E agora Brasil?

Gilmar Mendes Lourenço.
O título do presente artigo resume o fio condutor de uma palestra que tive o privilégio de proferir, em 27 de outubro de 2026, aos docentes organizadores e estudantes participantes da Semana Acadêmica promovida pela Business & Marketing School ESIC.
Gratidão às professoras Andrea Barbosa Delfini Paulo, Heloisa de Puppi e Silva e Maria Alice Claro pela oportunidade e acolhida e cumprimentos pela ousadia em oferecer aos professores e alunos a possibilidade de discussão de um assunto tão espinhoso, instigante e controverso.
Em sendo considerado encerrado o tumultuado evento eleitoral de disputa da presidência da república no Brasil, neste outubro de 2026, com enorme participação das ruas e das redes sociais, caberá ao vencedor, baseada na preferência de não substituição do “certo pelo duvidoso”, o mandatário Lula, para começo de conversa, a provocação na direção da preparação de uma ampla costura política.
Isso porque, vale supor a supressão das chances de montagem ou tentativa de viabilização de um terceiro turno, semelhante ao triste episódio de oito de janeiro de 2023, em virtude da súbita fuga do guerreiro derrotado dentro das “quatro linhas” da democracia, uma espécie de “herói do pau oco”, o que deixou apreciável vácuo de liderança nas correntes de oposição e flagrante fissura na extrema direita.
As ações propositivas revelam-se particularmente importantes para a produção de iniciativas voltadas à neutralização dos movimentos de precificação, meramente especulativos – como os protagonizados pelos mercados de risco nos três primeiros dias depois do pleito -, de modo a apaziguar ânimos freneticamente exaltados e afastar, pela quarta vez em duas décadas e meia, o famoso “risco Lula”.
Há poucas dúvidas quando a inexorabilidade de viabilização do pagamento da vultosa fatura da gastança, que foi substancialmente alargada, neste ano, com transbordamento para a contabilidade de 2027, representando um rombo estimado em R$ 290 bilhões, que carece de tratativas maduras com o Congresso Nacional, majoritariamente de oposição e mais hostil, no ano que vem.
O arranjo deverá ser orientado por objetivos de desmonte da armadilha fiscal, sem assumir conotações de estelionato eleitoral, dado que as iniciativas e promessas envolveram valores consideráveis, sobressaindo a diminuição transitória do fardo de impostos sobre combustíveis, o perdão das dívidas de microempreendedores individuais, com elevação do teto de faturamento e repasse de pix de até R$ 5 mil, a incorporação de estudantes universitários no Programa Pé-de-Meia, o reajuste do Bolsa Família, dentre outras benesses.
O nó górdio é que essa complexa tarefa de arrumação da casa deverá ser executada em ambiente de flagrante desaceleração da velocidade de expansão da economia nacional, delineada desde 2025, por conta da interferência de problemas globais e domésticos, atestada pelos principais indicadores dos níveis de atividade.
Entre as influências exógenas ressalta o menor dinamismo da economia e do comércio internacional, ocasionado pelo retorno ampliado do protecionismo comercial e a negação do multilateralismo, sob os auspícios do chefe de estado norte-americano, Donald Trump, em sua segunda estadia na Casa Branca; por embates pela hegemonia geopolítica, travados entre China e Rússia contra o rival Estados Unidos (EUA); e pelas consequências da multiplicação de conflitos bélicos, que o saudoso Papa Francisco chamava de terceira guerra mundial fragmentada, em especial aqueles desencadeados ou patrocinadas pelo autocrata do norte.
No plano doméstico, não bastassem as interferências da incontestável fragilização institucional sobre a operação da constelação de firmas, predomina a violenta pancada desferida pela prática dos maiores juros reais do planeta – desde a base (Selic) até a ponta (giro, consumo e investimento) -, culminando em patamares de endividamento e inadimplência de famílias e empresas absolutamente sem precedentes na vida nacional, que devem ser os maiores responsáveis pelo enfraquecimento do ciclo de negócios, em 2027.
Em um diagnóstico parcial, a cobrança de juros estratosféricos é imputada à premência de controle dos focos inflacionários derivados da super frouxidão fiscal, destinada prioritariamente à cobertura do populismo distributivo aplicado pelo executivo de plantão, de natureza essencialmente progressista, e, por extensão, a escalada da dívida pública.
