Política e economia: pecados do triunfalismo e catastrofismo

Gilmar Mendes Lourenço.
Por ocasião da largada eleitoral do distante ano de 2014, recebi convite de uma grande amiga, expoente entre as mulheres empresárias paranaenses, o irrecusável convite para proferir palestra a um pequeno grupo de executivos, tendo como assunto principal os aspectos determinantes do ambiente político e econômico brasileiro.
Em sendo aceito o desafio, a espinhosa tarefa compreendia a realização de um esforço de amarração e manejo de vários elementos bastante desconexos, capaz de ensejar o desenho de um diagnóstico exploratório e escalação qualificada de prospecções de natureza política, institucional e econômica.
A julgar pelas observações feitas pelos participantes do evento, o produto apresentado atendeu praticamente a todos os interesses e expectativas, especialmente quanto ao encaminhamento do encaixe dos respectivos negócios nos ensaios políticos então esboçados.
Tão logo encerrado o encontro, fui abordado por uma representante de uma companhia multinacional, que opera a montante do agronegócio brasileiro, sediada na Cidade Industrial de Curitiba (CIC), que sugeriu a repetição daquela exposição em um episódio de apresentação dos resultados de produção e vendas da companhia, relativos ao primeiro semestre de 2014.
É interessante frisar que, na continuidade do bate papo, a jovem me indagou se minha atuação como consultor possuía raízes em São Paulo – dado que os especialistas mais conhecidos operavam naquele polo irradiador de dinamismo -, e o tamanho dos honorários que eu cobraria para fazer a conferência.
Respondi a ela que era um técnico de carreira do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) – órgão de assessoria da Secretaria de Planejamento e Coordenação Geral do Governo do Estado -, desde o princípio do derradeiro quarto do século passado, e que estava em fase de transição em direção ao desfecho de minha honrosa ocupação da função de diretor-presidente da entidade, a partir de 2011.
Esse último elemento caracterizava uma função de elevada confiança e remunerada – muito bem, por sinal -, e constituía um fator impeditivo para o estabelecimento de valores em eventuais manifestações que viesse a fazer para qualquer tipo de plateia.
A despeito dessa restrição, absolutamente contornável, diga-se de passagem, afirmei que participaria com prazer das atividades planejadas pela conceituada organização privada, na data por ela definida, e permaneceria aberto a outras convocações, após cumprimento de minha quarentena de desligamento da máquina pública, a partir de 2015.
Pois bem. Lá estava em uma tarde acertada previamente. No momento de apresentação protocolar ao responsável pela comunicação da empresa, recebi uma recomendação nada convencional: se tratava de uma reunião ampla, que contaria com a presença da diretoria e da massa crítica de funcionários, e que, por isso, seria interessante e fundamental a inserção em minha explanação de não poucos pontos de otimismo.
Como diria minha querida e saudosa bisavó, aquela orientação “entrou por um ouvido e escapou pelo outro”, pois não possuía estatura teórica ou empírica suficiente para justificar a alteração de qualquer pedacinho da apresentação previa e criteriosamente elaborada ou, pior ainda, estimular a inserção de acréscimos no conteúdo idealizado, conforme a “vontade do freguês”, que, por sinal, estava recebendo um serviço gratuito.
Os tempos eram extremamente delicados e, porque não sublinhar, bicudos, naquela época. As sondagens de intenção de voto para a presidência da república traduziam, de maneira absoluta, a exacerbação das incertezas dos agentes econômicos e sociais em relação aos cenários pós-2014.
Os inquéritos opinativos mostravam a plataforma verde, trazida pela candidata presidencial de Marina Silva, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) – vice em substituição ao candidato Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, falecido em acidente aéreo, em 13 de agosto de 2014 – na dianteira; a bandeira vermelha – fruto de aliança entre PT, PMDB e PSD -, levantada pela postulante à reeleição, Dilma Rousseff, em segundo lugar; e o candidato das tintas azuis da social democracia, senador Aécio Neves – alçado por aliança conduzida por PSDB e DEM – no terceiro posto, com diferenças pouco significativas entre os três pretendentes.
