Paraguai vira destino estratégico para empresas brasileiras que buscam competitividade

Paraguai vira destino estratégico para empresas brasileiras que buscam competitividade

Energia mais barata, menor carga tributária e custos trabalhistas reduzidos estão levando companhias brasileiras a transferir parte da produção para o país vizinho

O Paraguai deixou de ser apenas um destino de compras para brasileiros e passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico no mapa industrial do Mercosul. Nos últimos anos, empresas brasileiras de diferentes setores têm instalado fábricas, centros de distribuição e operações no país vizinho, atraídas principalmente pela possibilidade de reduzir custos e ganhar competitividade.

O movimento tem como um dos principais motores o regime de maquila, criado pela Lei nº 1.064/1997. Atualmente, o Paraguai possui 339 empresas operando sob esse modelo, segundo dados da Câmara de Empresas Maquiladoras do Paraguai. Aproximadamente 70% do capital investido nas maquiladoras é brasileiro.

A dimensão do fenômeno também aparece nos números de comércio exterior. No primeiro semestre de 2026, as exportações paraguaias sob o regime de maquila chegaram a US$ 717 milhões, alta de 25% sobre o mesmo período de 2025. O Brasil foi o principal destino, absorvendo 62% dos produtos maquilados exportados pelo país no período.

Para Pedro Ayala, sócio-diretor da CPA Ferrere no Paraguai e Uruguai, empresa associada à Praxity, o principal fator que leva uma companhia brasileira a atravessar a fronteira é a competitividade.

“O empresário busca reduzir custos sem abrir mão da qualidade e da proximidade com o mercado brasileiro”, afirma Ayala.

Segundo ele, a combinação de energia elétrica competitiva, menor carga tributária, custos trabalhistas mais baixos e um regime de maquila voltado à exportação contribui diretamente para reduzir o chamado Custo Brasil.

Na avaliação de Wesley Figueira, sócio-diretor da VBR Brasil, também associada à Praxity, o Custo Brasil é decisivo, mas não explica sozinho o movimento.

“A energia barata joga um jogo importante, mas eu entendo que a simplicidade e facilidade de contratar e demitir no Paraguai são outro item importante”, destaca.

Ambiente de negócios pesa na decisão

Pedro Ayala, sócio diretor da CPA Ferrere.

Além da economia de custos, a simplicidade regulatória é apontada pelos especialistas como uma das principais vantagens paraguaias.

Ayala afirma que o ambiente de negócios do país é mais simples e previsível. Segundo ele, processos como abertura de empresas, registros e cumprimento de obrigações tributárias tendem a ser mais rápidos do que no Brasil.

No sistema tributário paraguaio, o Imposto de Renda Empresarial (IRE) tem alíquota de 10%, enquanto o IVA geral também é de 10%.

Já no Brasil, a carga tributária bruta chegou a 32,40% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional.

Para Figueira, entretanto, o ponto central é mais amplo do que a comparação de alíquotas.

“O ambiente de negócios aqui está se tornando ainda mais difícil, principalmente por conta de aspectos regulatórios severos, que impõem barreiras grandes. Clientes nossos, no Brasil, têm buscado o Paraguai não porque sejam malsucedidos aqui, mas porque têm a possibilidade de serem ainda mais bem-sucedidos lá”, afirma.

Maquila é um dos principais atrativos

Wesley Figueira, sócio diretor da Vbr Brasil.

O regime de maquila funciona como uma espécie de plataforma de produção voltada à exportação. A empresa pode importar máquinas, equipamentos, matérias-primas e insumos dentro das regras do programa, com suspensão de tributos aduaneiros.

O principal benefício tributário é o Tributo Único de 1%, calculado sobre o valor agregado nacional ou sobre o valor da fatura de exportação, conforme o que resultar maior. O regime também prevê outras exonerações e benefícios específicos.

“O principal é o Regime de Maquila. Ele permite que a empresa importe máquinas, equipamentos e matérias-primas sem o pagamento de tributos para produzir no Paraguai e exportar a produção”, explica Ayala.

O modelo também favorece a integração das cadeias produtivas entre os dois países. Em muitos casos, a empresa não abandona o Brasil: transfere uma etapa da produção para o Paraguai e mantém no país de origem áreas como administração, desenvolvimento de produtos, finanças, vendas e gestão.

Economia de até 40%

A diferença de custos pode ser significativa. Segundo Ayala, dependendo do setor e do modelo de operação, uma empresa pode alcançar uma economia de 20% a 40% nos custos de produção em comparação com o Brasil.

A vantagem vem de uma combinação de fatores: energia elétrica, tributação, encargos trabalhistas, burocracia e custos operacionais.

A energia é especialmente relevante para segmentos industriais de elevado consumo. Dados divulgados no Paraguai indicam que a tarifa média da energia elétrica no país é muito inferior à praticada no Brasil. Em comparação apresentada pela ANDE em junho, a tarifa paraguaia equivalia a aproximadamente 35% da tarifa média brasileira.

É uma vantagem diretamente relacionada à abundância de geração hidrelétrica, especialmente pela participação de Itaipu e Yacyretá.

Mão de obra: custo total é o diferencial

Outro fator considerado pelas empresas é o custo da contratação.

Embora o salário mínimo paraguaio não seja necessariamente inferior ao brasileiro quando convertido para reais, o custo total da mão de obra pode ser menor por causa da estrutura de encargos e regras trabalhistas.

