Quase 70% das empresas entrevistam entre quatro e dez candidatos para fechar uma única vaga

Quase 70% das empresas entrevistam entre quatro e dez candidatos para fechar uma única vaga

Volume de entrevistas expõe um gargalo pouco discutido do recrutamento: a dependência de agendas simultâneas entre candidatos e profissionais de RH

Encontrar o profissional certo é apenas uma parte do desafio de contratar. Antes de uma decisão ser tomada, empresas precisam conciliar agendas, enviar convites, confirmar horários, lidar com reagendamentos e encontrar momentos em que candidatos e recrutadores estejam disponíveis simultaneamente.

Esse processo ajuda a explicar por que o tempo continua sendo um dos principais desafios do recrutamento. Segundo a pesquisa Panorama da Contratação no Brasil 2026, realizada pelo Pandapé, 50% das empresas brasileiras levam entre 16 e 30 dias para preencher uma vaga. Além disso, 30,7% afirmam que o tempo de contratação aumentou em relação ao ano anterior.

O gargalo fica ainda mais evidente quando se observa o volume de candidatos entrevistados até chegar a uma contratação. De acordo com o levantamento, 44,2% das organizações entrevistam entre quatro e seis candidatos para preencher uma vaga, enquanto 25% precisam conversar com sete a dez profissionais.

Na prática, uma única contratação pode exigir diversas combinações de agenda antes mesmo de o processo chegar às etapas finais de avaliação. Para empresas que recrutam em grande escala, o tempo disponível da equipe passa a ser também um limite para sua capacidade de contratar.

“Quando uma contratação exige conversar com quatro, cinco ou seis pessoas, o tempo deixa de ser apenas uma variável do processo e passa a determinar a própria capacidade de contratação da empresa. É aí que a tecnologia começa a mudar a lógica do recrutamento, e não apenas a velocidade de uma etapa”, afirma Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, detentora do Pandapé.

O desafio tende a ser maior em organizações com múltiplas unidades, equipes de recrutamento reduzidas ou operações distribuídas em diferentes horários. Varejo, logística, indústria, saúde e serviços, por exemplo, frequentemente recrutam profissionais que já trabalham em turnos e nem sempre conseguem participar de entrevistas durante o expediente tradicional.

Do lado do candidato, a dependência de agendas também pode criar obstáculos. Quem já está empregado pode precisar interromper o trabalho atual para participar de uma seleção ou lidar com sucessivos reagendamentos. Para o RH, uma agenda cheia pode significar dias de espera até que uma nova conversa aconteça.

É nesse cenário que a  inteligência artificial começa a abrir outra possibilidade: fazer com que determinadas etapas avancem sem que candidato e recrutador precisem estar disponíveis ao mesmo tempo.

Com jornadas assíncronas, perguntas iniciais sobre experiência, requisitos da vaga ou conhecimentos técnicos podem ser estruturadas previamente e respondidas pelo profissional quando houver disponibilidade.

“Existe uma diferença importante entre o tempo que o recrutador dedica a tomar uma decisão e o tempo consumido pela operação necessária para chegar até ela. A inteligência artificial começa a atuar justamente nesse espaço: não para substituir o olhar humano, mas para devolver ao RH tempo para exercer esse olhar onde ele realmente importa”, explica Ana.

No Pandapé, essa dinâmica é aplicada pela Aina, agente de entrevistas com inteligência artificial que pode conduzir etapas de pré-triagem e entrevistas técnicas por WhatsApp ou vídeo. O candidato responde às perguntas no momento em que estiver disponível, enquanto as respostas são organizadas posteriormente para análise do recrutador.

A mudança pode ser especialmente relevante em processos de alto volume. Se uma empresa precisa entrevistar de quatro a dez candidatos para realizar uma contratação, reduzir a necessidade de encontrar um horário disponível para cada interação pode ampliar a capacidade do mesmo time de RH sem aumentar proporcionalmente o tempo dedicado a entrevistas.

A lógica também pode facilitar processos envolvendo diferentes fusos horários ou estruturas descentralizadas. Em empresas nacionais, o recrutamento pode envolver lojas, fábricas, centros de distribuição e escritórios em várias localidades. Em multinacionais, a mesma seleção pode incluir candidatos ou gestores em países diferentes.

“Quando a disponibilidade deixa de ser pré-requisito para uma etapa avançar, o recrutamento deixa de funcionar exclusivamente no ritmo das agendas. É uma mudança simples na operação, mas que pode transformar a capacidade de uma empresa de contratar em escala”, afirma Ana.

Isso não significa eliminar a interação humana do processo seletivo. Etapas de aprofundamento, conversas com gestores, avaliação de contexto, negociação e decisão continuam tendo papel relevante na contratação.

A questão passa a ser identificar quais momentos realmente precisam da presença simultânea de candidato e recrutador e quais podem avançar de outra forma.

“O objetivo não é acabar com a entrevista entre pessoas. É preservar o tempo humano para as conversas em que ele realmente faz diferença. Quando a tecnologia assume parte da operação que acontece antes disso, o recrutador ganha espaço para avaliar melhor, conversar melhor e decidir melhor”, diz a executiva.

Para empresas que enfrentam picos de contratação, essa mudança pode ter impacto ainda maior. A abertura de uma nova unidade, a expansão de uma operação ou períodos sazonais podem colocar dezenas ou centenas de candidatos no processo simultaneamente. No modelo tradicional, ampliar o número de entrevistas significa quase automaticamente ampliar a quantidade de horas necessárias da equipe.

Com etapas assíncronas, essa relação começa a mudar. Para Ana Paula Prado, a transformação ajuda a deslocar a discussão sobre IA no recrutamento de uma simples busca por velocidade para uma revisão da própria dinâmica dos processos seletivos.

“Talvez uma das transformações mais importantes da inteligência artificial não seja substituir atividades que as pessoas fazem hoje, mas eliminar esperas que nós aprendemos a considerar normais. No recrutamento, isso significa usar tecnologia não apenas para fazer mais rápido, mas para repensar o que realmente precisa acontecer de forma simultânea”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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