Por que o mercado subestimou a força do PIB?

Gilmar Mendes Lourenço.
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro exibiu surpreendente e “imprevista” performance no 2º trimestre de 2024, a segunda maior (1,4%) em um ranking de 52 nações, atrás somente do Peru (2,4%), de acordo com compilação da consultoria Austin Rating.
Na verdade, a magnitude do acréscimo PIB, em todas as referências temporais de comparação, que vem se renovando desde o final de 2022, desnudou a fragilidade e/ou reduzida precisão das sofisticadas métricas prospectivas ou mesmo dos modelos de previsão menos complexos, que circulam por mesas e praças de palpites.
Ressalte-se que os resultados dos procedimentos de medição e predição são frequentemente oferecidos por especialistas de instituições financeiras, com o objetivo precípuo de subsidiar a descrição, interpretação e, sobretudo, projeção dos ciclos da conjuntura.
Porém, enquanto os cálculos e relatórios produzidos pelos experts sugeriam a concentração das fichas em apostas de expansão média do PIB de 0,8%, entre abril e junho, contra o período compreendido entre janeiro e março de 2024, computou-se subida de 1,4%, puxada por indústria e serviços, em simultâneo ao apreciável encolhimento da agropecuária, por conta do declínio da produção e produtividade associado ao clima inóspito.
De pronto, proliferaram revisões das exaustivas tarefas de adivinhação, que passaram a sinalizar consideráveis chances de verificação de desempenho superior a 3%, no fechamento do corrente exercício, o que suplantaria inclusive os números já bastante satisfatórios constatados em 2022 e 2023.
Essas alterações súbitas de humor dos encarregados de parte do municiamento da moldura de expectativas e escolhas estratégias dos agentes derivam de duas ordens sincronizadas de atuação e apreensão dos eventos determinantes do panorama econômico em curto prazo.
A primeira base repousa na inclinação excessivamente financeira impregnada nas estimativas, análises e predições, fortemente influenciada pela priorização de observação atenta das variáveis mais sensíveis ao curso monetário do sistema econômico.
O pior é que essa lógica prevalece em detrimento da feitura de mergulhos arriscados nas profundezas dos intrincados conflitos travados entre os atores sociais, orientadores do comportamento dos elementos da demanda agregada, formada por consumo público e privado, investimentos produtivos e exportações, com desconto das importações, que, diga-se de passagem, pressionaram para cima a formação bruta de capital fixo (FBCF).
Por essa perspectiva de argumentação, o giro da roda dependeria fundamentalmente da curva dos juros, notadamente dos primários, administrados pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), e da escalada das necessidades de financiamento do setor público.
Mais do que isso, a dispensa de identificação pormenorizada das múltiplas causas da disparada do déficit e da dívida governamentais – ignorando a garantia de recompra dos títulos públicos ou o domínio do rentismo sobre a inversão produtiva -, atendeu aos propósitos de maximização dos efeitos negativos da leitura de perigo de insolvência do estado.
É claro que a manifestação dessa impressão sombria afetou dramaticamente o arranjo das carteiras hospedeiras das modalidades de ativos de risco e beneficiou o alargamento de ganhos especulativos por operadores em moeda estrangeira, mesmo com indícios de cumprimento da meta do arcabouço fiscal, em 2024, no limite da banda entre zero e 0,25% do PIB, para o déficit primário, motivada até pela maior envergadura do PIB, contrariando os arautos da degradação das finanças, na faixa entre 0,7% e 1% do PIB.
Ao tratar esse assunto de maneira geral, no artigo “Linguagem e economia”, publicado no jornal Valor Econômico, em 03.09.2024, tendo como âncora o “domínio da finança”, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo adotou pronunciado patamar de abstração explicativa ao invocar os ensinamentos de Freud, Bertrand Russel, Keynes e Christian Marazzi.
O outro vetor de preocupação (ou falta dela) diz respeito à ausência de compreensão adequada da concepção e intensidade de aplicação dos instrumentos de política econômica, prejudicando a preparação de inferências quantitativas e diagnósticos qualitativos e a elaboração de extrapolações direcionadas à orientação do processo decisório público e privado.
Nesse particular, à primeira vista, predominaram nas aproximações do mercado equívocos grosseiros de apreciação do cenário global, abarcando o favoritismo da demagogia populista autoritária de Donald Trump, nas eleições de novembro de 2024, nos Estados Unidos (EUA), e a profecia de concretização de inevitável marcha recessiva na maior economia do planeta.
Tais premissas constituem autêntica colisão com a precificação praticamente absoluta dos conflitos na Ucrânia e Oriente Médio e as indicações de diminuição estrutural da inflação ao consumidor, nos principais estados avançados, em convergência com a meta de 2%, estipulada pelos bancos centrais. Sem contar, no caso dos EUA, a proximidade do pleno emprego dos fatores da produção e o incremento do PIB anualizado superior a 2,5%.
