Europa movimenta reservas de ouro e reacende debate sobre dependência dos EUA

Europa movimenta reservas de ouro e reacende debate sobre dependência dos EUA

Holanda transfere cerca de 86 toneladas, França muda custódia de parte de suas reservas e movimentos reacendem discussão sobre segurança financeira, geopolítica e o papel do dólar

Devido ao aumento das tensões geopolíticas, bancos centrais estão revendo não apenas quanto ouro mantêm em suas reservas, mas também onde esse patrimônio estratégico deve ficar armazenado. Movimentos recentes de países europeus reacenderam uma discussão que envolve segurança financeira, acesso às reservas em situações de crise e a dependência do sistema financeiro dos Estados Unidos.

Daniel Toledo, advogado especializado em Direito Internacional, professor da Universidade Oxford, no Reino Unido, e fundador da Toledo e Advogados Associados, o que está acontecendo com as reservas europeias merece atenção porque ultrapassa a simples movimentação de barras de ouro entre países.

“Durante décadas, manter reservas nos Estados Unidos representava segurança, liquidez e acesso rápido ao principal sistema financeiro do mundo. Quando bancos centrais começam a rever onde querem manter esses ativos, a discussão passa também pela confiança, pela autonomia e pela estratégia geopolítica”, explica.

No início de setembro, o banco central da Holanda, De Nederlandsche Bank (DNB), anunciou uma reorganização de aproximadamente 86 toneladas de ouro, mantidas nos Estados Unidos e no Canadá, em uma operação realizada entre março e agosto de 2026. Segundo a instituição, a medida teve como objetivo melhorar a liquidez das reservas e ampliar a capacidade de resposta em situações de crise diante do aumento das incertezas geopolíticas.

A operação não significou simplesmente transportar 86 toneladas de barras de ouro através do Atlântico. De acordo com o World Gold Council, cerca de 59 toneladas foram vendidas em Nova York e substituídas por ouro negociável internacionalmente em Londres. Mais de 27 toneladas foram transportadas fisicamente da América do Norte para a Holanda, enquanto volume semelhante seguiu da Holanda para Londres.

Com a reorganização, Londres passou a concentrar 32,1% das reservas holandesas, ante 18,1% anteriormente. Nova York e Ottawa ficaram com 18,5% cada. Ao todo, o banco central holandês possui aproximadamente 612 toneladas de ouro.

A França também realizou uma operação relevante. Em 2025, o Banque de France vendeu 129 toneladas de ouro que estavam armazenadas em Nova York, equivalentes a cerca de 5% de suas reservas, e adquiriu quantidade equivalente do metal na Europa.

Oficialmente, a instituição explicou que as barras mantidas nos Estados Unidos não atendiam ao padrão internacional que pretendia adotar e que a venda seguida da recompra seria mais eficiente do que transportar e reformular fisicamente o metal. A operação não alterou o volume total das reservas francesas, de aproximadamente 2.437 toneladas de ouro.

Ouro ganha espaço nas estratégias dos bancos centrais

Os movimentos europeus ocorrem em um momento de valorização estratégica do ouro. Pesquisa do World Gold Council divulgada em 2026 aponta que os bancos centrais acumularam, em média, cerca de 1.000 toneladas de ouro por ano nos últimos quatro anos, aproximadamente o dobro da média anual observada na década anterior.

Entre os gestores de reservas entrevistados, 89% esperam que as reservas globais de ouro dos bancos centrais aumentem nos próximos 12 meses, enquanto 45% afirmaram que suas próprias instituições pretendem ampliar suas posições no metal.

A localização dessas reservas também passou a receber mais atenção. Bancos centrais começam a avaliar não apenas o volume de ouro sob seu controle, mas a jurisdição onde o ativo está armazenado e a facilidade de acesso em eventuais períodos de instabilidade política, diplomática ou financeira.

“Em um ambiente internacional mais fragmentado, os governos começam a avaliar não apenas quanto possuem, mas onde está esse patrimônio e quão rapidamente conseguiriam acessá-lo diante de uma crise política, financeira ou diplomática”, afirma o advogado.

Movimento representa uma fuga do dólar?

Apesar das mudanças recentes, os números ainda não indicam uma substituição rápida do dólar como principal moeda de reserva internacional.

Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que o dólar representava 57,13% das reservas cambiais globais no primeiro trimestre de 2026, enquanto o euro respondia por 20,03% e o renminbi chinês por 1,99%.

O Federal Reserve também chamou atenção para a necessidade de contextualizar a crescente participação do ouro nas reservas internacionais. Parte do aumento do valor dessas reservas está relacionada à forte valorização do próprio metal, e não exclusivamente à aquisição de novas toneladas pelos bancos centrais.

A Alemanha é outro exemplo de que não existe um movimento uniforme de retirada do ouro dos Estados Unidos. O país já repatriou parte relevante de suas reservas ao longo dos últimos anos e mantém aproximadamente metade do metal em Frankfurt, mas ainda possuía 1.236 toneladas armazenadas no Federal Reserve Bank de Nova York ao final de 2025, além de aproximadamente 404 toneladas em Londres.

Na avaliação do especialista, o cenário deve ser interpretado principalmente como uma tentativa de diversificação de risco, e não como um abandono imediato do sistema financeiro americano.

“Não estamos falando do desaparecimento do dólar como moeda de referência mundial. Os números ainda mostram uma predominância muito grande da moeda americana. O que estamos vendo é algo mais gradual: países procurando reduzir vulnerabilidades e distribuir seus ativos entre diferentes moedas, mercados e jurisdições”, explica Toledo.

Essa tendência também aparece na pesquisa do World Gold Council. Setenta e quatro por cento dos bancos centrais entrevistados esperam uma participação menor do dólar nas reservas globais nos próximos cinco anos, enquanto 83% acreditam que a participação do ouro deverá aumentar.

Para o advogado, essa combinação demonstra como decisões que antes poderiam ser tratadas exclusivamente como financeiras passaram a incorporar fatores geopolíticos. “O ouro sempre foi visto como reserva de segurança. O que mudou é o contexto. Quando bancos centrais começam a reconsiderar simultaneamente onde armazenam ouro, quais moedas carregam e a quais jurisdições querem estar expostos, a geopolítica passa a fazer parte diretamente das decisões financeiras. É um movimento que precisa ser acompanhado porque pode influenciar a arquitetura das reservas internacionais nos próximos anos”, conclui.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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