Debilidade do ensino e desvalorização dos professores no Brasil

Debilidade do ensino e desvalorização dos professores no Brasil
Gilmar Mendes Lourenço.

As merecidas celebrações do “dia do professor” remetem à premência de feitura de algumas importantes reflexões acerca da missão formadora e transformadora desse ator social, costumeiramente subavaliado, de forma aberta ou velada, tanto pelos dirigentes públicos quando pela sociedade civil organizada.

O esforço dos mestres é colocado em xeque em estágios de enfraquecimento das instituições democráticas mundo afora, produzido por mecanismos convencionais, reforçados pelo emprego enviesado das fontes de conteúdos também distorcidos, supridas por meios digitais.

Em clima de acirramento da patologia da polarização ideológica, que sufoca o surgimento e consolidação de alternativas políticas moderadas, e, no varejo, a invasão de escolas por adolescentes empenhados na destruição dos estoques de alimentos destinados à merenda dos alunos, soa legítima a indagação docente do tipo “aonde foi que eu errei?”

Antes de mais nada, é interessante frisar que a desconcertante performance dos estudantes dos mais relevantes países do planeta (91 ao todo) no PISA, exame aplicado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – bloco de 38 estados avançados e emergentes -, desde o ano de 2000, junto aos jovens matriculados no ensino médio, permanece como apreciável elemento de inquietação de planejadores dos diferentes espaços geográficos.

A aferição, efetuada pela entidade a cada três anos, carrega o objetivo fundamental de estabelecimento de comparabilidade global dos quesitos relativos à qualidade e intensidade do aprendizado conquistado pelos alunos nas disciplinas de matemática, leitura e ciências.

Depois de declinar substancialmente entre 2019 e 2022, em razão dos múltiplos desdobramentos negativos da pandemia de Covid-19, em 2020 e 2021, os resultados gerais expressaram estagnação, em 2025, imputada à dobradinha formada por dificuldades de concentração das turmas e de controle disciplinar das mesmas pelos docentes.

Em um intervalo de tempo mais prolongado, abarcando o decênio entre 2015 e 2025, facilitador da captura de influências de natureza estrutural, o conceito aferido em matemática recuou 22 pontos (de 485 para 463), o que corresponde a um ano a menos de ensino.

A nota em leitura caiu 28 pontos (de 489 para 461), ao passo que a de ciências permaneceu no mesmo patamar (482), para as nações da OCDE, o que comprova a interferência quase que desprezível, no processo de aprendizagem, assumida pelo glamour dos recursos digitais e pela possibilidade de emprego da inteligência artificial na elaboração das tarefas escolares e as dificuldades da transferência do conhecimento do smartphone para o cérebro.

Por esse prisma, não constitui qualquer surpresa a percepção de multiplicação da insuficiência de habilidades dos discentes na apreciação da enorme massa de informações acessada nos modernos e diferentes meios de produção e disseminação de narrativas.

O mais grave é o enorme vazio de critérios de verificação e julgamento da credibilidade das fontes e aderência dos conteúdos, apropriados às evidências determinadas pelo aparato científico, o que, no limite, configura barreira intransponível à distinção entre fato e opinião.

Tal anomalia, decorrente de menos leitura e mais pressa, representa terreno fértil ao apoio precipitado e majoritário no senso comum e, em consequência, à submissão à enxurrada de notícias e desinformação, preponderantes nas inúmeras frentes das mídias digitais.

Os algoritmos são gerados almejando a transformação dos estudantes em verdadeiros analfabetos funcionais, disfarçados de intelectuais rasteiros de generalidades, na crença de dotação de poderes para o derrame de bobagens a respeito de todos os assuntos.

Se o quadro internacional não se revela animador, a média geral brasileira continua parada há uma década, o que traduz a emergência e rápida consolidação da universalização e a ampliação da cobertura educacional, em paralelo à manutenção ou até aprofundamentos de atrasos em qualidade, o que é extremamente dramático para um país caracterizado por crônica e profunda desigualdade social.

