Dólar cai 4,98% em dois dias e fecha nesta terça-feira a R$ 4,96

Oscilação cambial mostra como expectativas políticas podem afetar custos, receitas e margens de empresas que operam no exterior
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais provocou uma forte reação no mercado financeiro. O dólar depois de cair mais de 4% na última segunda-feira (5), voltou a apresentar queda nesta terça-feira (6), sendo cotado a R$ 4,98, uma redução de 0,4% em relação ao dia anterior. Nos últimos dois dias, os preços do dólar comercial caíram 4,98%. A movimentação refletiu uma reavaliação das expectativas dos investidores diante da possibilidade de mudança na condução econômica do país.
Para Murillo Oliveira, profissional do mercado financeiro e Head of Treasury da Saygo Group, holding brasileira especializada em comércio exterior, câmbio e tecnologia para operações internacionais, o comportamento da moeda mostra como acontecimentos políticos podem alterar rapidamente a percepção de risco e o fluxo de capital.
“O primeiro movimento foi uma reprecificação das expectativas. O mercado passou a considerar com mais peso a possibilidade de uma mudança de governo e, com isso, começou a fazer contas sobre política fiscal, gastos públicos, juros e composição da equipe econômica. Isso ajuda a explicar a intensidade da reação, mas não determina sozinho o caminho do dólar daqui para frente”, afirma.
Para as empresas a discussão vai além do comportamento diário dos ativos, a oscilação do dólar interfere diretamente nos custos de importação, no valor das receitas obtidas no exterior, na formação de preços e na rentabilidade de contratos internacionais.
“Quem importa ou exporta não pode olhar para a eleição apenas tentando descobrir se o dólar vai subir ou cair. A pergunta mais importante é quanto da operação está exposta à moeda e qual impacto uma mudança brusca pode provocar no resultado. A partir daí, a empresa consegue definir se precisa antecipar uma operação, proteger determinada cotação ou distribuir essa exposição ao longo do tempo”, explica Murillo.
Como o mercado pode reagir a uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro
Se Flávio Bolsonaro vencer o segundo turno, a reação inicial dos ativos brasileiros deverá depender menos do resultado isolado das urnas e mais dos primeiros sinais sobre a condução econômica. Política fiscal, composição da equipe econômica, relação com o Congresso e capacidade de controlar a trajetória da dívida pública estão entre os principais fatores observados pelos investidores.
O movimento após o primeiro turno já mostrou como essa expectativa pode chegar rapidamente ao câmbio..
Para Murillo, uma eventual vitória abriria uma segunda etapa de avaliação por parte dos investidores. “O resultado da eleição pode produzir uma reação imediata, mas depois o mercado vai querer saber quem conduzirá a economia, quais medidas fiscais serão apresentadas e se existe capacidade política para executá-las. Se essas respostas forem percebidas como favoráveis à estabilidade das contas públicas, o real pode continuar encontrando suporte. Se surgirem dúvidas, parte do movimento pode ser devolvida.”
Essa diferença tem efeito direto sobre o comércio exterior. Uma continuidade da valorização do real tende a reduzir custos de empresas com obrigações em dólar, enquanto pode diminuir a conversão em reais das receitas de exportadores. Uma reversão das expectativas produziria o efeito contrário.
Queda favorece custos de importação
Para importadores, a valorização do real reduz o valor necessário em moeda brasileira para cumprir compromissos denominados em dólar. Pagamentos a fornecedores estrangeiros, aquisição de insumos, equipamentos e outros componentes da operação podem ficar menos onerosos quando a cotação recua.
A própria queda registrada após o primeiro turno reacendeu a discussão sobre o momento adequado para fechar operações cambiais. Segundo Murillo, a decisão precisa estar conectada ao planejamento financeiro da companhia, e não apenas à tentativa de acertar o menor valor da moeda.
“Uma cotação mais baixa pode representar uma oportunidade para quem já possui uma obrigação definida, mas isso não significa que toda a exposição deva ser fechada em um único momento. A empresa precisa considerar prazo, fluxo de caixa, margem e capacidade de absorver uma eventual reversão do câmbio”, afirma.
A estratégia também depende do setor, dos prazos negociados e da possibilidade de repassar oscilações ao preço final. Operações com margens menores tendem a ser mais sensíveis a movimentos bruscos da moeda. Instrumentos de proteção, fechamento antecipado de parte das obrigações e divisão das contratações em diferentes momentos estão entre as alternativas para reduzir essa exposição.
Exportadores fazem conta inversa
Entre exportadores, o movimento pode produzir efeito contrário, já que empresas que recebem em dólar passam a obter menos reais pela mesma receita externa quando a moeda americana perde valor, o que pode pressionar margens dependendo da estrutura de custos e da política de preços adotada.
Nesse caso, proteção cambial e planejamento dos recebimentos ganham peso. “O exportador também precisa saber quanto da receita está protegido e em qual cotação sua margem continua saudável. Quando isso só é analisado depois de uma queda forte da moeda, a companhia já está reagindo ao mercado, em vez de administrar previamente o risco”, diz Oliveira.
O comportamento do câmbio nas próximas semanas deve continuar sensível às informações apresentadas pelos dois candidatos. Propostas fiscais, indicações para a equipe econômica, relação com o Congresso e sinalizações sobre gastos públicos podem alterar novamente as expectativas dos investidores.
Ao mesmo tempo, fatores externos permanecem relevantes. Juros nos Estados Unidos, força global do dólar, conflitos geopolíticos, fluxo internacional de capital e mudanças na percepção de risco também interferem na cotação da moeda brasileira.
Vitória não garante direção do dólar
Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno não permite concluir antecipadamente que a moeda americana continuará recuando. A reação dependerá do conteúdo das propostas econômicas, da percepção sobre sua viabilidade e das condições internacionais no momento da eleição.
“O empresário teria de acertar quem vencerá, como o mercado interpretará as primeiras decisões do novo governo e o que estará acontecendo no exterior naquele momento. São muitas variáveis. A gestão cambial existe justamente para que a margem da empresa não dependa dessa combinação”, afirma Murillo.
Para ele, o principal aprendizado do primeiro turno é a velocidade com que expectativas políticas podem chegar ao caixa das empresas. “O câmbio reage antes que muitas decisões sejam efetivamente tomadas. Por isso, empresas que operam internacionalmente precisam trabalhar com proteção, planejamento e previsibilidade. Eleição pode ser um gatilho de volatilidade, mas não deveria ser o ponto de partida da estratégia financeira”, conclui.








