Emprego, inflação e juros: disfarces e desgraças brasileiras

Gilmar Mendes Lourenço.
Contrariando a lógica predominante no ambiente especializado e formador de opinião, as informações disponíveis acerca do desempenho do emprego, renda e inflação no Brasil dão mostras eloquentes de forte desalinhamento macroeconômico, derivado da insistência implantação de um verdadeiro programa de governo estampado na prática de juros elevados visando ao atendimento de demandas distintas daquelas manifestadas pelos atores econômicos (produtores, vendedores e consumidores).
Isso porque, no terreno de ocupações, ainda persiste viés de alta, com a abertura líquida (admissões menos desligamentos) de vagas formais de 921,645 milhões, no primeiro semestre de 2026, o que constituiu incremento de 2%, frente a igual período de 2025, como demonstrado pelo Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Esses registros administrativos também permitem concluir que 77,3% dos postos criados podem ser avaliados como típicos e 22,7% como não típicos, que reúnem operários temporários e pessoas físicas inscritas no Cadastro de Atividades Econômicas da Pessoa Física (CAEFP).
Na mesma pegada, a taxa de desemprego alcançou 5,4% da força de trabalho, no segundo trimestre de 2026, sendo o menor nível apurado para o intervalo, dentro da série histórica levantada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, desde 2012, descendo do pico de 14,2%, observado entre abril e junho de 2021, quando o país ainda juntava os cacos produzidos pelo descaso do Palácio do Planalto com a pandemia de Covid-19.
Enquanto o contingente ocupado cresceu 0,7%, passando de 102,3 milhões para 103,1 milhões, o grupo classificado como sem trabalho que prossegue em busca de oportunidades decresceu -6,3%, recuando de 6,253 milhões para 5,861 milhões, no lapso de um ano.
Já o rendimento médio real mensal auferido pela população ocupada subiu 2,8% em relação a igual tempo de 2025 e alcançou igualmente o maior patamar dos acompanhamentos para o segundo trimestre, o que equivale a R$ 3.738,00, ao passo que o montante de rendimentos de todos os trabalhos aumentou 3,6%.
No entanto, as estatísticas agregadas do mercado laboral escondem um relevante aspecto de perturbação, configurado na precarização da mão de obra, expressa no elevado grau de informalidade que, dentre outros efeitos, pressiona a oferta de serviços públicos universais e intensifica o alargamento do rombo das contas da previdência pública.
Se aplicado o conceito amplo de relações de trabalho não registradas – que abarca vínculos empregatícios sem carteira assinada e empregadores e trabalhadores por conta própria sem CNPJ -, verifica-se manutenção da informalidade ao redor de 41% da população ocupada em um ano, o que corresponde a mais de 42 milhões de pessoas, com renda mensal média cerca de 40% inferior ao conquistado no reduto de contratos formais.
Na sequência de pontos positivos, aparece o discreto refluxo da inflação, em julho de 2026, atestado pela variação de 4,64%, em doze meses, do IPCA-15 – uma espécie de prévia da evolução dos preços no mês -, do IBGE, contra 4,72%, em maio, por conta principalmente da retração dos valores de venda dos alimentos, com declínios apreciáveis em itens importantes no orçamento doméstico, como café, batata e tomate.
Considerando que a perda de embalo nos reajustes de preços não foi limitada aos produtos mais sensíveis, as projeções das instituições financeiras e consultorias, consultadas semanalmente pela pesquisa Focus, do Banco Central (BC), deflagraram um processo de revisão para baixo nas expectativas para o corrente ano, que se situam em 5%, ainda superior ao teto de 4,5%, determinado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e perseguido pela autoridade monetária.
Em princípio, a conjugação entre as tendências de prosseguimento da evolução do emprego e renda e a trégua na espiral de preços poderia oferecer margens de manobra para um reexame, por parte do Comitê de Política Monetária (Copom), do conservadorismo explícito na política monetária de manutenção da Selic em degraus incomparavelmente superiores aos demais mercados avançados e emergentes, mesmo com a sinalização de manutenção da austeridade pelo Federal Reserve (Fed), BC dos Estados Unidos (EUA).
Não obstante a diminuição da taxa básica de 14,25% ao ano para 14% a.a., em 05 de agosto, o Brasil permanece na dianteira planetária em juros reais de 9,3% a.a., seguido pela Rússia (9,09% a.a.), Colômbia (6,16% a.a.), Indonésia (4,61% a.a.) e Argentina (4,51% a.a.), fechando o top 5.
O problema é a renovação permanente da retórica de quase exclusiva responsabilidade da orientação fiscal expansionista pela formação e aprofundamento de tensões inflacionárias, sem atentar para a influência dos choques de oferta (distúrbios geopolíticos, capitaneados pela escalada das guerras na Ucrânia e Oriente Médio e acidentes climáticos) na dinâmica de formação de preços, em especial das matérias primas, puxadas pelo petróleo, para a qual os juros proibitivos não fazem sequer cócegas.
Os números das finanças governamentais são para lá de preocupantes. Em 12 meses findos em junho de 2026, o setor público consolidado (abarca as empresas estatais não financeiras) brasileiro contabilizou déficit primário (receitas menos despesas correntes) de R$157,2 bilhões, ou 1,19% do Produto Interno Bruto (PIB).