De fato, nos campos do conhecimento considerados essenciais ao ambiente subjacente às revoluções tecnológicas, constatou-se, no intervalo compreendido entre 2015 e 2025, acréscimo da média de 407 pontos para 408 pontos, em leitura, de 401 para 409, em ciências, e estabilização em 377, em matemática. Na prova referente à solução de problemas amparada em ferramentas de computação, o Brasil assinalou média de 406 pontos versus 483 da OCDE.

Com isso, o país situou-se em 52º lugar, em leitura, 57º lugar, em matemática, 67º em ciências, e 69º em computação, no painel das 91 nações observadas pela organização.

Em matemática, o Brasil registrou comportamento médio 8,6% inferior ao da OCDE, sendo que 72% dos 30 mil estudantes brasileiros avaliados não alcançaram o degrau categorizado como minimamente básico, uma espécie de piso de conhecimento, versus 35% da entidade.

Mais especificamente, apenas 28% dos discentes brasileiros demonstraram aptidão para fazer, sem orientações prévias, cálculos elementares como a distância entre dois percursos opcionais ou a conversão de valores para um padrão monetário distinto do real. A média da OCDE é de 65%.

Mais do que isso, a proporção de adolescentes da nação que alcançaram desempenho máximo (scores 5 e 6 de proficiência) em matemática é praticamente zero, contra 8% na OCDE, 37%, de Cingapura, 32%, de Taiwan, 23%, da Coreia do Sul e 22%, do Japão.

Em sentido somente menos dramático, 51% dos estudantes brasileiros não atingiram o patamar básico em leitura (31% da OCDE) – o que reproduz habilidades insuficientes para entendimento e pensamento crítico dos textos oferecidos -, e 52%, em ciências (29%, OCDE).

Nessas circunstâncias, convém reter a inquestionável correlação direta entre ensino, aprendizagem, geração de renda e mobilidade social, absolutamente crucial a aproximação, encaixe e permanência no círculo virtuoso de desenvolvimento sustentado.

A identificação dessa interdependência sugere lastimar a obsequiosa omissão ou o lançamento de uma nuvem de fumaça sobre assunto tão complexo, chave para a construção do futuro, por parte dos postulantes mais destacados à ocupação das cadeiras de presidente da república e governadores estaduais, na campanha de primeiro turno das eleições de outubro de 2026.

Os favoritos, deliberadamente, negligenciaram o papel de transformação social da educação e, o que é pior, optaram pelo entrincheiramento nos movimentos de afeição e rejeição dos eleitores, que, capturados pelas repercussões dos múltiplos escândalos, envolvendo todos, negligenciaram propensões racionais.

A posição passiva da população pode ser verificada pela anotação da educação somente em quinto lugar, entre as mazelas nacionais, com 7% de citações (estimuladas e únicas), atrás de corrupção (18%), segurança (17%), saúde (14%) e política (9%), segundo pesquisa do BTG/Exus.

O Brasil destina à educação montantes comparáveis aos das nações ricas, correspondendo a 4,4% do PIB, acima da média de 3,9% do PIB, da OCDE, nível análogo ao da França e superior ao contabilizado pelo Chile.

Contudo, o país aplica US$ 4,3 mil por aluno/ano – da educação fundamental até a superior pública -, pelo critério de paridade de poder de compra (PPP), o que representa 32,6% da OCDE (US$ 13,2 mil), suplantando apenas Colômbia (US$ 3,4 mil) e Peru (U$ 1,8 mil), em um conjunto de 44 nações com dados disponíveis.

Por tudo isso, urge discutir, organizar e edificar vetores contemporâneos e umbilicalmente integrados de educação cidadã e emancipadora, dirigidos à valorização do raciocínio matemático e a maximização da densidade de leitores dotados de proficiência.

