Agricultores paranaenses visitam os EUA em busca de tecnologias que devem moldar o futuro do campo

Missão aproximou lideranças rurais de empresas, universidades, startups e produtores norte-americanos
Como será produzir alimentos daqui a cinco, dez ou vinte anos? Em um cenário de avanço acelerado da inteligência artificial, automação, robótica e agricultura de precisão baseada em dados, parte da resposta pode estar nas tecnologias que hoje ainda estão sendo desenvolvidas em centros de inovação e que, em breve, poderão fazer parte da rotina das propriedades rurais.
Foi com o olhar voltado para esse futuro que agricultores e lideranças do setor rural paranaense embarcaram para os Estados Unidos em uma missão promovida pelo Sistema FAEP, com roteiro desenvolvido e operação realizada pela TNT Viagens Técnicas. Ao longo de 13 dias, o grupo percorreu Califórnia, Nebraska, Iowa e Missouri para conhecer empresas, startups, universidades, centros de pesquisa e propriedades rurais e entender como novas tecnologias podem transformar a forma de produzir, gerir e tomar decisões no campo. Esse foi o terceiro grupo a fazer o roteiro em 2026, até o final do ano mais dois grupos devem desbravar o agro norte-americano.
Os participantes tiveram a oportunidade de discutir o que está por trás da próxima transformação da agricultura: como produzir com mais eficiência, lidar com a disponibilidade de mão de obra, reduzir custos, utilizar melhor os insumos e transformar o volume crescente de dados gerados dentro das propriedades em decisões mais assertivas. Para Emanuel Ribeiro Júnior, sócio-diretor da TNT Viagens Técnicas, esse é justamente um dos principais valores das missões internacionais: permitir que o produtor acompanhe movimentos que ainda estão começando e tenha mais repertório para decidir os caminhos do próprio negócio.
“Ao visitarmos polos como o Vale do Silício, conseguimos enxergar tecnologias que talvez ainda levem alguns anos para chegar de forma ampla ao produtor. Depois, no Meio-Oeste, encontramos soluções que já estão sendo utilizadas no dia a dia. Essa combinação permite entender não apenas onde a agricultura está hoje, mas para onde ela está caminhando”, destaca.
O agricultor no centro da transformação
Se a tecnologia avança rapidamente, é dentro da propriedade que ela precisa provar seu valor. Por isso, um dos pilares da missão foi colocar os próprios agricultores paranaenses no centro das discussões. A proposta não era buscar soluções prontas para simplesmente reproduzir no Brasil, mas oferecer referências para que cada participante pudesse avaliar tecnologias, práticas e modelos de negócio a partir de sua própria realidade.
Essa perspectiva ganhou força durante a passagem por Iowa. Na visita à propriedade da família Brelsford, produtora de milho e soja na região de Des Moines, os agricultores paranaenses puderam comparar diretamente duas potências agrícolas e discutir produtividade, custos, armazenagem, maquinário, crédito, seguro rural e sucessão familiar.
As diferenças chamaram atenção, mas as semelhanças também. Apesar das particularidades dos sistemas produtivos brasileiro e norte-americano, desafios como margens pressionadas, custos elevados e continuidade das novas gerações no campo estão presentes nos dois países.
A comparação reforçou uma das principais premissas da viagem: inovação não significa simplesmente importar um modelo, mas ampliar o repertório do produtor para identificar o que faz sentido dentro da realidade de sua propriedade.
Da tecnologia que está nascendo àquela que já chegou ao campo
A construção do roteiro partiu de um objetivo definido pelo Sistema FAEP: compreender os avanços da inteligência artificial aplicada ao agronegócio. A partir desse direcionamento, a TNT pesquisou regiões e instituições que permitissem ao grupo acompanhar diferentes estágios da transformação tecnológica.
Na Califórnia, o grupo mergulhou no ambiente de inovação que cerca o Vale do Silício. A programação incluiu experiências com a EarthOptics, voltada ao mapeamento e análise de solos; Planet Labs; Bonsai Robotics; e Ecorobotix, com tecnologia de pulverização agrícola ultrasseletiva apoiada por inteligência artificial.
Ao seguir para o Meio-Oeste, a discussão se aproximou ainda mais da aplicação prática. A missão passou pela Valley Irrigation, por experiências da University of Nebraska–Lincoln envolvendo inteligência artificial para identificação do comportamento de bovinos em confinamento, além da Iowa State University e do Iowa Beef Center. Em Missouri, o grupo conheceu o BioSTL, ecossistema que reúne empresas e iniciativas de inovação, e visitou a Bayer para acompanhar aplicações de IA na pesquisa relacionada a pragas.
