Mais de 100 empresas entram em recuperação judicial por mês no Brasil

Mais de 100 empresas entram em recuperação judicial por mês no Brasil

Avanço dos pedidos revela não apenas dificuldades conjunturais, mas também problemas estruturais de gestão financeira e governança empresarial

O número de empresas que recorrem à recuperação judicial no Brasil segue em alta. Segundo o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian, mais de 100 companhias ingressam mensalmente com pedidos de recuperação judicial no país, refletindo um ambiente econômico marcado por juros elevados, pressão sobre o fluxo de caixa e aumento do endividamento corporativo.

Para especialistas, o avanço dos pedidos revela não apenas dificuldades conjunturais, mas também problemas estruturais de gestão financeira e governança empresarial. De acordo com o advogado Alberto Goldenstein, especialista em Direito Empresarial e sócio-fundador do GMP G&C Advogados Associados, existe um perfil de empresa mais suscetível a enfrentar crises severas. “Estão mais vulneráveis empresas com alto grau de endividamento, baixa margem operacional, forte dependência de capital de giro e ausência de planejamento financeiro adequado”, explica.

Segundo o especialista, a insolvência raramente surge de forma repentina. Os primeiros sinais costumam aparecer muito antes de a empresa deixar de pagar suas obrigações. “Atrasos frequentes com fornecedores, renegociações constantes de dívidas, uso recorrente de crédito de curto prazo e perda de limite bancário são sinais importantes de deterioração financeira”, afirma.

Além disso, indicadores internos como queda de margem, aumento do estoque parado, inadimplência de clientes e falta de controle contábil também costumam indicar que a operação está perdendo capacidade de sustentação. “Uma empresa pode continuar faturando bem e ainda assim estar em crise, se não gera caixa suficiente para sustentar a operação”, alerta o advogado.

Erros de gestão agravam o cenário

Entre os principais fatores que ampliam crises empresariais está a demora em reconhecer o problema. “Muitos empresários tratam uma crise estrutural como se fosse apenas um aperto momentâneo de caixa. Isso leva à adoção de soluções emergenciais que apenas postergam o problema”, explica Goldenstein.

Segundo ele, também agravam a situação a desorganização financeira e contábil, o pagamento seletivo de credores sem estratégia técnica, o acúmulo de passivos tributários, a retirada excessiva de recursos pelos sócios e a mistura entre patrimônio pessoal e empresarial. No campo jurídico, a falta de documentação organizada também pode comprometer uma eventual recuperação judicial. “A Lei nº 11.101/2005 exige uma série de documentos financeiros e contábeis. Empresas desorganizadas chegam fragilizadas ao processo”, afirma.

Compliance pode evitar crises

Para especialistas, a prevenção ainda é a principal ferramenta para evitar situações extremas. “O compliance financeiro e tributário funciona como um sistema de alerta e prevenção. Empresas organizadas conseguem identificar sinais de deterioração antes que a crise se torne irreversível”, diz Goldenstein.

Controles de fluxo de caixa, gestão tributária, análise de contratos, controle de endividamento e monitoramento financeiro constante são apontados como pilares essenciais de proteção empresarial. Além disso, empresas com maior governança tendem a transmitir mais segurança a bancos, fornecedores e investidores, o que facilita renegociações em momentos de dificuldade.

Segundo o especialista, a recuperação judicial passa a ser recomendada quando a empresa ainda possui atividade economicamente viável, mas já não consegue reorganizar o passivo apenas por negociações privadas. “O processo cria um ambiente jurídico mais organizado para renegociação coletiva das dívidas e proteção da atividade empresarial”, afirma.

Ele destaca que o timing é decisivo. “Quanto mais cedo a empresa avalia essa possibilidade, maiores tendem a ser as chances de preservação da operação”, defende.

Pequenas empresas também sofrem pressão

Embora grandes recuperações costumem ganhar destaque nacional, pequenas e médias empresas também enfrentam dificuldades crescentes, muitas vezes agravadas por gestão financeira pouco estruturada. Para Gustavo Luiz da Silva, Head de FP&A na Trio Grupo Financeiro, um dos erros mais comuns está em confundir crescimento de faturamento com saúde financeira. “Existe um ditado clássico em finanças corporativas: faturamento é vaidade, lucro é sanidade, mas caixa é realidade”, afirma.

Segundo ele, muitas empresas crescem sem planejamento adequado de capital de giro e acabam enfrentando dificuldades justamente durante a expansão. “O crescimento consome caixa. Se a empresa não conhece sua necessidade de capital de giro, ela pode quebrar crescendo”, alerta.

Especialistas defendem que pequenas empresas adotem planejamento financeiro mais estratégico e contínuo. Isso inclui projeções de fluxo de caixa, análise de margem de contribuição, criação de cenários otimista, realista e pessimista, revisão frequente do planejamento financeiro e construção de reserva de emergência empresarial. “O planejamento não pode ser uma planilha esquecida. Ele precisa ser dinâmico, baseado em cenários e conectado à realidade operacional da empresa”, afirma Silva.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *