Grupo Boticário amplia investimentos em segurança hídrica

Gestão do recurso deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a envolver eficiência operacional, redução de riscos, inovação, investimentos e continuidade dos negócios
Durante muito tempo, a água foi tratada pelas empresas principalmente como uma questão ambiental. Hoje, diante dos efeitos das mudanças climáticas, do risco de escassez e da necessidade de tornar as operações mais eficientes, o recurso passou a ocupar um espaço estratégico nas decisões corporativas. Para indústrias, administrar a água significa não apenas reduzir impactos ambientais, mas também diminuir desperdícios, aumentar a eficiência, antecipar riscos e proteger a continuidade da produção.
Um exemplo dessa mudança de abordagem está no Grupo Boticário. A companhia vem combinando redução do consumo, reúso, monitoramento em tempo real, investimentos em tecnologia e revisão de processos para fortalecer sua segurança hídrica. Em 2025, a empresa reduziu em 9% a intensidade hídrica em relação a 2022, chegando a 4,59 metros cúbicos de água consumidos por tonelada de produto final nas fábricas. A meta é alcançar uma redução de 25% até 2030.

Segundo Luis Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário, a água é tratada como um tema transversal, relacionado diretamente à resiliência do negócio, à eficiência operacional e à inovação. “As mudanças climáticas trazem riscos reais de escassez ou excesso hídrico, com potencial de afetar nossas operações e nossa cadeia de valor”, afirma. Para ele, a saúde dos ecossistemas locais também é fundamental para a resiliência das fábricas e das comunidades onde a companhia está presente.
Essa visão faz com que a gestão hídrica ultrapasse os muros das fábricas. O Grupo utiliza a chamada Métrica de Valor da Água (MVA) para avaliar riscos e orientar decisões em bacias consideradas estratégicas, entre elas a do Rio Miringuava, no Paraná, além de Joanes e Jacuípe, na Bahia. A lógica é direta: preservar a disponibilidade e a qualidade da água nos territórios onde a empresa atua também significa proteger suas próprias operações.
R$ 27,6 milhões em tratamento e reúso
A estratégia envolve investimentos expressivos. Entre 2021 e 2025, o Grupo Boticário destinou R$ 27,6 milhões a estações de tratamento de água e efluentes, ampliando as possibilidades de utilização da água de reúso em aplicações não potáveis. Na fábrica de São José dos Pinhais, no Paraná, uma estação de reúso construída em 2023 recebeu investimento de R$ 10 milhões.
O resultado aparece também nos indicadores de circularidade. Em 2025, o volume de água de reúso utilizado pelo Grupo cresceu aproximadamente 60% em relação ao ano anterior. Nas operações fabris diretas de São José dos Pinhais e Camaçari, na Bahia, o índice de reutilização chegou a 36%, contra 24% em 2024. Quando são incluídos os centros de distribuição de Registro, em São Paulo, e São Gonçalo dos Campos, na Bahia, o percentual alcança 53%.
A evolução não acontece apenas por meio de grandes obras. Mudanças aparentemente simples nos processos também produzem resultados relevantes. Em quatro anos, por exemplo, o volume de água utilizado na limpeza de equipamentos caiu de 450 para 200 litros por sessão. Na fábrica paranaense, o Programa Gota permitiu reduzir em mais de 1.400 metros cúbicos o consumo de água por mês por meio da automação das limpezas e da redução de perdas.
Tecnologia para identificar desperdícios
A tecnologia passou a ser uma aliada importante nessa transformação. O Grupo Boticário utiliza a Central Única de Monitoramento de Utilidades (CUMU), que integra dados de captação e reúso e permite acompanhar o consumo em tempo real. Hidrômetros automatizados substituem medições manuais e ajudam a identificar rapidamente vazamentos e desvios de consumo.
Em São José dos Pinhais, a adoção de ultrafiltração por membranas aumentou a qualidade do efluente tratado, permitindo seu uso em processos industriais mais exigentes, como torres de resfriamento e caldeiras. Em Camaçari, a substituição da água purificada por água potável em determinadas etapas de limpeza de reatores eliminou perdas relacionadas ao processo de purificação.
Meyer explica que a companhia também vem avançando na mensuração do retorno dos investimentos socioambientais. Em 2025, em parceria com a consultoria Valuing Impact, o Grupo desenvolveu uma metodologia de ROI ESG para mensurar o valor gerado tanto para a sociedade quanto para o negócio. Além disso, análises realizadas com a Waterplan avaliam riscos físicos relacionados à escassez, à qualidade da água e a inundações nas principais unidades operacionais.
A água chegou inclusive à estrutura financeira da companhia. Na emissão de Sustainability-Linked Bonds, de R$ 2 bilhões, realizada em 2023, o Grupo vinculou as condições financeiras, entre outras metas, ao compromisso de alcançar 80% de água de reúso na fábrica de São José dos Pinhais até 2030.
Segurança hídrica começa fora da fábrica
A estratégia também considera que uma empresa não consegue garantir sua segurança hídrica olhando apenas para aquilo que acontece dentro de suas instalações. A conservação das bacias hidrográficas passou a fazer parte da agenda empresarial.
Por meio da Fundação Grupo Boticário e do Movimento Viva Água, a companhia atua na conservação de territórios estratégicos, com iniciativas de restauração ecológica, conservação de áreas naturais, agricultura sustentável e mecanismos de pagamento por serviços ambientais. Na bacia do Rio Miringuava (foto acima), no Paraná, as ações registraram, em 2024, redução de 20% na turbidez média, além da restauração de 50 hectares com o plantio de 30 mil mudas.
O Movimento Viva Água tem a ambição de estar presente em seis territórios até 2030. Entre eles estão justamente regiões que também concentram operações industriais do Grupo, como Miringuava, no Paraná, e Joanes e Jacuípe, na Bahia. A conservação desses territórios, portanto, atende simultaneamente a uma necessidade ambiental, social e empresarial.
O desafio agora é chegar a 2030
Apesar dos avanços, a companhia reconhece que ainda há desafios importantes. Ampliar o reúso exige garantir qualidade adequada da água, aumentar a capacidade de tratamento e equilibrar oferta e demanda, principalmente quando as fábricas operam próximas da capacidade máxima.
A meta para 2030 é reduzir em 25% a intensidade hídrica e utilizar pelo menos 90% da água de reúso gerada nas fábricas. A agenda também chega aos produtos. Em 2025, o Grupo alcançou 91% de progresso na meta de oferecer produtos enxaguáveis com menor impacto ambiental e já aplica tecnologias destinadas a reduzir o uso de água pelo consumidor durante o enxágue em 20% das soluções mapeadas.
A preocupação não termina nos fornecedores. O Grupo monitora 100% dos fornecedores críticos em relação à gestão hídrica. Em 2025, entre os fornecedores que responderam ao questionário do CDP Supply Chain, 79% já identificavam riscos climáticos e hídricos.
O caso do Grupo Boticário mostra uma mudança importante na forma como as empresas enxergam a água. O recurso, antes associado principalmente a custos operacionais e responsabilidade ambiental, passa a ser encarado como ativo estratégico. Reduzir o consumo, reaproveitar, monitorar, proteger bacias hidrográficas e adaptar processos são ações que, além de diminuir impactos, ajudam as empresas a se preparar para um cenário de maior pressão sobre os recursos naturais.
Para Meyer, essa integração é essencial: segurança hídrica, eficiência operacional e conservação ambiental não são agendas separadas. Fazem parte de uma mesma estratégia de resiliência.