Inevitavelmente, debates maduros com a sociedade civil conduzirão à promoção do rápido sepultamento de métodos comprovadamente arcaicos e retirada precoce de supostos aprimoramentos, vendidos como a “cereja do bolo” ou a derradeira fronteira do conhecimento, focados prioritariamente na padronização dos lócus de aprendizagem e supressão dos laços diretos na comunicação entre professores e alunos, mediados por plataformas.

Não é difícil comprovar que essa disfunção moderna enrijece os conteúdos programáticos das matérias, desvinculando-os das peculiaridades regionais, e desqualifica o campo de ação dos docentes, normalmente orientados, ou melhor, fiscalizados, por agentes públicos alheios ao intrincado contexto das salas de aula (físicas ou virtuais).

Parece inescapável também o fortalecimento de abordagens educacionais suficientemente abrangentes que englobem substanciais montantes de investimentos na base, e perene formação, capacitação e valorização salarial de profissionais do magistério e gestores, acompanhadas de criteriosa fixação e monitoramento de metas e avaliações.

A propósito do desprezo oficial com a classe de educadores, tanto no provimento de condições dignas de trabalho quando de oferta de remuneração compatível com a complexidade, responsabilidade e especificidade da profissão, convém reconhecer que essa lacuna consubstancia um problema em escala mundial potencializado em terras brasileiras.

Se, em duas em cada cinco nações do planeta, os docentes recebem salários inferiores à média dos demais trabalhadores com formação equivalente, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura (Unesco), no Brasil, o Índice de Direito à Educação (RTEI) estima remuneração dos professores próxima de 80% dos proventos recebidos pela média das demais categorias com diploma de terceiro grau.

Logo, urge tornar factíveis intervenções contínuas e multissetoriais que assegurem a disseminação do ensino em regime integral, mais leve e descentralizado, que possam vir gradativamente a suprimir a excessiva concentração de poder decisório nas mãos dos seculares burocratas da política.

Até porque, em sua maioria despreparados e/ou distantes da complicada realidade diária da educação, os “quase monopolistas senhores das escolhas” são facilmente tragados pela lógica equivocada do modelo salvacionista de engessamento pedagógico.

Inexoravelmente, o comodismo da rendição aos esquemas redentores sacrifica o verdadeiro “direito autoral”, espelhado na preparação de aulas e provas pelos docentes, e desestimula a frequência, perseverança e aprendizado escolar dos estudantes.

Essas incongruências remetem à necessidade premente de criação de requisitos ambientais imprescindíveis à multiplicação da quantidade de professores envolvidos direta e indiretamente na ocupação de postos e funções de liderança no terreno educacional.

Apenas a título de ilustração, o Censo Escolar de 2023 apontou que 76,5% dos discentes cumpriam tempo parcial em até cinco dias por semana, enquanto 36% dos professores trabalhavam em ao menos dois estabelecimentos escolares, em sua maioria em regime entre 20 e 30 horas, o que evidencia a necessidade de renda adicional. Mais gritante, desse painel nada menos que 37% possuem contratos temporários versus menos de 20% da OCDE.

Não por acaso, o documento “Education at a Glance”, também da OCDE, revela que 77,7% e 55,7% dos professores atuantes no Brasil encontram-se decepcionados com remuneração e volume de trabalho, respectivamente, contra 61,3% e 31,6%, respectivamente, na entidade mundial, e a taxa de evasão de educadores considerados plenamente qualificados é de 10,3%, no Brasil, versus 6,4%, na organização.

O Brasil surge no 36º posto, em uma lista de 38 estados, em entusiasmo dos docentes, com somente 44% da amostra de entrevistados declarar satisfação geral com a atividade profissional e apenas 22% expressa contentamento quando a indagação é a respeito de salários.

Afigura-se vital igualmente a estruturação e desencadeamento de iniciativas direcionadas ao fortalecimento das condições de segurança pública em áreas que sediam estabelecimentos de ensino ameaçadas e/ou controladas pelo crime organizado, abarcando a operação do tráfico de qualquer natureza e das milícias.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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