Economia brasileira em estagnação cíclica

Economia brasileira em estagnação cíclica
Gilmar Mendes Lourenço.

Um exame criterioso das estatísticas conjunturais relativas ao princípio do terceiro trimestre de 2026, coincidindo com a largada do calendário eleitoral polarizado, permite apreender a conformação de um cenário de estagnação cíclica da economia brasileira.

Com isso, é praticamente inquestionável a interrupção da marcha de recuperação, iniciada em fins de 2022, ancorada no esforço exportador do agronegócio e na alavancagem do consumo das famílias atrelada aos vultosos aportes fiscais nos programas oficiais de transferência direta de renda.

Ressalte-se que o peso financeiro do contrato social, estipulado na Constituição de 1988, implantado nas gestões de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso (FHC), sofreu ampliação com o reajuste de mais de 15% nos valores pagos aos beneficiários do Programa Bolsa Família. O piso saltará de R$ 600 para R$ 691 e o repasse médio passará de R$ 675 para R$ 777.

A reversão da trajetória econômica ascendente pode ser imputada às influências negativas do ambiente externo, lideradas pelo agravamento das tensões geopolíticas, com a exacerbação da conduta imperialista do presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, particularmente com a imposição de despropositadas mega tarifas comerciais e a utilização de renovadas ofensivas de guerra como instrumento de intimidação.

O principal trunfo bélico do chefe americano repousa na, até aqui, incansável busca de desestabilização do Irã, que, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, desorganizou a operação das principais cadeias de suprimento de matérias primas, insumos e bens finais do planeta, catapultando os preços e enfraquecendo o comércio internacional.

Não por acaso, com uma inflação no varejo de 3,4%, em doze meses, contra meta de 2%, o Federal Reserve (Fed), banco central norte-americano, promoveu, na reunião de 16 de setembro de 2026, uma elevação de 0,25 ponto percentual da taxa básica de juros.

Trata-se da primeira majoração desde junho de 2023, quando foi estendida para o intervalo entre 5,25% ao ano e 5,5% a.a. Neste encontro, os juros passaram da faixa compreendida entre 3,5% a.a. e 3,75% a.a., para 3,75% a.a. e 4,0% a.a., com viés de alta.

Porém, há também a interferência das disfunções domésticas, resultantes do desarranjo macroeconômico, ou da ausência de sintonia entre política monetária restritiva e orientação fiscal expansiva, tendo como vedete os juros proibitivos – da base (Selic de 13,75% a.a.) a ponta (rotativo do cartão de crédito de 436,2% a.a.) do sistema, para a alegria geral dos rentistas e/ou especuladores e desespero e sofrimento dos pobres mortais), e da instabilidade política e institucional, conduzida por “escândalos democráticos”, envolvendo o conjunto de poderes da república e o universo de orientações ideológicas.

Do lado da oferta, a despeito de interromper dois meses seguidos de queda, a produção industrial cresceu apenas 0,2%, em julho de 2026, em relação a junho, puxada pela fabricação de bens de consumo duráveis (3,2%), em especial artigos de informática e eletrônicos, e de capital (2,4%), impulsionados por máquinas aparelhos e materiais elétricos equipamentos de transporte, conforme apontado por pesquisa do IBGE.

Ao mesmo, a produção de bens não duráveis e semiduráveis avançou 0,5%, movida por alimentos e confecções e vestuário, enquanto a de bens intermediários decresceu -0,2%, por conta principalmente da retração observada na indústria extrativa que, por sinal, acumulou declínio de -4,1%, entre maio e julho de 2026.

No que diz respeito à média móvel trimestral, apurou-se recuo de -0,8%, devido às performances desfavoráveis de parte da ponta da atividade industrial, especificamente de bens de consumo não duráveis e semiduráveis (-1,7%) e, da base, bens intermediários (-0,7%).

Em tendência semelhante de paralisia figuram as variáveis industriais levantadas por investigação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que captou, em julho deste ano, recuo de -2% no faturamento real (com desconto dos efeitos inflacionários) e 0,8% na utilização da capacidade instalada e variação de 0,2% em horas trabalhadas na produção, emprego e massa salarial real, e zero para rendimento médio real.

No terreno da demanda, o volume de vendas do comércio varejista subiu 0,4%, em julho de 2026, em cotejo com o mês imediatamente anterior – sendo que a média móvel trimestral experimentou contração de -0,3% -, ancorado quase que exclusivamente em material de construção (0,7%), com encolhimentos em segmentos relevantes como móveis e eletrodomésticos (-4,9%), livros e jornais (-4,2%), tecidos, vestuário e calçados (-2,7%) e super e hipermercados (-,01), traduzindo o panorama de juros e endividamento e inadimplência das famílias elevados.

Em sentido análogo, apesar de situar-se 20% acima do patamar anterior à pandemia de covid-19, considerado o mês de fevereiro de 2020, e apenas 0,2% abaixo do pico da série histórica, verificado em outubro de 2025, o volume de serviços experimentou crescimento nulo, em julho de 2026.

Tal performance traduz incremento de 0,5% das atividades destinadas às famílias e de 0,6% das profissionais e administrativas e 0,4% em transportes e correios e recuo de -2,5% na prestação referente à informação e comunicação, notadamente tecnologia da informação.

Por tudo isso, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br) -interpretado pelos meios especializados como indicador antecedente da variação do produto interno bruto (PIB), calculada pelo IBGE – decresceu -0,2%, em julho, devido às contrações de -1,2% e -0,4%, da agropecuária e indústria, respectivamente, e expansão zero dos serviços, enfeixando as circunstâncias de perda de embalo da produção e dos negócios.

No terreno das expectativas, o índice de confiança do empresário industrial, aferido pela CNI, desceu de 46,3 pontos, em agosto, para 44,9 pontos, em setembro, evidenciado o estado geral de desanimo da comunidade corporativa, dado que o indicador varia entre zero e cem pontos, denotando pessimismo quando situa-se abaixo de 50 pontos.

Como contraponto às sinalizações menos animadoras aparecem a vitalidade do mercado de trabalho, ainda que com acentuada precariedade ditada por relações informais superiores a 40% do pessoal ocupado, e a conformação de uma rota cadente da inflação, atestada pelo afastamento do teto anual de 4,5%, estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e monitorado pela autoridade monetária.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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