Principais players do setor de saúde apresentam bom desempenho financeiro

Resultados da Hapvida, Kora Saúde e Oncoclínicas causam estresse nos investidores
Os resultados do segundo trimestre de 2026 (2T26) dos principais players de saúde escancaram uma distância que só aumenta. De um lado, negócios protegidos da sinistralidade pura, a operação hospitalar da Rede D’Or, o diagnóstico do Fleury e a Mater Dei, seguem entregando expansão de margem trimestre após trimestre, quase em piloto automático. A Dasa caminha na mesma direção, só que em ritmo mais lento: o EBITDA salta 53% e o prejuízo encolhe bastante, mas ainda é prejuízo.
Do outro lado, o quadro é de estresse declarado. A Hapvida viu a rentabilidade praticamente zerar, e Kora Saúde e Oncoclínicas foram além: as duas entraram em recuperação extrajudicial neste ano, e os números do 2T26 explicam o motive, receita em queda ou sob pressão, margem em colapso e prejuízo cada vez maior.
Acompanhe o desempenho dos principais players:
Rede D’Or
Voltou a mostrar por que é a consolidadora natural do setor. A receita líquida cresceu 5,6% a/a, para R$ 14,9 bilhões, mas o EBITDA avançou em ritmo bem mais rápido, +18,2% a/a, para R$ 2,9 bilhões, levando a margem EBITDA a 19,5% (+2,1 p.p. a/a). Esse descolamento entre receita e rentabilidade é a assinatura de uma companhia ganhando escala nos dois negócios ao mesmo tempo, hospitalar e seguros. O lucro líquido ajustado somou R$ 1,283 bilhão (+8,5% a/a), sustentado pela maturação dos hospitais recém-inaugurados e pela melhora contínua da sinistralidade na SulAmérica. A alíquota efetiva de imposto tem pressionado o lucro acima do EBITDA, ponto que o mercado já monitora, mas que não muda a leitura estrutural de previsibilidade rara no setor.
Fleury
Foi o melhor trimestre do grupo, com o lucro líquido saltando 45,7% a/a, para R$ 221,9 milhões, bem acima do consenso. A receita líquida cresceu 14,4% a/a, para R$ 2,31 bilhões, puxada pelo crescimento orgânico de 12% no núcleo B2C e por aquisições recentes, como Confiance e LSL. A margem bruta expandiu 1,7 p.p., para 27,8%, e a margem EBITDA chegou a 26,5%, mostrando que a companhia dilui despesas de pessoal e tecnologia à medida que ganha volume, sem depender de reajuste de preço. O anúncio de R$ 217,8 milhões em juros sobre capital próprio reforça a leitura de caixa sobrando, com alavancagem de apenas 1,1x EBITDA. O contraponto é que a base de comparação do segundo semestre fica mais dura, então não é razoável esperar o mesmo ritmo de crescimento de receita.
Hapvida
Foi, de forma isolada, o resultado mais fraco do grupo, e o mercado reagiu de acordo, com a ação caindo mais de 17% no dia da divulgação. O lucro líquido ajustado despencou 95,8% a/a, para apenas R$ 12,5 milhões, enquanto o EBITDA ajustado recuou 44,3%, para R$ 504,4 milhões, margem de 6,3%. A receita líquida cresceu 3,9% a/a, para R$ 8,0 bilhões, mas isso não bastou para compensar a sinistralidade caixa de 75,2% (+1,3 p.p. a/a), que voltou a comer a rentabilidade da operação de saúde. A companhia perdeu 16 mil beneficiários líquidos, agora com 8,67 milhões de vidas, e a alavancagem mais que dobrou em um ano, de 0,95x para 1,61x EBITDA. O ponto mais valorizado pelos analistas foi o anúncio de reajustar ou cancelar contratos de 947 mil vidas deficitárias, cerca de 11% da base, sinal de que crescer a qualquer custo deixou de fazer sentido, ainda que o benefício deva demorar a aparecer nos números.
Mater Dei
Confirmou a recuperação que vinha construindo desde o início do ano, com o lucro líquido ajustado subindo 66% a/a, para R$ 45 milhões, e o EBITDA ajustado avançando 20% a/a, para R$ 139 milhões, margem de 22,6%. A receita líquida cresceu 12,4% a/a, para R$ 614 milhões, sustentada por uma taxa de ocupação de 83,9%, patamar historicamente elevado, com 87,7 mil pacientes-dia no trimestre. Diferente da Hapvida, a Mater Dei se beneficia de estar do lado hospitalar puro da equação, sem exposição a seguros, o que a protege do ciclo de reajuste das operadoras. A companhia também reduziu a dívida líquida para R$ 763 milhões, com alavancagem caindo de 1,6x para 1,5x EBITDA, e pré-pagou uma debênture de R$ 200 milhões em julho, sinal de que a geração de caixa já permite antecipar desalavancagem.