Contudo, os erros na captura da veracidade dos fatos não se restringiram à dinâmica internacional. Chamou a atenção o deslize na subavaliação dos efeitos do vultoso aporte de haveres públicos federais destinados à mitigação dos danos e reconstrução do Rio Grande do Sul, atingido por enchentes de dimensões históricas, em abril e maio deste ano. Os repasses da União deram fôlego aos ramos de materiais de construção, aparelhos e utensílios domésticos, móveis, veículos e serviços.
As falhas igualmente chegaram ao flagrante subdimensionamento dos fatores de propulsão da absorção doméstica, principalmente a inclinação desenvolvimentista oficial, amparada no consumo das famílias, movido à multiplicação dos recursos alocados à proteção social, sem a utilização dos expedientes pedaladas fiscais.
Lembre-se que as pedaladas, ou a ocultação, pela chamada contabilidade criativa ou do “jeitinho”, de dispêndios não programados na peça orçamentária, estiveram na raiz da derrocada do governo da presidente Dilma Rousseff (2011-2016) e da profunda contração dos negócios subsequente, não contida totalmente até a eclosão da crise sanitária, em março de 2020.
Em outros termos, as aferições não conseguiram capturar a velocidade de propagação dos impactos da reorganização das iniciativas de transferência direta de renda à população vulnerável, como Bolsa Família, Farmácia Popular, Auxílio Gás (ou Gás para Todos, como se deseja) e Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS), e do retorno da valorização do salário mínimo, ambas ajustadas às especificidades do ambiente de geração de renda e emprego pós-pandemia de Covid-19.
Igualmente relevante foi a influência de alguns aprimoramentos institucionais, como a flexibilização da legislação trabalhista, implantada em 2017, e os novos marcos regulatórios da infraestrutura, que alargaram o potencial de crescimento da economia nacional.
Todavia, os acidentes de percurso sofridos pelos nervosos entes do mercado na empreitada de fixação de pontos futuros, não devem servir de desculpa para a formulação de apressadas correções para cima dos números, acolhendo exagerados sentimentos de satisfação e conferindo selo de qualidade total à gestão macroeconômica.
Urge apreender que o extraordinário e desejado pulo do PIB permanece inferior à média mundial e das nações em desenvolvimento, inclusive da América Latina, repetindo o quadro de estagnação, com repiques de expansão, exibidos no transcorrer de mais de quatro décadas.
Isso porque, assenta-se em alavancas fracas, apesar de indispensáveis, que induzem à sustentação do presente, representado pelo consumo, e ao desprezo do futuro, subordinado aos investimentos, ora puxados quase que exclusivamente pela construção civil, e à produtividade, que, por sinal, cresceu apenas 0,3% ao ano, nos últimos quatorze anos.
Não é demais acrescentar ao espectro analítico as transformações demográficas, sintetizadas no alongamento do envelhecimento e decréscimo da fecundidade, resultando na diminuição da população em idade ativa e, por extensão, o fechamento da janela virtuosa.
Há que atentar também para a progressão da tendência de preponderância das transferências diretas de renda federais, especificamente os benefícios sociais, no orçamento das famílias, e a retração da participação das correntes de rendimentos derivados do trabalho.
Emerge ainda, para inserção nos procedimentos de perscrutação, a maior frequência de catástrofes da natureza, que, de exceção se transformaram em regra, em razão do descontrole das emissões de carbono decorrentes da persistência no emprego de combustíveis fósseis, notadamente carvão e derivados do petróleo.
São brados antigos de desastres dos ecossistemas, que ganharam gigantescas proporções com a tragédia gaúcha e a intensa e prolongada estiagem – a maior em sete décadas, conforme acompanhamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) -, que isolou comunidades ribeirinhas na Amazonia, além dos incontáveis incêndios florestais que assolam 58% do território nacional, ou 24 estados mais o Distrito Federal.
Por tudo isso, o sucesso na lição de casa pressupõe perseguir a reabilitação da eficiência do aparelho de estado – que investe menos de 2% do PIB por ano, contra os robustos 10% do PIB, no decênio de 1970 -, mediante o despojamento de discursos e posturas como “gasto é vida” – expressão proferida por Dilma Rousseff, Ministra Chefe da Casa Civil do governo Lula 1, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em fins de 2005 – e a minimização da profusão de emendas parlamentares e benesses ao judiciário.
Nunca é demais recordar que o caminho do salvacionismo e da improvisação ensejou o salto dos gastos primários do governo central de 11% do PIB, no biênio 1991-1992, para 20% do PIB, em 2016, e que a nação amarga desequilíbrio primário há uma década, que prosseguirá até 2026.
Também se deve buscar a recomposição da salutar concorrência interempresarial, prejudicada pela concessão de toda a sorte de subsídios fiscais e creditícios, protecionismo e outras regalias contraproducentes, a segmentos privados dotados de maior envergadura e/ou capacidade de intermediação de interesses pelos canais da política perniciosa.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








