O que negócios digitais podem aprender com empresas tradicionais?

O que negócios digitais podem aprender com empresas tradicionais?
Leandro Ferrari.

Crescimento acelerado, audiência e bons lançamentos não sustentam empresas digitais sem processos, margem, liderança e gestão financeira

Por muito tempo, o mercado digital cresceu apoiado em velocidade, audiência, lançamentos, influência e capacidade de adaptação. A agilidade foi uma vantagem competitiva importante. Muitos negócios nasceram pequenos, venderam rápido e alcançaram faturamentos expressivos antes mesmo de terem uma estrutura empresarial consolidada. O problema aparece quando a operação cresce mais rápido do que a gestão. Nesse momento, práticas comuns em empresas tradicionais, como controle financeiro, processos, liderança, governança e planejamento, deixam de parecer burocracia e passam a ser fundamentais para continuar crescendo.

Negócios digitais costumam ser mais flexíveis do que empresas convencionais. Testam ofertas com rapidez, corrigem campanhas em tempo real, usam conteúdo como canal de venda e conseguem escalar sem depender de estruturas físicas pesadas. Esse modelo trouxe eficiência, mas também criou uma ilusão perigosa: a de que crescimento digital pode se sustentar apenas com criatividade, tráfego, carisma do fundador e boas campanhas. À medida que o faturamento aumenta, surgem desafios menos visíveis, como margem apertada, falta de clareza sobre custos, equipe sem liderança, atendimento sobrecarregado, produtos mal documentados e decisões concentradas em poucas pessoas.

Leandro Ferrari, especialista em Marketing Digital e cofundador do Grupo XFlow, afirma que muitos empreendedores digitais chegam a um ponto em que precisam abandonar a lógica de projeto e passar a pensar como empresa. “O digital ensinou muita gente a vender rápido, mas vender rápido não é a mesma coisa que construir uma empresa forte. Quando o negócio cresce, ele precisa de rotina, indicadores, processos e gente responsável por áreas-chave. Sem isso, o faturamento aumenta, mas a operação fica frágil”, explica.

IA nos negócios

O debate ganhou ainda mais relevância com o avanço da tecnologia e da inteligência artificial nos negócios. Um relatório da Boston Consulting Group, divulgado em 2025, apontou que apenas uma pequena parcela das empresas consegue extrair valor mensurável de investimentos em IA, enquanto a  maioria ainda tem pouco ou nenhum retorno relevante. O que diferencia as organizações mais maduras não é apenas o acesso à tecnologia, mas a capacidade de integrá-la aos fluxos de trabalho, acompanhar resultados, treinar pessoas e criar governança.

Essa lógica também vale para negócios digitais. Ter ferramentas modernas, automações, plataformas de venda, dashboards e inteligência artificial não garante eficiência se a empresa não sabe quais decisões precisa tomar, quem responde por cada área e qual indicador realmente define sucesso. Empresas tradicionais, especialmente as que sobreviveram por décadas, costumam ter uma disciplina que falta a muitos negócios digitais: elas sabem que crescimento exige método, repetição, controle e prestação de contas.

Um dos principais aprendizados está na gestão financeira. No digital, ainda é comum confundir faturamento com lucro. Lançamentos de alto volume, campanhas agressivas e picos de receita podem esconder custos elevados com mídia, comissões, equipe, ferramentas, suporte e impostos. Empresas tradicionais tendem a olhar com mais frequência para margem, fluxo de caixa, previsibilidade e custo operacional. Para Ferrari, essa mentalidade precisa entrar com mais força no mercado digital. “O número que aparece no print nem sempre é o número que sustenta a empresa. O empreendedor precisa saber quanto entra, quanto sobra, quanto custa entregar e quanto pode reinvestir sem comprometer o caixa”, afirma.

Construção de processos

Outro ponto é a construção de processos. Empresas digitais muitas vezes crescem com base na memória do fundador ou de poucas pessoas do time. O conhecimento fica espalhado em conversas, mensagens, planilhas soltas e decisões informais. Isso funciona enquanto a operação é pequena, mas se torna um risco quando há mais clientes, mais produtos e mais pessoas envolvidas. Empresas tradicionais costumam documentar rotinas, organizar responsabilidades e criar padrões mínimos de execução. No digital, essa estrutura não precisa engessar a criatividade, mas deve proteger a operação.

A liderança também muda. O fundador que antes vendia, aparecia, criava conteúdo e decidia tudo precisa aprender a formar pessoas, delegar com clareza e acompanhar resultados sem controlar cada detalhe. Esse talvez seja um dos maiores choques para experts e criadores que viraram empresários.

A habilidade que levou o negócio até o primeiro grande resultado nem sempre é a mesma que o leva para o próximo estágio.

Isso não significa que negócios digitais devam copiar empresas tradicionais em tudo. Parte da força do digital está justamente na velocidade, na proximidade com o público e na capacidade de testar novos caminhos. O ponto é que maturidade empresarial não elimina agilidade. Ao contrário, dá base para que ela seja usada com mais segurança. Processos bem desenhados, números claros e liderança estruturada permitem que a empresa teste mais sem colocar tudo em risco.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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