reação tradicional baseada apenas em bônus ou reajustes salariais costuma ser insuficiente. “Quando o emocional não é gerido, o custo aparece no turnover, na produtividade e no clima. Remuneração importa, mas não corrige liderança tóxica, excesso de pressão ou falta de perspectiva”, diz.
A nova leitura regulatória também pressiona áreas de RH a documentar ações preventivas, revisar políticas internas e capacitar gestores. Empresas que mantêm indicadores críticos sem plano de resposta consistente podem enfrentar aumento de passivos, afastamentos e perda de competitividade na atração de talentos. “Saúde emocional deixou de ser tema periférico. Hoje ela influencia retenção, marca empregadora e resultado operacional”, afirma.
A especialista aponta cinco medidas para reduzir turnover e absenteísmo
Antes de ampliar benefícios ou abrir novas vagas, empresas precisam entender o que está impulsionando saídas e faltas recorrentes. Jéssica Palin lista cinco frentes prioritárias.
- Mapear indicadores por área e liderança
Comparar setores ajuda a identificar equipes com risco elevado e problemas localizados de gestão.
- Treinar gestores para prevenção
Chefias despreparadas costumam acelerar pedidos de demissão e elevar afastamentos.
- Criar canais confiáveis de escuta
Ambientes em que o colaborador pode relatar conflitos tendem a corrigir problemas antes da ruptura.
- Adotar diagnósticos estruturados
Pesquisas internas qualificadas e avaliações técnicas ajudam a localizar causas reais do desgaste. - Transformar cuidado em rotina de gestão
Acompanhamento contínuo gera mais efeito do que ações isoladas em datas específicas.
Para a especialista, as empresas que anteciparem esse movimento sairão na frente. “Quem trata turnover e absenteísmo como indicadores estratégicos consegue agir antes da crise. Quem ignora, normalmente reage quando o prejuízo já apareceu”, conclui.








