Reforma tributária lidera preocupações dos executivos brasileiros nos próximos três anos

A reforma tributária superou a concorrência entre as principais preocupações dos executivos e revela uma agenda mais orientada à adaptação do que à diferenciação
A Reforma tributária tornou-se o principal desafio externo para os executivos brasileiros nos próximos três anos, sendo citada por 38% dos respondentes da pesquisa anual da EY, uma das maiores empresas de auditoria e consultoria do mundo, sobre os desafios e tendências das empresas latino-americanas. O tema aparece à frente do cenário econômico global (27%), das mudanças na demanda, nas preferências e nos comportamentos de clientes (27%), dos riscos específicos do setor (27%), do cenário econômico local (26%), da entrada de novos concorrentes e substitutos, tanto globais quanto locais (25%), e da incerteza política local (22%).
Na avaliação de Leonardo Donato, líder de Clientes e Indústrias da EY na América Latina, a posição da reforma tributária no topo do levantamento mostra que o tema deixou de ser exclusivamente fiscal e passou a ocupar o centro da estratégia empresarial. A partir de 2026, com a incorporação da CBS e do IBS às obrigações e aos documentos fiscais no Brasil, a transição exigirá atuação integrada entre Tax, Finanças, Comercial, Compras, Jurídico e Tecnologia, além de decisões que ultrapassam o campo do compliance, clientes e indústrias.
“A reforma afeta todas as empresas, mas seus impactos não serão iguais. O risco está em tratá-la apenas como uma obrigação fiscal, sem avaliar as consequências sobre precificação, contratos, créditos tributários, capital de giro, dados e arquitetura de ERP. As organizações que anteciparem essas decisões poderão proteger margens e transformar a adaptação regulatória em vantagem competitiva”, afirma o executivo da EY.
O resultado revela uma agenda empresarial fortemente orientada à adaptação regulatória, econômica e operacional. A principal provocação, porém, não está apenas na liderança da reforma tributária, mas no fato de ela superar a entrada de novos concorrentes e substitutos, um movimento capaz de redefinir posições de mercado. “Embora a reforma afete todas as empresas, seus impactos serão diferentes de acordo com o setor, a cadeia de valor e a capacidade de execução de cada organização. O risco está em concentrar energia excessiva na adaptação interna e perder de vista as mudanças no comportamento dos clientes, na demanda e no ambiente competitivo”, complementa.
No ambiente interno, a prioridade também recai sobre adaptação e eficiência. Melhorias operacionais, produtividade e custos lideram as preocupações dos executivos brasileiros (35%), seguidas pelo crescimento da participação de mercado (31%), tecnologia e transformação digital (29%), estratégia e transformação de negócios (25%), e liquidez, gestão financeira e controle interno (19%). A combinação desses fatores sugere que as empresas reconhecem a necessidade de crescer, mas ainda concentram parte significativa de sua atenção na resposta às pressões do presente.
Para Donato, o desafio dos líderes é evitar que a agenda de adequação consuma os recursos necessários à diferenciação. No Brasil, o custo de capital, a volatilidade da demanda e a pressão competitiva tornam insuficientes tanto medidas isoladas de redução de despesas quanto projetos de transformação desconectados da estratégia.
“Eficiência e crescimento não podem ser tratados como agendas concorrentes. O foco deve migrar para a produtividade estrutural, com simplificação de processos, automação, integração de dados, gestão de fornecedores e realocação de recursos para ofertas e canais de maior retorno. Isso exige um portfólio integrado de transformação, com metas claras para margem, caixa, receita e experiência do cliente”, diz.
Tecnologia, dados e resiliência
A busca por produtividade e transformação também se reflete entre as tendências globais consideradas mais relevantes pelos executivos brasileiros para os próximos três anos. Foco na inovação, produtividade impulsionada pela tecnologia e transformação digital acelerada aparecem empatados na liderança, com 86% das menções cada. Em seguida, estão a cibersegurança e proteção de dados (79%), dados como ativo transversal a toda a organização (79%), e adaptação às novas regulamentações (75%).
A aceleração digital amplia os ganhos potenciais, mas também aumenta a exposição a riscos operacionais e cibernéticos. Para Donato, a cibersegurança deve estar integrada às decisões de continuidade e crescimento, especialmente diante da maior dependência de terceiros, da concentração em fornecedores críticos e da crescente integração entre dados, plataformas e operações.
“Resiliência precisa ser mensurável. Planos de resposta e recuperação testados, gestão estruturada de terceiros críticos, redundância seletiva e indicadores acompanhados pelo conselho são elementos fundamentais para garantir que a transformação digital não crie novos pontos de fragilidade”, afirma.
IA: da experimentação à escala
Entre as tecnologias disruptivas, a inteligência artificial avançada e sistemas autônomos lideram as expectativas dos executivos brasileiros, com 89%. Na sequência, aparecem análise e Big Data e infraestrutura digital e edge computing, com 79% cada, seguidos por cibersegurança avançada e identidade digital, com 71%.
Apesar da relevância atribuída à IA, sua adoção ainda ocorre de forma fragmentada. Para Donato, o desafio deixou de ser testar a tecnologia e passou a ser capturar valor em escala antes dos concorrentes. “Escalar IA exige muito mais do que tecnologia, depende de dados confiáveis, integração aos fluxos de trabalho, capacitação das equipes, definição clara de responsabilidades e governança adequada”, afirma.
Os dados mostram a distância entre interesse e escala: 31% dos executivos brasileiros afirmam que suas empresas já implementaram IA em aspectos específicos do negócio; 28% realizam projetos-piloto ou experimentos iniciais; e 21% ainda estão nas primeiras etapas de pesquisa e avaliação.
“O avanço consistente requer escolhas. As empresas devem priorizar casos de uso com maior potencial de geração de valor, estabelecer controles para uma IA responsável e acompanhar indicadores de adoção, produtividade, qualidade e risco. A vantagem competitiva não estará apenas na adoção da tecnologia, mas em incorporá-la ao modelo operacional com velocidade, governança e resultados mensuráveis”, finaliza Donato.