Dasa
A companhia colhe os primeiros frutos de um ano de reestruturação. Em base comparável, o EBITDA consolidado saltou 53% a/a, para R$446 milhões, margem de 20,1% — avanço de quase 6 p.p. A receita líquida cresceu 8%, para cerca de R$2,2 bilhões, puxada pelo core de diagnósticos (+9,2%), que processou 119,7 milhões de exames no trimestre. A margem bruta ficou praticamente estável em 27,9%, reflexo de uma escolha deliberada: crescer via B2B e modernizar os núcleos técnico-operacionais pressiona a margem agora, mas a empresa aposta que o ganho aparece à frente, em eficiência e alavancagem. Do lado do resultado final, o prejuízo das operações continuadas caiu para R$34,9 milhões, ante R$173,2 milhões um ano antes — ainda no vermelho, mas a trajetória é a que os investidores queriam ver. A geração de caixa livre de R$292 milhões, revertendo o consumo de caixa do 2T25, e a queda da alavancagem para 2,91x reforçam a leitura de turnaround em curso, ainda que incompleto.
Kora Saúde
Cresce receita, mas perde dinheiro em ritmo acelerado, o retrato de uma companhia pagando a conta de anos de expansão via aquisição. A receita líquida avançou 5,8% a/a, para R$636,7 milhões, mas o EBITDA ajustado recuou 21,4%, para R$113,9 milhões, com a margem caindo de 24,1% para 17,9%. O prejuízo líquido ajustado quase triplicou, para R$128,2 milhões, ante R$46,1 milhões um ano antes. A companhia protocolou recuperação extrajudicial em abril, mas fez questão de isolar o problema: a reestruturação mira o passivo não operacional — dívida de expansão —, enquanto médicos, fornecedores e colaboradores seguem recebendo em dia. É uma tentativa de comprar tempo para equacionar a estrutura de capital sem comprometer a operação diária dos 17 hospitais da rede.
Oncoclínicas
O pior trimestre da amostra, e não é por pouco. A receita líquida caiu 28,5% a/a, para R$1,05 bilhão, pressionada pela crise de fornecimento de medicamentos iniciada em março, que derrubou o volume de tratamentos. O lucro bruto despencou 48%, para R$229 milhões, e o EBITDA ajustado, que já vinha caindo havia trimestres, ficou perto de zero, em R$34,3 milhões, margem de 3,3%. O prejuízo líquido mais que triplicou, para R$475,7 milhões. Em julho, a companhia formalizou pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$5,1 bilhões em dívidas financeiras, com a Justiça de São Paulo já aprovando o processamento e suspendendo cobranças por 180 dias. A escolha central do plano é isolar o problema financeiro da operação assistencial: fornecedores, médicos e operadoras de saúde continuam sendo pagos normalmente, o que sugere uma tentativa de preservar o negócio enquanto se renegocia o passivo. Ainda assim, a ação subiu na reação ao resultado, sinal de que o mercado já vinha precificando um cenário ainda pior.
Para onde o setor caminha?
•Fim da era de crescer beneficiários a qualquer custo. O movimento da Hapvida de reajustar ou cancelar contratos deficitários é o sinal mais claro do trimestre: depois de anos de consolidação via aquisição de base, as operadoras priorizam rentabilidade por vida sobre volume.
•Hospitalar puro versus seguros/saúde suplementar: a diferença fica mais nítida nos resultados. Rede D’Or e Mater Dei, protegidas do lado da sinistralidade pura, entregaram expansão de margem consistente, enquanto a Hapvida viu a rentabilidade praticamente zerar.
•Diagnóstico como motor de crescimento orgânico. O desempenho do Fleury reforça que a medicina diagnóstica, menos dependente de reajuste regulatório e mais sensível a escala e mix, é um dos poucos lugares do setor em que crescer receita e margem juntos ainda é rotina.
•A reestruturação financeira virou fato consumado, não risco. Kora Saúde e Oncoclínicas entraram em recuperação extrajudicial nos últimos meses, ambas isolando dívida financeira das obrigações operacionais — um manual que deve se tornar referência para outros hospitalares alavancados caso a pressão de custos não ceda.
•Turnaround em diagnóstico custa margem no curto prazo. A Dasa mostra que crescer em B2B e modernizar a rede pressiona a margem bruta agora — o mesmo trade-off que o setor deve repetir enquanto reconstrói rentabilidade sobre bases mais eficientes.
Resultados financeiros 2T26 dos principais players do setor de Saúde (Hospitais) (em R$ milhões)
Resultados operacionais 2T26 dos principais players do setor de Saúde (Hospitais)