Porém, emergem correntes de interpretação que atribuem a pronunciada cunha financeira incidente sobre o cotidiano dos agentes econômicos e sociais à estrutura de mercado oligopolizada, predominante no sistema bancário (cinco instituições, duas públicas e três privadas, controlam mais de 80% dos montantes transacionados), encarregada precipuamente de garantir ganhos astronômicos aos hóspedes da ciranda financeira, assentada na rolagem do passivo governamental, constituído por títulos recompráveis pelo Tesouro Nacional.
Por tudo isso, depois de crescer 2,5%, em 2025, o índice de atividade econômica do Banco Central (IBC-Br), prévia do comportamento do produto interno bruto (PIB), exibiu elevação de 1,6%, no acumulado entre janeiro e agosto de 2026, puxado por agropecuária (2,3%) e serviços (2,0%), sendo que a indústria variou apenas 0,6%.
Após ascender 3,1% em 2024, a produção industrial experimentou elevação de apenas 0,6%, em 2025, e 0,8%, nos primeiros oito meses de 2026, e encolheu -0,7%, na média móvel trimestral até agosto, retrato indiscutível da acentuada diminuição de embalo, conforme sugerem os cálculos do IBGE.
O número agregado ainda positivo foi determinado por bens de consumo duráveis e intermediários, que observaram acréscimo de 2,1% e 1,6%, respectivamente, com destaque para veículos e petróleo, em contraposição à estagnação verificada por semiduráveis e não duráveis de consumo, subordinados ao emprego e renda.
A maior retração (-5,3%) aconteceu em bens de capital, sobretudo em máquinas e equipamentos, traduzindo a linha descendente dos investimentos, associada `exacerbação das incertezas e aos juros, denotando fragilização do potencial de empuxe futuro.
O retrato desalentador da indústria pode ser notado pelo aumento de produção em somente 11 dos 25 ramos, 33 dos 80 grupos e 42,3% dos 789 produtos investigados pela entidade nacional de estatística.
Em sentido idêntico, a curva das principais variáveis relativas ao setor, traçada por inquérito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), sinalizou agudização das adversidades entre janeiro e agosto de 2026, com quedas de -0,2%, no faturamento real, -0,8%, no número de horas trabalhadas na produção e -0,5% no pessoal ocupado.
Houve igualmente declínio de -1,2% no grau de utilização da capacidade instalada, entre agosto de 2025 e agosto de 2026, ou de 77,8% para 76,9%, e os elementos que expressaram acréscimo, embora moderado, foram a massa salarial real (0,9%) e rendimento médio real (1,5%).
Como se vê, trata-se de fortes evidências de conformação de uma paralisia justamente do pedaço do aparelho produtivo portador dos maiores efeitos multiplicadores para frente e para trás, que, por sinal, atentando apenas para a classe de transformação, vem sofrendo de contínua e intensa desidratação desde meados dos anos 1990.
Mais precisamente, a participação da categoria de transformação no PIB, decresceu de 25%, em 1996, para 15,0%, em 2010, e para pouco mais de 12%, entre 2012-2020, esboçou leve recuperação para a média de 15%, entre 2022 e 2024, e retomou a tendência cadente em 2025, cravando 13,7% do PIB, corroborando a reprodução do fenômeno classificado pelos economistas como desindustrialização.
Não por acidente, ao anotar 46,2 pontos, em outubro de 2026, o índice de confiança do empresário industrial, da CNI – que varia entre zero e cem pontos, com a linha divisória entre otimismo e pessimismo sendo de cinquenta pontos -, chegou a 22 meses seguidos na zona de desânimo empresarial.
De seu turno, o volume de vendas do comércio varejista também vem exibindo decréscimo de ímpeto, passando de 2,8%, em 2025, para 1,7%, entre janeiro e agosto de 2026. Mesmo assim, a performance ainda se revelou discretamente favorável de maneira generalizada, à exceção do ramo de móveis e eletrodomésticos – marcado por vendas determinadas pelo crédito caro -, que recuou -0,3%, a exemplo da média móvel trimestral.