Para Júnior, muitas das tecnologias observadas apontam para um movimento que vai além do aumento de produtividade. O avanço tecnológico também busca resolver gargalos relacionados à mão de obra, reduzir custos operacionais, aumentar a precisão das operações e oferecer mais informação para as decisões tomadas dentro da fazenda.
“Não necessariamente estamos falando de uma grande ruptura de uma hora para outra. Muitas vezes são melhorias que vão sendo incorporadas aos processos e que, somadas, mudam a eficiência da propriedade. Para o agricultor, acompanhar essa evolução é importante porque permite começar hoje a se preparar para decisões que podem ser determinantes para a competitividade do negócio amanhã”, afirma.
Lideranças que multiplicam conhecimento
O impacto da missão, porém, não termina com o retorno dos participantes ao Brasil. Um dos diferenciais do grupo está justamente no papel exercido pelos agricultores e lideranças dentro de suas regiões.Distribuídos por diferentes áreas do Paraná, eles atuam próximos a outros produtores e passam a funcionar como multiplicadores das experiências e discussões realizadas durante a viagem.
“Para nós é muito importante essa imersão das nossas lideranças, que estão capilarizadas no Estado inteiro. São líderes importantes para disseminar e pulverizar esse conhecimento”, destacou Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema FAEP.
Para Marcos Eidam, presidente do Sindicato Rural de Ortigueira e um dos participantes da missão, acompanhar essa transformação de perto também significa questionar práticas consolidadas e manter o produtor conectado à velocidade das mudanças.
“Aquela ideia de que meu pai fazia assim, meu avô fazia assim e eu vou continuar fazendo não cabe mais no mundo em que vivemos. Precisamos nos atualizar e buscar novos conhecimentos. Coisas que achamos atuais no Brasil, quando chegamos aqui percebemos que eles já estão buscando as próximas alternativas”, afirma.
Nesse sentido, o conhecimento adquirido por cada participante ganha potencial para ultrapassar os limites de uma única propriedade. Ao retornar ao Paraná, as experiências podem alimentar discussões dentro de sindicatos rurais, associações e comunidades produtoras e contribuir para que outros agricultores também acompanhem tendências que começam a redesenhar o setor.
Viagens para antecipar o futuro
Transformar esse objetivo em uma experiência capaz de gerar conhecimento exige um trabalho que começa meses antes do embarque. A partir das demandas apresentadas pelo Sistema FAEP, a TNT ficou responsável por pesquisar destinos, identificar empresas e instituições, estabelecer contatos, construir os acessos e organizar uma sequência de visitas que permitisse conectar diferentes elos da inovação.
“Nosso papel é entender o que aquele grupo precisa buscar e onde estão as melhores referências para isso. Uma viagem técnica não deve ser uma coleção de visitas. Cada parada precisa conversar com a anterior e ajudar o participante a construir uma visão mais ampla sobre aquele tema”, explica Júnior.
A parceria entre a TNT e o Sistema FAEP já resultou em diferentes missões internacionais ao longo dos anos, com roteiros pelos Estados Unidos, Canadá, países europeus e Israel. Mais recentemente, as viagens passaram a incorporar eixos temáticos cada vez mais definidos. Em Israel, por exemplo, o foco esteve na gestão e nas tecnologias relacionadas à água. Em 2026, nos Estados Unidos, a inteligência artificial orientou a construção da programação.
A mudança acompanha a própria evolução das viagens técnicas no agronegócio. Em um setor no qual tecnologias, modelos de gestão e desafios produtivos evoluem rapidamente, conhecer outras realidades passa a ser também uma forma de antecipar movimentos.
Para a TNT, o resultado de uma missão, portanto, não está apenas no conhecimento adquirido durante os dias de viagem, mas no que cada agricultor faz com ele quando retorna à propriedade.
“O produtor brasileiro já está inserido em uma das agriculturas mais tecnificadas do mundo. Por isso, hoje uma missão internacional vai muito além de conhecer uma tecnologia diferente. Ela amplia referências, provoca novas perguntas e permite que o agricultor volte para casa olhando para o próprio negócio sob outras perspectivas. É esse olhar que pode ajudá-lo a se preparar para o futuro”, conclui Júnior.
Crédito das fotos: Faep








