O Fed mudou a conta do risco. O que isso significa para o Brasil e para as criptos?

O Fed mudou a conta do risco. O que isso significa para o Brasil e para as criptos?
Carlos Akira Sato.

Juros mais altos nos EUA aumentam a exigência por retorno e podem mudar a disputa por capital entre renda fixa, emergentes e ativos digitais

A decisão do Federal Reserve de elevar os juros americanos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano, muda mais do que a taxa básica da maior economia do mundo. Ela altera a referência usada pelos mercados para precificar risco, justamente em um momento em que a expectativa de cortes começa a dar lugar à discussão sobre quanto tempo o dinheiro permanecerá caro. As novas projeções do Fed apontam juros de 4,1% tanto para o fim de 2026 quanto para 2027, acima das estimativas anteriores.

Para Carlos Akira Sato, co-founder da Syscapital e especialista em Mercados Regulados e Tokenização de Ativos, a principal mudança está na relação entre retorno e risco. “O ativo livre de risco do sistema financeiro mundial ficou mais rentável. Para assumir risco de crédito, risco acionário, risco cambial ou risco tecnológico, o investidor passa a exigir retorno maior. Esse é o centro da decisão: o preço do risco subiu”, afirma. A mudança de expectativa já afeta a precificação de títulos, ações, moedas, crédito, startups e criptoativos, antes mesmo de uma eventual nova decisão do Fed.

No Brasil, o movimento ocorre enquanto a Selic está em 13,75% ao ano e o Banco Central conduz uma redução gradual dos juros. Se a taxa americana sobe enquanto a brasileira cai, o diferencial entre os dois mercados diminui, embora isso não signifique automaticamente fuga de capital ou desvalorização do real. O país passa a disputar recursos em um ambiente no qual o investidor recebe relativamente mais para permanecer em ativos americanos considerados de menor risco.

“O Brasil precisa compensar essa mudança com uma combinação de juros reais elevados, ativos descontados, crescimento consistente e redução do risco fiscal. Ao mesmo tempo, manter o dinheiro caro por aqui aumenta o custo de financiamento para empresas e famílias”, explica Sato.

O efeito também chega às startups, fintechs e empresas de criptoativos, que passam a enfrentar um capital mais seletivo. Nesse ambiente, geração de caixa, governança, eficiência operacional e capacidade de cumprir obrigações regulatórias ganham peso diante de projeções de crescimento. No mercado cripto, a menor liquidez pode aumentar a sensibilidade dos ativos ao cenário de juros, enquanto a renda fixa tokenizada pode ganhar espaço justamente por combinar estruturas com fluxo financeiro identificável e a possibilidade de fracionamento e automação.

“A tokenização não elimina o risco. Um token não é mais seguro apenas porque circula em blockchain. É preciso olhar para o emissor, o lastro, a custódia, as garantias, a liquidação, o mercado secundário e o enquadramento regulatório”, acrescenta o especialista.

Reação desigual

No curto prazo, a reação dos diferentes segmentos do mercado cripto tende a ser desigual. O Bitcoin pode sofrer com menor liquidez e maior custo de oportunidade diante de Treasuries mais rentáveis, enquanto stablecoins em dólar podem ganhar demanda como instrumento de exposição cambial e liquidação. DeFi, por sua vez, passa a competir com uma renda fixa tradicional que oferece remuneração maior, e empresas de cripto enfrentam maior pressão por receita, governança e conformidade. “Isso não significa que a alta dos juros obrigatoriamente derrubará o Bitcoin. O preço também depende de demanda institucional, oferta disponível, regulação, produtos de investimento e adoção tecnológica. A relação não é mecânica”, pondera.

A mudança, portanto, não representa o fim das oportunidades no Brasil ou no mercado de ativos digitais, mas uma seleção mais rigorosa de onde colocar capital. “O Fed não decidiu o futuro da economia brasileira nem do mercado cripto. Mas elevou a régua mundial de retorno. A pergunta passa a ser mais difícil: por que assumir determinado risco se o ativo considerado mais seguro do sistema passou a pagar mais?”, conclui Akira.

Como a decisão do Fed pode mexer com os mercados

MercadoPossível efeito
TreasuriesElevação dos rendimentos e reprecificação global da renda fixa
DólarMaior atratividade relativa dos ativos denominados em dólar
BolsasAumento da taxa de desconto e pressão sobre empresas de crescimento
CréditoCaptações mais caras e maior seletividade dos investidores
EmergentesMenor diferencial relativo e maior disputa por capital
CommoditiesPressão de um dólar forte, contraposta por riscos geopolíticos
CriptoativosMenor liquidez e menor disposição para assumir risco
TokenizaçãoMaior atratividade de instrumentos lastreados em renda fixa

O que muda entre os principais segmentos cripto

SegmentoPossível comportamento no novo cenário
BitcoinPressão de curto prazo pela menor liquidez; tese de escassez permanece no longo prazo
Ether e grandes protocolosSensibilidade à liquidez e à atividade econômica das redes
AltcoinsMaior risco de quedas, baixa liquidez e concentração
Stablecoins em dólarPodem ganhar demanda como exposição cambial e meio de liquidação
DeFiPrecisa competir com o retorno maior da renda fixa tradicional
Tokens de renda fixaPodem ganhar atratividade, desde que haja lastro e estrutura jurídica adequados
Empresas criptoCaptação mais cara e maior pressão por receita, governança e conformidade

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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