Desde 1º de julho de 2026, o salário mínimo para atividades privadas não especificadas no Paraguai foi reajustado em 5% e passou para G. 3.044.000 mensais.

Ayala ressalta que a comparação precisa considerar não apenas o salário, mas o custo total da contratação.

“Mais importante do que o salário é o custo total da contratação. No Paraguai, os encargos trabalhistas e as contribuições patronais são menores, o que reduz significativamente o custo para as empresas e aumenta sua competitividade”, afirma o diretor da CPA Ferrere.

Oeste do Paraná está no centro do movimento

A proximidade geográfica transforma o Paraguai em uma alternativa particularmente interessante para empresas do Paraná.

O principal polo industrial está localizado no departamento de Alto Paraná, especialmente em Ciudad del Este, Minga Guazú e Hernandarias. Também existem empreendimentos em Villeta, na região metropolitana de Assunção, Pedro Juan Caballero e Encarnación.

A integração com o Oeste paranaense é especialmente forte. Foz do Iguaçu está separada de Ciudad del Este apenas pela Ponte da Amizade, enquanto a ligação entre os sistemas produtivos dos dois países cria uma cadeia regional que envolve indústria, logística, comércio e serviços.

Para Ayala, essa proximidade é um diferencial.

“Não há uma estatística oficial indicando quantas são especificamente do Paraná, mas, pela proximidade com a fronteira e pela forte integração econômica entre Foz do Iguaçu e Alto Paraná, estima-se que uma parcela importante dessas empresas tenha origem naquele estado.”

Entre os setores que mais utilizam o modelo estão autopeças, confecções, plásticos, metalurgia, alimentos, agroindústria e logística. Também vem crescendo a presença de empresas de tecnologia, centros de distribuição e prestadores de serviços.

Os dados mais recentes do governo paraguaio mostram que autopeças, confecções, alimentos e bebidas e manufaturas de alumínio estão entre os principais segmentos da indústria maquiladora.

Brasil está perdendo empresas?

A expansão paraguaia abre uma questão sensível para o Brasil: o país está perdendo investimentos ou as empresas estão apenas reorganizando suas operações?

Ayala considera que, na maioria dos casos, ocorre uma integração produtiva.

“Muitas empresas mantêm no Brasil a administração, o desenvolvimento de produtos, as áreas comercial e financeira, enquanto transferem parte da produção para o Paraguai para ganhar eficiência. No fim das contas, isso fortalece a competitividade da empresa brasileira no mercado internacional.”

Figueira, porém, adota uma visão mais preocupada.

“Concordo com a posição do Pedro, mas entendo que cada vez mais o Brasil corre o risco de desinvestimento para o Paraguai. O país cresce a taxas chinesas, simplifica a vida do empreendedor e está se tornando sinônimo de estabilidade de regras e contratos.”

Para o executivo, o movimento deveria ser observado com atenção pelas autoridades brasileiras.

“O que há para não gostar neste tipo de ambiente de negócios? Logo, logo, os efeitos serão sentidos de forma mais aguda”, afirma.

Há riscos na mudança

A transferência de uma operação para o Paraguai não elimina riscos. Questões jurídicas, cambiais e logísticas precisam entrar na conta antes da decisão.

Na área cambial, a oscilação entre real, guarani e dólar pode alterar custos e margens. Na logística, problemas de transporte, congestionamentos nas fronteiras e períodos de seca que afetam a navegação fluvial podem gerar impactos.

Ayala ressalta que o ambiente jurídico paraguaio avançou, mas ainda existem pontos a melhorar, especialmente na velocidade de alguns processos.

Figueira chama atenção também para a infraestrutura de ligação entre os dois países. Segundo ele, a logística fronteiriça ainda poderia ser mais eficiente, embora a tendência seja de melhoria com novos investimentos.

Um movimento que pode mudar o mapa industrial

O avanço das empresas brasileiras no Paraguai não deve ser analisado apenas como uma corrida em busca de impostos menores. Trata-se de uma transformação na forma como companhias do Mercosul organizam suas cadeias produtivas.

O Paraguai oferece uma combinação difícil de ignorar: energia abundante e competitiva, tributação mais simples, regime especial de maquila, menor custo de contratação e proximidade com um dos maiores mercados consumidores da América Latina.

O Brasil, por outro lado, continua sendo o principal mercado consumidor e fornecedor da região e mantém vantagens importantes em infraestrutura empresarial, mão de obra qualificada, tecnologia, crédito e escala.

A tendência, portanto, pode não ser de uma simples “fuga” de empresas brasileiras, mas de uma redistribuição das etapas de produção dentro do Mercosul.

O problema para o Brasil surge quando a busca por eficiência deixa de ser uma estratégia pontual de internacionalização e passa a representar uma escolha estrutural das empresas por ambientes considerados mais simples, previsíveis e competitivos.

Para empresários brasileiros, especialmente os instalados no Paraná, a fronteira com o Paraguai deixa de ser apenas uma divisa geográfica. Cada vez mais, ela representa uma alternativa concreta de localização industrial — e também um sinal de que o Custo Brasil pode estar influenciando decisões de investimento muito além do que mostram os números tradicionais de abertura e fechamento de empresas.

Crédito da foto de abertura: Imagem gerada por inteligência artificial pelo ChatGPT

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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