Escassez de mão de obra e pressão global sobre insumos elevam custos da construção civil

Escassez de mão de obra e pressão global sobre insumos elevam custos da construção civil
Gilberto Kaminski.

A construção civil brasileira vive um paradoxo. Ao mesmo tempo em que o setor mantém níveis elevados de atividade, amplia a geração de empregos e sustenta uma carteira robusta de obras, empresas enfrentam dificuldades crescentes para contratar profissionais qualificados e controlar os custos de produção.

O cenário tem provocado impactos diretos nos orçamentos, nos cronogramas e na rentabilidade dos empreendimentos. Embora os reajustes salariais definidos por convenções coletivas sejam frequentemente apontados como um dos fatores de pressão sobre os custos, especialistas do setor afirmam que a principal influência atualmente está na dinâmica de mercado entre oferta e demanda por trabalhadores especializados.

A construção civil ultrapassou recentemente a marca de 3 milhões de trabalhadores formais no Brasil, o maior nível desde 2014, segundo dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). Apesar disso, a percepção das empresas é de que a oferta de profissionais não acompanha o ritmo da demanda.

A dificuldade é particularmente visível em funções operacionais especializadas, como mestres de obras, pedreiros, carpinteiros e instaladores. O fenômeno tem origem em uma transformação gradual do mercado de trabalho: muitos jovens deixaram de enxergar a construção civil como uma opção de carreira, migrando para atividades ligadas à economia de plataformas, comércio e serviços.

Na prática, profissionais mais experientes passaram a ter maior poder de negociação. Em vez de contratos baseados exclusivamente em horas trabalhadas, tornou-se comum a remuneração por produtividade ou por tarefa executada. Em um ambiente de forte demanda, esses trabalhadores conseguem selecionar projetos mais atrativos e exigir valores mais elevados para atuar nos canteiros.

O resultado é um aumento dos custos de mão de obra acima da percepção tradicional baseada apenas nos índices de reajuste salarial ou índices setoriais. A valorização dos profissionais qualificados tornou-se um dos principais desafios para construtoras que precisam cumprir prazos e manter padrões de qualidade em um mercado cada vez mais competitivo.

A situação se torna ainda mais relevante diante da perda de produtividade observada no setor. Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produtividade da construção civil caiu 20,4% nos últimos 30 anos.

Esse movimento pode ser observado na variação da proporção entre materiais e mão de obra que compõem o Custo Unitário Básico (CUB) que há 25 anos era de 40% de mão de obra e 60% para materiais e hoje está se aproximando de 60% de mão de obra e 40% para materiais.

A pressão também se estende à locação de equipamentos. Com um número elevado de empreendimentos simultaneamente em execução, fornecedores de máquinas e equipamentos operam com alta utilização de seus ativos, fatores que dificultam a negociação de valores para compor os orçamentos das construtoras.

Influência da economia global

Além dos fatores domésticos, a cadeia da construção civil continua altamente sensível às oscilações da economia global. Tensões geopolíticas, conflitos internacionais e gargalos logísticos afetam diretamente a disponibilidade e o preço de matérias-primas utilizadas em obras.

Produtos derivados do petróleo estão entre os mais vulneráveis. Itens como tubos de PVC, componentes plásticos, materiais impermeabilizantes e diversos insumos químicos dependem da estabilidade do mercado internacional de energia. Qualquer interrupção relevante nas cadeias globais de abastecimento pode provocar aumentos de custos que acabam sendo repassados para toda a cadeia produtiva.

O impacto não se limita aos materiais. O transporte de cargas também sofre influência direta das oscilações no preço dos combustíveis, afetando tanto a entrega de matérias-primas para as indústrias quanto a distribuição de produtos acabados para os canteiros de obras.

Esses fatores ajudam a explicar as variações recentes registradas em indicadores como o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), utilizado como referência para acompanhar a evolução dos custos do setor.

No médio e longo prazo, a tendência é que os preços dos materiais continuem sujeitos às condições do cenário internacional, podendo registrar períodos de alta ou de acomodação conforme a evolução dos conflitos geopolíticos, da logística global e da disponibilidade de insumos.

O artigo foi escrito por Gilberto Kaminski, que é diretor de PCP da Thá Engenharia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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