O mais complicado, no entanto, era a conformação de um quadro de deterioração dos níveis de atividade e emprego e retrocesso dos ativos de inclusão e mobilidade social, conquistados a partir de 1994 por meio da concatenação entre a desinflação proporcionada pelo Plano Real, a estratégia de promoção continuada de ganhos reais do salário mínimo e a implantação e alargamento das iniciativas públicas de proteção social.
Esse panorama adverso só não havia penetrado e/ou afetado drasticamente o cotidiano das empresas e famílias por conta do controle artificial da inflação, via intervencionismo governamental no represamento dos reajustes dos preços chave (câmbio, juros, tarifas públicas e combustíveis) e na adoção da contabilidade criativa, que propiciava descarada maquiagem das contas públicas, expediente que transformava déficits crescentes em superávits robustos.
Encerrada a palestra, o mencionado encarregado da comunicação tomou a liberdade de estipular a inversão da pauta, informando que as indagações ao palestrante poderiam ser endereçadas por escrito e seriam respondidas após a apresentação minuciosa do balanço semestral da multinacional a ser efetuada pelo presidente da corporação.
No entanto, não perdeu a oportunidade de destacar (ou alfinetar) que se sentia contente pela escolha de preenchimento da cobertura das mesas ocupadas pelo público de colaboradores ter recaído sobre copos de plástico e não de vidro, o que impediria o desencadeamento de atitudes desesperadas pelos ouvintes que poderiam chegar à quebra do objeto e ao corte dos pulsos.
Penso que a modificação do roteiro foi providencial, pois me permitiu ouvir atentamente quase todo o percurso verbal do chairman, que ultrapassou a marca dos 60 minutos. Um pouco antes, solicitei permissão para me ausentar, devido à compromissos em sala de aula, no começo da noite. Ainda assim, assumi o encargo de responder aos quesitos que me fossem encaminhados por dispositivo eletrônico.
Recordo que, em sua longa vocalização, o presidente foi contundente ao lançar e reiterar argumentos que rechaçavam a existência de crise econômica e política, por mim argumentada e defendida, e, em caso da pouco provável constatação de tempos ruins, aquele ramo econômico não seria abalado e consubstanciava “um ponto fora da curva”.
O que me chamou a atenção é que os resultados por ele expostos, descritos e interpretados confirmavam justamente o oposto, ou, em outros termos, a introdução dos negócios da empresa em um estágio de flutuação cíclica, na mais condescendente e/ou otimista das avaliações.
A ciência política assevera que a candidatura de Marina Silva foi destruída pela propagação de desinformações pelo exército petista e, em menor medida pela coligação encabeçada pelo PSDB, e, ao fim e ao cabo, Dilma venceu Aécio, por margem apertada, no segundo turno, em 2014.
Em paralelo, eclodia e se intensificava, a maior e mais longa recessão da história da república, quantificada por queda de -8,5% do produto interno bruto (PIB), entre abril de 2024 e dezembro de 2016, medida pelo Sistema de Contas Nacionais Trimestrais (SCNT), do IBGE.
Em janeiro de 2015, a transacional hospedeira da controvertida palestra anunciou o desligamento de 270 trabalhadores, ou não sobreviventes à imperiosa necessidade de ajustes nas duas linhas de produção, derivados da pronunciada retração da demanda da agricultura por bens de produção.
Em tais circunstâncias, as chances de recebimento de convites para retorno e feitura de novas preleções nas dependências da companhia tornaram-se nulas. O velho hábito de detalhar movimentos observados, declarar pensamentos, e, sobretudo, acertar em apostas prospectivas, desagradaram os membros do staff e trancaram as portas de acesso a este profissional de economia.
As ocorrências subsequentes, abarcando o impeachment de Dilma, a administração conservadora no mandato-tampão de Michel Temer, o surgimento, ascensão e malogro “transitório” do Bolsonarismo – em fase com a ascensão da ultradireita nas nações ocidentais, tendo como ícone o chefe de estado dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump – e o retorno do progressismo de Lula, já foram fartamente esclarecidas neste espaço.