Os segmentos ainda dinâmicos do comércio foram artigos farmacêuticos, medicinais, ortopédicos e de perfumaria (9,8%), livros, jornais, revistas e papelaria (6,7%) e equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação (6,3%). Pela importância relativa no total, cumpre assinalar os desempenhos de super e hipermercados (3,8%), veículos, motos, partes e peças (3,2%) e material de construção (3,0%).
Já o quantum de serviços, depois de contabilizar acréscimo de 2,8%, em 2025 (o quinto ano seguido no azul), subiu 1,7%, nos primeiros oito meses de 2026, puxado por tecnologia da informação (8,4%) e alimentação (4,0%). As contrações mais salientes aconteceram em alojamento (-1,7%) e transportes (-1,5%).
Essencialmente, a reversão do cenário conjunturalmente menos promissor e a construção de requisitos mínimos imprescindíveis a um projeto de nação dependem de conversações e negociações maduras, entre governo e parlamento, essencialmente conservador, diga-se de passagem, a partir da reacomodação das forças de esquerda e direita.
Só assim será possível o estabelecimento de compromissos macroeconômicos, focados na obtenção de uma sintonia fina entre as orientações monetária e fiscal, na perspectiva de emissão de sinais inequívocos de estabilização da relação dívida/PIB e equilíbrio intertemporal das finanças governamentais, o que encaminha o equacionamento dos problemas de curto prazo.
Contudo, em médio e longo termo, urge perseguir a montagem e implementação da agenda de produtividade, que encolheu 0,3% ao no, na presente década, em face do inequívoco esgotamento das margens de ociosidade, especialmente do fator mão de obra, ofertado em circunstâncias de precarização do mercado, com densa informalidade.
Não surpreende que o PIB per capita brasileiro corresponda a ¼ do americano, contra 37%, em 1980, o que, para um país com reduzida retaguarda educacional, em tempos caracterizados pelo imperativo de apropriação do salto tecnológico ditado pela digitalização e inteligência artificial, em circunstâncias de envelhecimento da população e redução da massa de jovens (que cresce apenas 0,4% ao ano), em tempos de eliminação da jornada laboral de seis dias por um de descanso, pode significar barreira quase que intransponível, exigindo inclusive novas rodadas de reforma da previdência.
Só a título de ilustração, enquanto na década de 1980, Brasil e Coréia do Sul igualavam-se em produtividade, atualmente os coreanos superam os brasileiros em quase três vezes, e, no âmbito do Cone Sul, a eficiência nacional não passa da metade da dos uruguaios.
Para complicar, há também notáveis contrastes setoriais nesse quesito. Em três decênios, a produtividade por hora trabalhada na agropecuária cresceu quase 6% a.a. e a do complexo de transformação variou menos de 1% a.a., em consequência do encaixe modernizante-exportador do agro e da fraqueza da manufatura, por inúmeras razões, inclusive a acomodação da comunidade empresarial ao “velho e criticado” protecionismo.
Por isso, urge a formulação e implantação criteriosa de estratégias de aprofundamento das vantagens comparativas das vocações oferecidas por relevantes frentes de oportunidades, como economia verde, energia limpa, minerais críticos e bioeconomia.
Mas isso não basta. É preciso também promover criteriosa revisão da proteção comercial, de tratamentos privilegiados e de obstáculos regulatórios, e adensar a celebração de acordos que beneficiem as compras externas de insumos e bens de capital e oportunizem ganhos de competitividade das exportações.
É vital ainda a disponibilização daquilo que os especialistas chamam de economias externas, fundamentais à restauração de um ambiente virtuoso para os negócios, por meio da elaboração e implantação das reformas estruturais (tributária, em andamento, financeira, administrativa e patrimonial, reforçadas por novo pacto federativo e segurança jurídica).
Também serão cruciais a acomodação de despesas de transição, provocadas por modificações de padrões de concorrência, a eliminação de barreiras e subsídios e vultosos investimentos em bens públicos como infraestrutura física, educação, ciência, tecnologia e inovação.
Para a desculpa esfarrapada, amparada na descoberta de incontáveis dificuldades inerentes a um trabalho árduo, parece oportuno recordar a simples afirmação do vencedor do Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman: “produtividade não é tudo, mas no longo prazo, é quase tudo”.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








