Mais da metade das PMEs tem capital de giro livre identificável pelo extrato

Levantamento da Celero indica que bancos podem estar deixando passar oportunidades e sinais de risco
A Celero, primeira infraestrutura de dados para pequenas e médias empresas (PMEs) da América Latina, analisou dados transacionais de cerca de 20 mil CNPJs, que somaram mais de R$ 300 bilhões em valor transacionado nos últimos seis meses. O levantamento identificou que mais da metade das empresas analisadas tinha recursos disponíveis para sustentar a operação e atender às necessidades financeiras de curto prazo, o chamado capital de giro livre positivo.
O dado pode ser identificado automaticamente a partir do extrato bancário, por meio da classificação das transações e do enriquecimento dos dados com informações de fontes externas, sem necessidade de análise manual ou solicitação adicional de documentos. Essa leitura mostra que parte relevante das pequenas e médias empresas já deixa, na própria movimentação bancária, informações claras sobre capacidade financeira, necessidade de crédito e momento adequado de oferta.
Além de identificar a disponibilidade de capital de giro, a análise de dados transacionais permite identificar a receita real da empresa, separando os valores recebidos pela venda de produtos ou prestação de serviços de outras entradas na conta. Sem enriquecimento e tratamento adequado, mais de 20% do volume bruto movimentado por uma PME pode ser apenas ruído.
Sem essa classificação, transferências entre contas da própria empresa, empréstimos recebidos, aportes societários e outras movimentações podem acabar sendo incluídos na apuração, embora não representem receita operacional. Na prática, uma análise baseada apenas no volume bruto movimentado pode superestimar a capacidade financeira da empresa e gerar decisões menos precisas de crédito, limite ou oferta de produtos.
Outro dado reforça a distância entre movimentação e saúde financeira. Em bases de dados da Celero, quase metade das PMEs opera com o saldo mediano abaixo de R$ 100. Isso indica que muitas empresas podem ter receita, atividade recorrente e movimentação relevante, mas, ainda assim, manter uma rotina financeira apertada, com pouca folga de caixa. Para bancos e instituições financeiras, essa leitura pode ser decisiva para identificar quando uma empresa realmente precisa de capital de giro.
Desafio
Na avaliação de João Betenheuzer, CRO e cofundador da Celero, o desafio não está apenas no acesso aos dados, mas na capacidade de interpretá-los corretamente. “A empresa muitas vezes mostra, no próprio extrato, se tem espaço para crédito, se precisa de capital de giro, se está acumulando caixa ou se vive no limite da operação. O ponto é que esses sinais nem sempre aparecem em uma leitura tradicional do relacionamento bancário”, afirma.
Segundo a Celero, a classificação e o enriquecimento dos dados do extrato podem reduzir a dependência de análises documentais em operações de crédito de até R$ 50 mil para micro e pequenas empresas (MPEs), oferecendo uma leitura mais precisa da movimentação financeira. Essa capacidade de identificar sinais na movimentação bancária também pode evitar perdas de receita para os bancos.
Em bases analisadas pela Celero, entre 2% e 5% da carteira PJ ativa já tomou crédito em fintechs ou neobanks no último semestre, movimento identificável pelo padrão de entrada de recursos no extrato. Para instituições financeiras, esse tipo de sinal pode indicar uma demanda por crédito que não foi atendida no momento certo, além de um risco de enfraquecimento da relação com o cliente empresarial.
Para Betenheuzer, esse é o ponto que deve redefinir a atuação dos bancos no segmento PJ.
“Não basta olhar faturamento bruto ou saldo médio. É preciso separar receita real de ruído, entender recorrência, comportamento de caixa e necessidade financeira. Essa leitura permite que o banco seja mais relevante para a PME e deixe de aparecer apenas no momento da execução da transação”, diz.
A Celero defende que a próxima etapa da transformação financeira para PMEs será marcada pela capacidade das instituições de converter dados transacionais em inteligência acionável. Mais do que oferecer produtos de forma genérica, bancos poderão antecipar necessidades, identificar empresas com potencial de crédito, reduzir assimetrias de informação e fortalecer o relacionamento com clientes empresariais.
Para as PMEs, isso significa uma relação financeira mais aderente à sua realidade operacional. Para os bancos, representa uma oportunidade de atuar de forma mais estratégica em um segmento que movimenta a economia, mas ainda é frequentemente analisado com informações incompletas.








