Eleições de 2026 afetam a precificação de ativos e mudam a dinâmica de fusões e aquisições

Mercado transacional brasileiro mobiliza R$ 166,8 bilhões em 2026
O período eleitoral de 2026 (04 a 25 de outubro) afetará significativamente o mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A). Isto porque o considerável número de variáveis políticas aliadas a incertezas a respeito do futuro das políticas fiscais a curto prazo amplia a dispersão de expectativas entre vendedores (sell side) e compradores (buy side), estendendo o tempo de negociação e aumentando o uso de mecanismos de proteção de preço como earn-outs (pagamentos adicionais atrelados a metas) e escrows (retenção de parcelas para eventuais contingências).
Por outro lado, o cenário abre oportunidades para investidores encontrarem ativos mais atraentes e estratégicos para seus negócios. A constatação é de um estudo setorial da Crowe Macro, empresa global de auditoria e consultoria especializada em M&A, due diligence e valuation.
O levantamento aponta que o mercado brasileiro de fusões e aquisições no primeiro semestre de 2026 movimentou R$ 166,8 bilhões distribuídos em 593 transações. Os dados evidenciam que, apesar do recuo de 35% na quantidade de acordos em relação ao mesmo período de 2025, o capital movimentado cresceu 3%. Esse cenário impulsionou a atuação de fundos de Private Equity e Venture Capital, que ampliaram sua participação de 43% para 50% das operações, posicionando-se para capturar assimetrias de preço com recursos já alocados e visão de longo prazo.
Esse dinamismo desenvolve-se em um contexto macroeconômico que combina atividade econômica resiliente e desafios persistentes no custo de capital. O PIB brasileiro cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior — uma alta de 1,8% frente ao mesmo período de 2025 —, acompanhado por uma taxa de investimento de 16,5% do PIB e inflação acumulada pelo IPCA em 4,64% nos 12 meses encerrados em junho.
“O mercado não para, ele se sofistica. Eleições não interrompem processos de M&A, elas mudam sua forma. Em vez de um valuation estático, passamos a operar por intervalos condicionados a cenários. Compradores estratégicos buscam previsibilidade de caixa e baixa alavancagem, enquanto fundos capitalizados exploram desalinhamentos temporários de preço”, explica Francisco D’Orto Neto, sócio da Crowe Macro para o segmento de M&A e Valuations.
Segundo D’Orto Neto, o mercado deverá acompanhar cinco variáveis principais: credibilidade fiscal, trajetória dos juros, comportamento do câmbio, previsibilidade tributária/regulatória e confiança empresarial. Nenhuma delas, entretanto, deve ser analisada isoladamente. “Uma melhora fiscal pode reduzir o prêmio de risco mesmo sem crescimento acelerado; por outro lado, estímulos de curto prazo sem fonte de financiamento podem sustentar a atividade temporariamente, mas elevar juros futuros e corroer valuations“, pontua o executivo.
Estruturação de Acordos e Setores em Foco
Para superar o descompasso entre a expectativa dos vendedores e o retorno exigido pelos compradores, as negociações em 2026 vêm utilizando mecanismos contratuais altamente defensivos, como earn-outs (pagamentos adicionais atrelados a metas) e escrows (retenção de parcelas para eventuais contingências), além de um rigor substancialmente maior na definição de dívida líquida e capital de giro.
Para reforçar a proteção jurídica contra alterações adversas relevantes entre a assinatura e o fechamento dos negócios, têm destaque também os Seguros de Declarações & Garantias (R&W) e as Cláusulas MAC. Nesse cenário, embora setores como Tecnologia, Energia, Infraestrutura, Saúde, Serviços Financeiros, Agronegócio, Logística e Serviços Empresariais continuem atraindo a maior parte do capital, ativos sujeitos a regimes regulados exigirão atenção redobrada quanto aos impactos de políticas públicas e reajustes tarifários.
“O mercado de M&A em 2026 exige um refinamento contratual sem precedentes para alinhar as expectativas de valuation ao retorno desejado pelos investidores. A chave para destravar negócios em setores estratégicos está no uso inteligente de mecanismos de proteção, como earn-outs, seguros de R&W e rigor na definição de capital de giro. Negociar hoje não é apenas fechar o preço, mas garantir a previsibilidade e mitigar riscos até o fim da transação, especialmente em ativos regulados”, conclui Francisco D’Orto Neto.
Embora a eleição presidencial de 2026 prometa movimentar e trazer instabilidade ao mercado brasileiro, o cenário não deve travar a compra e venda de empresas no país, mas sim separar os negócios bem preparados daqueles vulneráveis. A avaliação da Crowe Macro é que bons ativos continuarão sendo disputados, enquanto companhias com gargalos — especialmente as familiares que adiam decisões sobre o próprio futuro — correm o risco de ver seu valor despencar.
“Para atravessar o período com segurança, conselhos e acionistas precisam fazer a lição de casa antes das urnas: enquanto quem quer vender deve organizar suas finanças e contratos para passar confiança, quem quer comprar precisa simular como o negócio se comporta diante de juros e câmbio desfavoráveis. No fim das contas, a diferença entre ter um prejuízo ou encontrar uma oportunidade de ouro dependerá de planejamento prévio e capacidade de trabalhar com diferentes cenários”, analisa Francisco D’Orto Neto.