Nas condições atuais, um chamamento dirigido à atualização do colóquio de 2014, levando em consideração a premência de compreensão organizada da marcha da conjuntura política e econômica e fixação de referências futuras para as opções estratégicas relacionadas ao “chão de fábrica”, exigiria cuidados redobrados.
Só que em contraste com a desordem reinante há 12 anos, o curso da dinâmica política, institucional e econômica, ainda que pendular, consente a priorização de objetivos de calibragem com sensatez das posições e mensagens otimistas e a fuga de formulações de proximidade do abismo.
Por uma ótica eminentemente política e institucional, afigura-se crucial a obsessão pelo aprofundamento da salvaguarda da soberania e democracia nacional, algo não trivial em contexto de acirramento da polarização, instaurada desde a contenda presidencial de 2018, que sufoca o aparecimento de alternativas equidistantes dos extremos.
Ademais, com frequência, a prevalência do extremismo incita a estruturação de posturas inclinadas ao descumprimento e/ou supressão de regras formais e informais, ajudadas por chantagens ou interferências exógenas, tradicionais ou modernas, abertas ou veladas.
Infelizmente, atos civilizados de transferência de faixa presidencial, como o ocorrido em janeiro de 2003, quando Fernando Henrique Cardoso (FHC) entregou o poder para Lula, ficaram no passado. Fração significativa do eleitorado faz sua escolha com o sentimento de fuga ou repúdio do mal maior e não por itens sedutores das plataformas dos candidatos, o que incentiva a não explicitação de propostas pelos que possuem a rejeição ao adversário como maior trunfo.
Também impera flagrante desalinhamento entre as esferas de poder, gerado pelo excessivo peso conferido pelo executivo à viabilização de iniciativas de “tiro curto”, mais apegadas às vontades eleitorais e menos ocupadas com a construção de um projeto de nação, de longa maturação.
Já o legislativo tem se “sacrificado” denotadamente, por mais de uma década, ao empreendimento de ampliação do domínio na execução do Orçamento Geral da União, mediante a inscrição do pagamento de emendas pouco transparentes, encaminhadas aos currais eleitorais.
Esse procedimento, que distorce e/ou bagunça as políticas de estado e eterniza mandatos dos parlamentares, premiados em um jogo de cartas marcadas, serve para dar feições contemporâneas à oligarquia patrimonialista incrustrada na sociedade brasileira desde o período imperial.
Enquanto isso, o judiciário, depois de cumprir papel de relevo no combate ao negacionismo da administração federal durante a pandemia de Covid-19 e à intentona golpista, materializada em 08 de janeiro de 2023, perdeu-se no uso de disfarces corporativistas, visando à manutenção de valores dos penduricalhos acima do teto constitucional, e na indiferença à orquestração de laços incestuosos entre alguns de seus membros com fragmentos relevantes da comunidade empresarial portadores de diminuta reputação, valendo-se da toga como uma espécie de escudo.
Na órbita econômica, convém avaliar potencialidades e ameaças à construção de futuros desejáveis à população nacional. Pelo ângulo dos itens positivos, parece razoável elencar o prosseguimento da recuperação dos patamares de renda e emprego, iniciada no final de 2022, derivada da concatenação entre esforço exportador e expansão da demanda doméstica, catapultada pelo gasto público alocado na diminuição da vulnerabilidade social.
Esse desempenho vem resistindo às limitações globais – produzidas pelos desdobramentos da perversa convergência entre as guerras da Ucrânia e do Irã e pelo protecionismo tarifário deflagrado pelo governo norte-americano, desvinculado do caminho trilhado pelas variáveis de comércio e em contraposição ao multilateralismo – e aos embates políticos e institucionais endógenos, alargados em tempos de operação do “parlamentarismo de extorsão”.
Não obstante o enrijecimento da informalidade da mão obra, equivalendo a quase 40% da população ocupada, o Brasil bate sucessivos recordes de geração de empregos e de salários reais da série histórica levantada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do IBGE.
