Construção civil deve atrair investimentos de R$ 1,1 trilhão até 2030

Construção civil deve atrair investimentos de R$ 1,1 trilhão até 2030

Habitação e infraestrutura devem sustentar a expansão

Os investimentos na construção brasileira devem passar de R$ 859,76 bilhões em 2026 para cerca de R$ 1,1 trilhão em 2030, segundo projeções do FGV IBRE. A expansão deverá ser sustentada principalmente pela habitação e pela infraestrutura, ao mesmo tempo que a escassez de profissionais qualificados e a baixa produtividade aumentam a necessidade de modernizar os processos construtivos.

Em 2026, o setor mantém ritmo moderado de expansão, com alta projetada de 1,3% para o PIB da construção. As obras de infraestrutura e o programa Minha Casa, Minha Vida impulsionam a atividade empresarial, enquanto as reformas realizadas pelas famílias são mais afetadas pelo endividamento e pelos juros elevados.

“As perspectivas de investimento são positivas, mas exigem que a cadeia esteja preparada para responder a essa expansão com eficiência. Qualificação profissional, modernização dos processos e maior utilização de sistemas industrializados serão fundamentais para ampliar a capacidade de produção com qualidade”, avalia o engenheiro civil Anderson Augusto de Oliveira, vice-presidente de Tecnologia e Qualidade do Sinaprocim/Sinprocim e gerente de Programas Setoriais da Qualidade no âmbito do Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H).

Parte dos recursos previstos já está contratada ou vinculada a projetos em andamento, o que ajuda a amortecer os efeitos do ciclo de juros elevados. Embora incertezas domésticas e internacionais possam alterar a trajetória, as projeções indicam avanço gradual dos aportes, que devem superar R$ 1 trilhão a partir de 2029.

“A construção tem, sim, hoje as forças necessárias para mitigar um movimento de desaceleração que já começa a se desenhar. Infraestrutura, amparada principalmente pelo investimento privado, e o Minha Casa, Minha Vida são forças importantes que vão continuar contribuindo nos próximos anos”, afirma a economista Ana Maria Castelo, do FGV IBRE.

O cenário sucede duas décadas de ampliação da escala do setor. Entre junho de 2006 e junho de 2026, o número de trabalhadores com carteira assinada passou de 1,37 milhão para 3,12 milhões, alta de 128,3%. No mesmo período, a relação entre o crédito imobiliário e o PIB avançou de 2,7% para 10,9%, e os investimentos em infraestrutura passaram de 1,7% para 2,3% do PIB.

Expansão exige ganhos de produtividade

Se, nas últimas décadas, a construção conseguiu ampliar a produção incorporando trabalhadores, a disponibilidade de mão de obra passou a representar uma restrição cada vez mais relevante. Na Sondagem da Construção, o percentual de menções à escassez de profissionais como fator limitante subiu de 4,8% em 2018 para 36,5% em 2025.

“A escassez de mão de obra hoje não é mais uma questão conjuntural”, observa Ana. Segundo a economista, o envelhecimento da força de trabalho e a dificuldade de atrair jovens e mulheres diferenciam o quadro atual daquele observado no ciclo de expansão entre 2007 e 2014, quando uma economia mais aquecida explicava parte importante da falta de profissionais.

A mudança coloca a produtividade no centro da capacidade de crescimento do setor. Em 1995, o valor adicionado por trabalhador da construção correspondia a 72,8% da média da economia brasileira. Em 2025, essa proporção havia recuado para 48,9%.

As diferenças aparecem também dentro da cadeia: o valor adicionado por pessoa ocupada chega a R$ 71,5 mil nas empresas, ante R$ 14,5 mil nas atividades de construção realizadas pelas famílias. A média do setor é de aproximadamente R$ 33 mil.

Industrialização ainda tem espaço para avançar

A industrialização surge como uma das alternativas para elevar a capacidade produtiva sem depender continuamente da incorporação de trabalhadores. O Índice Geral de Industrialização da Construção, desenvolvido pelo FGV IBRE para medir a presença efetiva de sistemas construtivos industrializados nas obras, chegou a 15,7 pontos em junho de 2026.

Atualmente, 48,2% das companhias pesquisadas empregam algum sistema construtivo industrializado. Entre elas, essas tecnologias estão presentes, em média, em 32,6% das obras. A combinação das duas medidas indica que cerca de 15,7% das obras utilizam algum método industrializado. “A industrialização é um caminho para se alcançar, de fato, essa melhora da produtividade setorial”, diz Ana.

O avanço mais expressivo ocorreu nas edificações, segmento em que o indicador atingiu 18,8 pontos, alta de 2,7 pontos. Na infraestrutura, chegou a 16,1 pontos. Entre os sistemas mais citados estão os pré-fabricados de concreto, com 56%, para estruturas em aço.

A criação do indicador coincide com a transição da reforma tributária. Ana lembra que pesquisa anterior do FGV IBRE apontou a questão tributária entre as dificuldades enfrentadas pelas empresas para ampliar o uso de sistemas industrializados. Há ainda barreiras culturais e relacionadas ao financiamento, especialmente no mercado de edificações.

Para a economista, o ponto de inflexão está na capacidade de converter as oportunidades de investimento em produção efetiva. Depois de um período em que o emprego formal mais que dobrou, o avanço do setor terá de depender menos da ampliação contínua do contingente de trabalhadores e mais da eficiência no uso dos recursos.

“Daqui para frente, a construção só consegue crescer, sustentar o crescimento com produtividade, transformando produtividade em competitividade e sustentabilidade”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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