Os desafios econômicos do Brasil em 2021

Mesmo as menos aprofundadas apreciações da dinâmica econômica e social brasileira sugerem que, neste momento de encerramento de 2020, a população convive com a exacerbação das incertezas em relação ao futuro de curto e médio prazo, derivada da conjugação de alguns fatores de perturbação de natureza sanitária e econômica, com desdobramentos no tecido social, principalmente a abruta elevação da desocupação da mão de obra.

Dentre os componentes adversos ligados à saúde sobressai o recrudescimento da 1ª onda de casos de infecções e mortes por Covid-19 e a multiplicação das dúvidas quanto ao timing, velocidade e abrangência da aplicação dos imunizantes na população.

Esse aspecto torna-se particularmente mais grave se for considerado o autêntico desastre no combate à pandemia até aqui, que provocou, ao menos por duas vezes em dez meses, o colapso operacional do descentralizado sistema público de suporte sanitário, em consequência da ausência, em quase todos os eventos, de iniciativas de planejamento, coordenação e ações mais incisivas, por parte do poder central.

As incontáveis manifestações e atitudes irresponsáveis do chefe de estado, em especial a negação do potencial destrutivo da patologia, a desqualificação dos métodos de prevenção da doença, o permanente desprezo à evolução do conhecimento oportunizada pela ciência, o estímulo ao descumprimento das regras clássicas de distanciamento e isolamento social e o aparelhamento burocrático-militar da pasta da saúde e suas ramificações, constituem exemplos patéticos e práticos dessa anomalia.

Pela órbita econômica, é inegável que a catástrofe ocasionada pelo novo coronavírus serviu para aprofundar uma situação de instabilidade crônica, resultado da forte escalada do endividamento público e privado, vivida desde o final da década de 2000, conforme diagnóstico do professor Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Fazenda do governo Sarney.

Tal adversidade foi agravada com a implementação da Nova Matriz Econômica, intervencionista e populista, entre 2011 e 2014, ancorada no represamento político das correções de alguns preços-chave (câmbio, tarifas públicas, juros de tributos), frouxidão dos mecanismos automáticos de atualização dos salários (reajustes reais dos valores do mínimo superiores ao incremento da produtividade agregada do sistema) e absoluta indisciplina fiscal.

Não por acaso a nação desatrelou da trajetória de expansão sustentada e ininterrupta dos níveis de atividade globais, verificada entre 2011 e 2019, depois da superação dos constrangimentos causados pela quebra do subprime, segmento hipotecário de 2ª linha dos Estados Unidos (EUA), em 2008. Enquanto o produto interno bruto (PIB) mundial cresceu 3,6% ao ano, naquele intervalo, o brasileiro variou apenas 0,7% a.a.

Assim, com a retração de -4,4%, no corrente ano, prevista pelo Banco Central (BC), semelhante à queda global, projetada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil contabilizará a 4ª década consecutiva de crescimento econômico desprezível, sendo 1,6% a.a., nos anos 1980, 2,0% a.a., nos 1990, 3,6% a.a., no decênio de 2000, e 0,5% a.a., entre 2011-2020.

O mais gritante, porém, é que, apesar de saudada pelo staff palaciano, a atual marcha de reativação dos negócios repousa em elementos pontuais e transitórios, que podem desaparecer de maneira tão rápida e surpreendente como surgiram. Trata-se de episódio apoiado no consumo doméstico e reforçado pelo bônus exportador, produzido pela concatenação entre substancial depreciação do real e impulsão das cotações das commodities, puxada pela de demanda chinesa.

Ressalte-se que a elevação da absorção interna foi viabilizada primordialmente por ações ousadas, concebidas e aprovadas no âmbito do parlamento, mesmo com o frequente esperneio do ministério da Economia, com ênfase para o pagamento do auxílio emergencial às famílias vulneráveis, o socorro financeiro aos estados, o orçamento extraordinário, destinado à cobertura de gastos públicos adicionais acoplados à pandemia, e a oferta, ainda que tardia e insuficiente, de crédito subsidiado aos segmentos empresariais mais atingidos.

A despeito de a recessão brasileira não ter sido foi maior e o movimento de reação não tão vagaroso, o não aborto dessa embrionária conjuntura virtuosa e sua transformação em um ciclo de retomada duradoura exige, de um lado, o desarme da bomba fiscal, construída e consolidada desde 2008 e multiplicada pelas necessidades impostas pelo enfrentamento dos impactos do terremoto sanitário, e, de outro, a adoção de providências capazes de restabelecer o equilíbrio macroeconômico e a funcionalidade da microeconomia.

 O alcance de objetivos tão ambiciosos impõe a formulação e execução de uma agenda positiva composta por diretrizes, políticas, programas e medidas econômicas, a ser negociada entre Governo Federal e Congresso Nacional, abarcando a nova geração de reformas institucionais (tributária, fiscal, administrativa e patrimonial) e definição de um novo e eficiente arcabouço de proteção social, ou de renda mínima, essencial para assegurar a inversão da tendência de alargamento da desigualdade, ampliada desde a entrada do Sars-CoV-2 em território nacional.

Só assim será possível a progressiva inclusão cidadã dos mais de 33 milhões de brasileiros que vivem praticamente à margem dos mercados de ocupações e, por extensão, de consumo.

O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, ex-presidente do IPARDES.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná. Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social. Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos. Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas. Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005). Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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