O desequilíbrio nominal (que acrescenta ao primário os juros apropriados) de R$1.317,8 bilhões, ou 10% do PIB), o que fez a dívida bruta (do governo Federal, INSS e administrações estaduais e municipais) pular de 71,4% do PIB, em janeiro de 2023, para 78,6% do PIB, em dezembro de 2025, e para 81,9% do PIB, em junho de 2026, conforme metodologia do BC.
Esse desempenho desfavorável, reflexo do retumbante malogro da Nova Regra Fiscal – criada em 2023, em substituição ao maltratado Teto de Gastos – só foi suplantado pelos anos de 2015, quando da maior recessão da época da república, derivada da premência de correção dos equívocos cometidos com a implantação da nova matriz econômica, na gestão de Dilma Rousseff, e de 2020, ante a necessidade de deliberação e execução do Orçamento Extraordinário, dirigido à proteção parcial de famílias e empresas no estágio mais dramático da penetração e alastramento do Sars-Cov-2.
Lembre-se que, pelo conceito utilizado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que incorpora a dívida mobiliária do Tesouro Nacional na Carteira do BC, o passivo do país teria saltado de 93,3% para 95,8%, no lapso temporal em tela, o segundo maior avanço do G20, perdendo somente para a China, que mudou de 99,2% para 106,9% do PIB.
Por meio desse critério, o Brasil situa-se bastante acima da média de 77,3%, exibida pelas nações em desenvolvimento, sendo a segunda maior nesse painel, e ocuparia o 33º lugar em uma lista de 187 países, que são objeto de simulações pela entidade multilateral de crédito. A dívida pública dos EUA marca 123% do PIB, a da Alemanha, 63,3% do PIB, a do Japão, 249%, a da França, 116% do PIB, e da do Reino Unido, 94,3% do PIB.
O denominado colchão de liquidez, ou a quantidade de reservas dirigidas à cobertura dos compromissos com aplicadores em papéis do governo, medidor da capacidade de pagamento, caiu de 9,14 meses para 8,33 meses, entre maio e junho de 2026.
Porém, convém sublinhar que a estratégia ortodoxa inspiradora do gerenciamento monetário provoca danos significativos na matriz produtiva e social, evidenciados pela, na melhor das hipóteses, estagnação da atividade fabril e da movimentação dos setores de comércio e serviços, explicada fundamentalmente pela multiplicação do endividamento privado (empresas e famílias), derivado da disparada dos juros.
A esse respeito, o Mapa da Inadimplência, elaborado pela Serasa Experian, identificou 81,7 milhões de pessoas negativadas no país, o que configura de 38,1% em relação a 2016, em dez anos, com dívidas totais de R$ 539 bilhões e média de R$ 6.598,13 por consumidor.
Ademais, a parcela da renda das famílias endividadas destinada ao pagamento de dívidas atingiu 70,5%, sendo de 90,1% para pessoas com renda de até um salário mínimo. O mais gritante é que 42% dos inadimplentes, cerca de 34 milhões de pessoas, já estavam nessa condição em 2016, apontando o caráter crônico do processo de endividamento.
Por tudo isso, é fácil perceber não apenas o delineamento da deterioração dos negócios, mas, principalmente, a exacerbação das expectativas dos ramos da indústria (extração de minerais, construção e transformação) e daqueles mais articulados às transações de varejo, diretamente ligados aos fluxos de renda e à capacidade de endividamento primária da população, esta última em flagrante desidratação.
De acordo com inquérito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a desesperança e a insuficiência de segurança entre os empresários, aferida no mês de julho de 2026, se aproxima de completar dois anos, sendo declarada, de maneira mais acentuada, pelas atividades de bicombustíveis, couro e artefatos, produtos de borracha e madeira.
Dos vinte e nove segmentos avaliados, apenas bebidas, produtos de perfumaria limpeza e higiene pessoal e farmacêuticos, figuraram acima dos 50 pontos, que representam a linha divisória entre otimismo e pessimismo, anotando, respectivamente, 52,2 pontos, 51,4 pontos e 55,4 pontos,
De seu turno, o índice de confiança do empresário do Comércio (ICEC), calculado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), retomou, em julho deste ano, uma marcha descendente, anotando 101,9 pontos (varia entre zero e duzentos pontos, sendo que os cem pontos configuram a linha divisória entre entusiasmo e ceticismo).
Nessas circunstâncias, não é complicado apreender que a preservação de taxas de juros reais tão encorpadas, que se propagam pelos inúmeros elos das cadeias de financiamento do consumo, capital de giro e investimento, supre, com robusta eficiência, apetites não atrelados diretamente à expansão fiscal.
Sem provocar a emergência de bodes expiatórios – dado que é possível a melhoria do quadro, mediante a desindexação das rubricas previdenciárias das atualizações do salário mínimo e a rearrumação dos dispêndios constitucionais obrigatórios -, cumpre destacar a influência nada desprezível dos rentistas da comunidade financeira.
Essa parte dominante do capitalismo brasileiro costuma acomodar tanto grandes especuladores, normalmente apostadores na apreciação e/ou depreciação dos ativos, em curto termo, em fase com as vantagens da ocasião, quanto entes atuantes no lado real do sistema econômico, fervorosos defensores da produção e do emprego, que, em não poucos momentos, preferem a compreensível permuta entre as frentes das complexas batalhas por receitas operacionais e os nem um pouco complicados ganhos de tesouraria.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








