FIDCs encerram semestre com captação de R$ 30,6 bilhões

Fundos de Investimento em Direitos Creditórios ganham relevância em ambiente de juros elevados
Os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) seguem ganhando relevância no mercado brasileiro em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo e busca das empresas por fontes alternativas de financiamento. Na avaliação da CVPAR, os dados mais recentes da Anbima reforçam que os fundos de direitos creditórios deixaram de ser uma estrutura restrita a nichos específicos e passaram a ocupar um espaço mais relevante tanto na alocação dos investidores quanto no financiamento da economia real.
Em junho, a indústria de fundos registrou saída líquida de R$ 5,3 bilhões, segundo a Anbima. Na contramão desse movimento, os FIDCs tiveram captação líquida positiva de R$ 5,7 bilhões no mês, ficando entre os principais destaques positivos da indústria, ao lado dos ETFs. No acumulado do primeiro semestre, os FIDCs somaram entrada líquida de R$ 30,6 bilhões, em um período em que a indústria de fundos como um todo captou R$ 184,7 bilhões.
O avanço também aparece no mercado de capitais. De janeiro a maio, as ofertas encerradas movimentaram R$ 283 bilhões, alta de 14,1% em relação ao mesmo período do ano passado. Dentro desse volume, os FIDCs somaram R$ 41,7 bilhões em emissões, crescimento de 36,5%, ficando atrás apenas das debêntures em volume captado. Em número de operações, porém, os fundos de direitos creditórios já aparecem à frente, com 406 ofertas no período, ante 237 emissões de debêntures.
Para Jonatas Ortega, diretor do Grupo CVPAR, o crescimento dos FIDCs está diretamente ligado à mudança nas condições de financiamento das empresas. “O mercado vive um momento em que muitas companhias precisam acessar liquidez, mas encontram um ambiente de crédito mais restritivo e custos financeiros ainda elevados. Nesse contexto, os FIDCs passam a ser uma alternativa cada vez mais relevante, porque permitem estruturar operações lastreadas em recebíveis, conectando a necessidade de capital das empresas ao apetite de investidores por crédito estruturado”, afirma.
Espaço estratégico
Segundo Ortega, esse movimento não deve ser interpretado apenas como uma resposta conjuntural ao atual ciclo de juros. Para ele, há uma mudança mais ampla na forma como empresas e investidores vêm acessando o mercado de crédito. “Os FIDCs estão deixando de ser uma estrutura restrita a operações muito específicas e passam a ocupar um espaço mais estratégico dentro do financiamento corporativo. Eles podem ser usados por empresas de diferentes setores, com diferentes perfis de recebíveis, e permitem criar soluções sob medida para necessidades de capital de giro, financiamento de fornecedores, vendas parceladas, prestação de serviços e outras frentes ligadas à economia real”, diz.
A classe também se destaca em um momento de reprecificação de parte dos instrumentos tradicionais de crédito privado. As debêntures ainda lideram em volume emitido, com R$ 146,3 bilhões no acumulado de janeiro a maio, mas registraram queda de 5,9% em relação ao mesmo período de 2025. Para a CVPAR, esse cenário tende a ampliar a discussão sobre diversificação das fontes de financiamento e sobre o papel do crédito estruturado na composição das carteiras.
“O investidor não está necessariamente abandonando o crédito privado. O que vemos é uma busca por alternativas que ofereçam prêmio de risco compatível com o cenário atual e estruturas capazes de trazer mais aderência entre risco, garantia, prazo e retorno esperado. No caso dos FIDCs, a análise precisa ir além da taxa. É fundamental avaliar a qualidade dos recebíveis, a pulverização da carteira, a subordinação, os mecanismos de garantia, a governança e a capacidade de gestão da estrutura”, afirma Ortega.
Na avaliação da CVPAR, a tendência é que os FIDCs sigam ganhando espaço à medida que empresas busquem alternativas ao crédito bancário tradicional e investidores ampliem o interesse por estratégias ligadas a recebíveis e financiamento da economia real. Em junho, o patrimônio líquido dos FIDCs chegou a aproximadamente R$ 770 bilhões, segundo a ANBIMA, reforçando a escala que esse mercado já alcançou dentro da indústria de fundos.
“O Brasil ainda tem muito espaço para desenvolver instrumentos de crédito fora dos canais tradicionais. Os FIDCs cumprem esse papel ao aproximar empresas que precisam de capital de investidores dispostos a financiar operações com estrutura, transparência e gestão de risco. Esse é um movimento que tende a ganhar profundidade nos próximos anos”, conclui Ortega.








