Mercopar debate destino da Malha Sul

Mercopar debate destino da Malha Sul

Painel “O Futuro nos Trilhos” reuniu indústria, banco de desenvolvimento e governo

Na manhã desta quinta-feira (22), no palco principal do Espaço Conhecimento da 35ª Mercopar, a discussão não foi sobre máquinas, mas sobre o caminho por onde elas passam. Promovido pelo BRDE em correalização com MobiCaxias, Amesne, Bento+20, Simecs, CICS Serra, Cisga, Movergs e CIC Caxias, o painel “O Futuro nos Trilhos: Como a Malha Sul vai Conectar a Indústria Gaúcha” colocou frente a frente representantes do setor produtivo, do banco de fomento e do governo estadual, com mediação da jornalista Giane Guerra, do Grupo RBS.

O ponto de partida é um prazo. A concessão da Malha Sul, operada pela Rumo, encerra em fevereiro de 2027. Conforme foi apresentado no debate, o contrato deve passar por uma prorrogação transitória de dois anos, até 2029, enquanto se estrutura o novo modelo – hoje em audiência pública na ANTT, a de número 11/2026, que divide os 4.250 quilômetros da malha em três corredores: Paraná–Santa Catarina (1.502 km), Rio Grande (880 km) e Mercosul (1.866 km).

É nessa janela que os três estados do sul do país tentam mudar o jogo. “Nós temos uma concessão ferroviária que foi realizada há 30 anos, cujo prazo encerra em fevereiro do ano que vem. Precisamos projetar um novo modelo de ferrovias para os próximos 30 anos, que não foi contemplado a partir da proposta que o governo federal apresentou”, resumiu Leonardo Busatto, diretor de Planejamento do BRDE.

A divergência central está no dinheiro. Pelo modelo federal, o bloco do Paraná – superavitário – geraria cerca de R$ 8 bilhões em outorga, valor que cobriria um déficit de R$ 4 bilhões nos trechos de Rio Grande do Sul e Santa Catarina e ainda enviaria o excedente, na casa de R$ 3,8 bilhões, para Brasília.

Insatisfeitos, os governos do RS, de SC e do PR encomendaram ao BRDE um estudo técnico próprio, conduzido pelas consultorias Alvarez & Marsal, Lazard e pelo escritório Machado Meyer, propondo um modelo integrado e equilibrado, de valor presente líquido zero, em que os recursos gerados pela própria malha permaneçam financiando o setor ferroviário do Sul.

“A primeira premissa que a gente tem colocado é: o recurso das ferrovias fica com as ferrovias. Isso é princípio básico. Concessão não foi feita para tapar fluxo de caixa, este não é um processo para resolver problemas fiscais. A nossa proposta seria mais simplificada, com todo o recurso gerado sendo utilizado para financiar esses modelos”, defendeu Busatto. “É melhor esperar dois anos e ter um processo que nos atenda do que publicar um edital ou ter uma concessão que não vai nos atender e ficarmos 30 anos brigando”, completa o diretor de planejamento do BRDE.

“Se não tivermos a malha, as empresas não vão sobreviver”

O argumento da urgência vem da geografia econômica. A Serra Gaúcha concentra o segundo maior polo metalmecânico do Brasil e depende quase exclusivamente do transporte rodoviário, porque a única conexão ferroviária da região, que passava por Vacaria, foi interrompida pelas enchentes de 2024. Restou operante apenas o trecho de cerca de 900 quilômetros entre Cruz Alta e o Porto do Rio Grande.

“É a sobrevivência do Rio Grande do Sul e da Serra Gaúcha. A única conexão que nós tínhamos na malha ferroviária foi interrompida”, afirmou Marcelo Dondé, da Mobilização Regional Serra Gaúcha. “Se nós não tivermos a malha ferroviária, as empresas de Caxias, da Serra Gaúcha e do Rio Grande do Sul não vão sobreviver”, afirma.

Dondé mencionou um teste prático realizado em 2022, com peças plásticas fabricadas na região como prova dessa importância. “Levamos de caminhão até Sumaré e no trem até Rondonópolis, no Mato Grosso. Diminuiu o custo logístico em 40%”, conta o representante da Mobilização Regional Serra Gaúcha.

Já Ruben Bisi, diretor de Relações Institucionais da Marcopolo, vice-presidente regional do Sistema FIERGS e representante de COINFRA e SIMECS, dimensionou o custo da dependência rodoviária. “As matérias-primas são as nossas grandes importações e o nosso maior insumo é a logística. Quando dá uma enchente, só temos um aeroporto; quando dá o assoreamento do canal do Rio Grande, só temos um porto; quando dá uma greve de caminhoneiros, não temos ferrovia. A nossa ligação com o centro do país hoje é praticamente só o modal rodoviário”, analisa.

De acordo com Bisi, são transportadas 1,5 milhão de toneladas de aço por caminhão, num total de 46 mil veículos por ano nas rodovias. Com isso, o custo logístico gaúcho e brasileiro é um dos mais altos do mundo.

A crítica ao desinvestimento foi o ponto de convergência entre a indústria e o governo do estado. Clóvis Magalhães, secretário de Logística e Transportes do Rio Grande do Sul, foi direto: “Este caso foi, na verdade, uma gestão privada de uma concessão pública. Os interesses do concessionário produziram efeitos de desinvestimento contínuo. Ao longo da execução desta concessão, o interesse privado se sobrepôs ao interesse público”, avaliou.

O secretário também rejeitou a segmentação em três concessões independentes, como propõe o modelo federal. “Por que a gente entende que a segmentação é viável? A interdependência entre as concessões vulnerabiliza o modelo econômico de qualquer delas. O direito de passagem condiciona tanto o produto que vulnerabiliza a execução da concessão”, pondera.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 52 anos na área de jornalismo, sendo 50 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Há 25 anos é professora titular do curso de Jornalismo da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 19 anos de blog, mais de 50 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 21 prêmios, com destaque para Embrapa Floresta (Menção Honrosa em 2025); VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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