Na mesma linha, a desigualdade de distribuição de renda, aferida pelo coeficiente de Gini (que varia entre zero e um denotando menor disparidade à medida que se distancia da unidade, registrou, em 2025, 0,491, o segundo menor índice desde o princípio dos levantamentos, pior apenas que o de 2024 (0,487).
O inconveniente principal repousa na percepção de estilo de crescimento focado no curto prazo, centrado no consumo e desatento ao adensamento do investimento, parâmetro vital à transição virtuosa do imediato para o médio e longo termo, alinhado com atenção privilegiada à educação e às apreciáveis transformações tecnológicas mundiais, fator indispensável à obtenção de ganhos continuados de produtividade, diante da iminência de fechamento da janela demográfica.
Só a título de ilustração, o Global Wealth Report 2026 classificou o Brasil no 3º posto em concentração de riqueza no planeta. O País figurou com índice 82 (flutua entre zero e cem, sendo que quanto mais elevado maior acúmulo de patrimônio nas mãos de poucos), empatado com a África do Sul e apenas um ponto abaixo de Emirados Árabes Unidos e Rússia, que assinalaram 82.
Outra discrepância diz respeito à subordinação do giro da roda ao elevado endividamento do governo, famílias e empresas, decorrente da tolerância compulsória, por décadas, do tecido produtivo e social nacional a juros nas alturas, principalmente quando cotejados com aqueles vigentes em nações com passivos governamentais semelhantes ou até maiores que o brasileiro, como proporção do PIB.
A alegação dos experts, acolhida integralmente pelos formadores de opinião, reside nos permanentes acréscimos dos dispêndios correntes do governo que ocasionam desequilíbrio entre demanda e oferta agregada e implicam em desgarrada da inflação das faixas deliberadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o regime de metas (centro 3% e teto de 4,5% anuais), o que obriga o Comitê de Política e Econômica (Copom), do Banco Central (BC) a manter o gatilho dos juros em modo disparo.
A desculpa é mais do que perfeita para autoridades e analistas que, por interesse ou ideologia, preferem contemplar (e se possível interferir) um sistema econômico mutilado que funciona somente se forem acionadas as engrenagens do pedaço relativo à demanda.
Do ponto de vista técnico prevalece o esquecimento proposital (velado ou escancarado) dos mecanismos ligados à oferta ou custos (câmbio, energia, alimentos, juros, tributos, dentre outros), demasiadamente diligentes, e à inércia, consubstanciados no repasse inflacionário pretérito e presente ao futuro, magnificado pelo não desmanche da cultura de indexação e o poder de mercado dos oligopólios, como adequadamente decifrado pelos professores Ignácio Rangel, nos anos 1960, e Luiz Carlos Bresser Pereira e Yoshiaki Nakano, na década de 1980.
Essa vacância de entendimento beneficia o despejo contínuo de combustível na fogueira da inflação e dos juros, que se espalha para as expectativas fabricadas pelos entes do mercado e oferecidas semanalmente ao BC e otimiza o paraíso do rentismo, arranjado por uma matriz bancária de pronunciada concentração, a despeito do adensamento da presença de instituições digitais.
Por fim, mas não menos importante, aparecem a precariedade do fluxo de caixa das empresas estatais e as generosas rolagens das dívidas dos estados. A Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado da República, constatou que 7 das 17 companhias públicas controladas pelo governo central – pauperizadas gerencialmente em razão do aparelhamento político – amargaram patrimônio líquido deficitário, em 2025, e várias das não tuteladas experimentaram margem operacional negativa (lucro versus receita líquida).
Ao mesmo tempo, o pomposo Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), contém o atrevimento de zeragem das taxas de juros incidentes sobre o passivo principal, sem a delimitação de qualquer contrapartida na preparação de planos de ajustes financeiros estruturais e de vendas de ativos, de modo a assegurar a quitação das prestações.
Com essa benevolência, a União abdicará de mais de R$ 190 bilhões, em 30 anos, o que implicará no sacrifício de haveres que poderiam ser alocados em infraestrutura social (saúde, educação e segurança pública) e econômica, notadamente, diversificação dos transportes e transição energética.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








