Produtividade industrial brasileira em queda livre
Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam que a produtividade do contingente de trabalhadores ocupados no setor de transformação brasileiro decresceu pelo 2º ano seguido, em 2021. A retração foi de -4,6% contra -0,5%, em 2020, por conta dos efeitos negativos ocasionados pela pandemia de Covid-19.
Trata-se do maior declínio da série histórica do indicador, iniciada em 2000, suplantando em larga medida a performance observada em 2008, quando houve contração de -2,2%, associada a internalização dos desdobramentos do colapso financeiro internacional, precipitado com a quebra da segmento hipotecário de 2ª linha dos Estados Unidos, conhecido como subprime.
O desempenho de 2021 foi afetado preponderantemente pelo prolongamento temporal da 1ª onda de contaminações, hospitalizações e mortes derivadas do Sars-CoV-2 no país, ou, como preferem argumentar não poucos especialistas, aligação direta entre a 1ª e a 2ª fase.
Essa anomalia brasileira pode ser imputada aos múltiplos tropeços do governo federal na gestão sanitária, em especial a abdicação do papel de coordenação dos esforços de enfrentamento da progressão do vírus e hesitações na adoção de medidas de apoio à sobrevivência das empresas mais afetadas e à preservação de empregos e rendimentos das famílias.
Paradoxalmente, em paralelo aos impactos positivos do rápido avanço da vacinação da população, a despeito dos inúmeros empecilhos colocados pelo Palácio do Planalto e ministério da Saúde, a intensificação das incertezas políticas e institucionais serviu para comprometer a retomada dos investimentos em modernização e aumento de capacidade das plantas, o que cooperou decisivamente para a perda de eficiência, notadamente das organizações privadas.
O clima de insegurança, inclusive quanto à estabilidade do regime democrático, repousa na antecipação para 2021 do desenho de um embate eleitoral polarizado, travado pelos dois principais postulantes à cadeira máxima da nação, que transbordou para 2022.
A atmosfera de perplexidade vem sendo agravada por várias manifestações de aversão às regras constitucionais, proferidas por ambos, como o desejo de reversão de algumas reformas estruturais, promovidas no governo Temer, no caso de Lula, e o estúpido repúdio golpista aos resultados das urnas eletrônicas, em caso de derrota no pleito, por Bolsonaro.
Também pesou no recuo da eficiência da matriz manufatureira o surgimento de desequilíbrios conjunturais exógenos, com destaque para o desarranjo das cadeias globais de suprimento de matérias primas, peças e componentes, em razão do movimento gangorra e prolongamento da patologia.
O pior foi o arraste do comportamento frustrante contabilizado no biênio 2020-2021 para o corrente ano, maximizado por novas forças de instabilidade geradas pela escalada militar russa no território ucraniano e os novos lockdowns implantados na China, em consonância a tolerância zero contra a Covid, deliberada pelas autoridades daquele país asiático.
Mais especificamente, ao fenômeno de escassez de componentes, provocado pela retomada heterogênea da economia mundial, a partir da inversão da curva evolutiva do Novo Coronavírus, somaram-se o encolhimento do comércio global, a diminuição do abastecimento de petróleo, gás, fertilizantes, trigo e milho, e, em consequência, o recrudescimento da inflação.
Já a decretação das quarentenas na China abalou a corrente de comércio de mercadorias, com enormes atrasos no atendimento das encomendas globais de matérias primas, partes e peças e produtos finais, comprometendo a operação de inúmeras cadeias internacionais de transformação e comércio.
Houve ainda os deslizes de natureza doméstica, notadamente a alteração do dinamismo do mercado de trabalho, caracterizado pela recuperação das vagas formais com remuneração média inferior aos níveis pré-surto do Novo Coronavírus e substancial alargamento de abrangência da informalidade.
Por tudo isso, o faturamento e o rendimento médio do pessoal ocupado da indústria de transformação declinaram -6,4% e -1,6%, respectivamente, no primeiro trimestre deste ano, em confronto com igual intervalo de 2021, já com o desconto do efeito inflacionário, em razão da potencialização dos obstáculos conjunturais e a perpetuação das apreciáveis barreiras estruturais made in Brazil.
Ao seguir uma tendência análoga, a produção industrial diminuiu -4,5% nos primeiros três meses de 2022, em confronto com o mesmo intervalo de 2021, puxada por bens de consumo duráveis (-18,3%), cuja demanda é movida prioritariamente a crédito.
Enquanto isso, a produção de bens de consumo não duráveis e semiduráveis regrediu -4,4%, em resposta à erosão da massa de rendimentos das famílias, explicada pela combinação perversa entre elevado desemprego, recorde de endividamento e inadimplência e escalada da inflação.
As demais categorias de uso, que representam a base do complexo fabril, também reduziram os patamares de atividade, especificamente bens intermediários (-3,4%) e de capital ou de investimento (-2,6%), reflexo da insuficiência de confiança dos agentes. Ocorreram decréscimos em 22 dos 26 ramos, 56 dos 79 grupos, e 65,6% dos 805 produtos, acompanhados pelo IBGE.
A restauração da curva de ganhos de produtividade da indústria nacional depende, de um lado, de empenho oficial na direção da reconquista do ajustamento macroeconômico, centrado no controle da inflação e reequilíbrio das finanças públicas, e, de outro, da feitura de aprimoramentos no funcionamento dos elementos de competitividade sistêmica, como câmbio, juros, tributos, infraestrutura, burocracia e ciência, tecnologia e inovação, em linha com a 4ª revolução, assentada na robótica e inteligência artificial.
Em outros termos, a retomada sustentada da eficiência fabril requer a formação de um ambiente propício à mobilização de capitais de longa maturação, o que, por seu turno, impõem estabilidade econômica, credibilidade institucional e regulatória e emprego critérios contemporâneos de administração de negócios privados e de gestão pública.
Decerto que o cumprimento desse conjunto virtuoso de requisitos deve ser precedido pela recuperação da capacidade coordenadora, indutora e fomentadora do Estado, amparada no respeito às restrições orçamentárias e despojamento da utilização de recursos públicos no suprimento prioritário dos desejos dominados pelo clientelismo político, forjado por permanentes articulações promíscuas entre os poderes executivo e legislativo.
Até porque, a indústria constitui o núcleo do sistema capitalista, devido à geração de substanciais efeitos multiplicadores dinâmicos para frente e para trás e ao pagamento de salários médios incomparavelmente maiores que os demais setores, em praticamente todas as linhas de produção.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor e ex-presidente do Ipardes.








