Cripto: menos de 10% das empresas podem obter licença do BC

Exigências do Banco Central elevam barreiras de entrada e podem estimular aquisições, parcerias com bancos e DTVMs e novos modelos de atuação para startups de cripto
A nova regulamentação do Banco Central para o mercado de ativos virtuais pode provocar uma forte reorganização do setor no Brasil. A estimativa de que menos de 10% das empresas atualmente em operação consigam autorização para funcionar coloca em discussão o futuro dos pequenos e médios players e o espaço que será ocupado por bancos, corretoras, distribuidoras de títulos e valores mobiliários (CTVMs e DTVMs) e grupos especializados em cripto.
“Houve considerável elevação das barreiras de entrada para entidades supervisionadas pelo Banco Central. A nova regulação não exige apenas capital, mas também governança, controles internos, prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, segurança, prestação de informações e supervisão contínua. Uma empresa pequena, pode cumprir tecnicamente os requisitos, mas o custo de permanecer regulada deixa de fazer sentido diante da escala de suas receitas”, afirma Carlos Akira Sato, co-founder da Syscapital e especialista em Mercados Regulados e Tokenização de Ativos.
Esse cenário pode mudar também a relação entre empresas de cripto e instituições financeiras tradicionais. A Resolução BCB nº 520 permite que determinadas instituições já autorizadas pelo Banco Central prestem serviços de intermediação e custódia de ativos virtuais, criando uma alternativa para empresas que não tenham estrutura ou escala para assumir toda a infraestrutura exigida pelo novo modelo regulatório.
“Isso não significa que as startups estejam condenadas. O que muda é o modelo de competição. Antes, uma empresa podia tentar concentrar tecnologia, relacionamento com o cliente, custódia, negociação e movimentação financeira. Com a nova regulação, manter toda essa estrutura dentro de uma startup passa a exigir escala e capital muito maiores. Algumas buscarão autorização própria, outras poderão ser adquiridas e um terceiro grupo tende a encontrar espaço como fornecedor de tecnologia, distribuição ou interface com o cliente”, explica.
Startups podem ganhar espaço
Nesse novo desenho, startups podem ganhar espaço justamente nas atividades que não dependem necessariamente de uma licença própria, como desenvolvimento de tecnologia, tokenização, APIs, soluções de infraestrutura, distribuição e produtos em modelo white-label. A tendência pode ser de concentração das estruturas reguladas, sem que isso signifique necessariamente concentração das marcas e soluções oferecidas ao consumidor.
“Podemos ter poucas instituições reguladas por trás e dezenas de marcas, aplicativos e fintechs disputando o cliente na frente. A infraestrutura tende a se concentrar mais do que a inovação. Bancos e DTVMs têm capital, compliance e estruturas de governança, enquanto as startups podem oferecer velocidade, tecnologia e conhecimento específico sobre blockchain e ativos digitais. Isso cria espaço para parcerias, aquisições e modelos B2B”, afirma Akira.
O movimento deve ganhar ainda mais força a partir de 30 de outubro de 2026, quando as operações de ativos virtuais só poderão ser prestados por empresas estejam autorizadas ou em processo de autorização. A medida restringirá o acesso acelerará a consolidação do mercado. “Isso cria uma espécie de muro regulatório. Mesmo que uma empresa queira continuar operando fora do processo de autorização, sua capacidade de acessar a infraestrutura financeira brasileira ficará severamente limitada. Para as startups, o caminho pode estar justamente em se conectar às instituições que conseguirem obter autorização”, conclui.
Crédito da foto: Rafa Neddermeyer








