A Copa dura 39 dias, mas o impacto financeiro pode durar quatro anos

Especialista alerta para explosão das apostas esportivas durante o Mundial de 2026 e defende uso do ciclo entre Copas como estratégia para sair das dívidas e construir patrimônio
No dia 11 de junho, quando a bola rolar na Cidade do México, o Brasil vai entrar, mais uma vez, em estado de Copa do Mundo. Serão 39 dias de jogos, bares lotados, reuniões interrompidas, camisas da Seleção espalhadas pelas ruas e uma rotina nacional totalmente voltada para o futebol.
Mas, enquanto milhões de brasileiros acompanham a maior Copa da história, agora com 48 seleções e 104 partidas distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá, um outro grupo também crescer: o do endividamento impulsionado pelas apostas esportivas e pelo consumo quase que emocional do período.
Os números já começam a preocupar especialistas em comportamento financeiro. Pesquisa do Procon-SP mostra que quatro em cada dez apostadores brasileiros afirmam ter se endividado após começarem a apostar online. O levantamento também revela que 52,4% dos entrevistados comprometeram parte significativa da renda, utilizando inclusive dinheiro guardado e empréstimos para continuar jogando.
A combinação entre futebol, emoção e promessa de ganho rápido cria um ambiente de risco elevado.
“A Copa mexe com a emoção, e dinheiro e emoção juntos são uma combinação perigosa. Muita gente vai terminar julho devendo por causa de algo que durou 39 dias. O problema nunca é torcer pelo Brasil. É deixar a emoção decidir o seu bolso, e o futebol faz isso.”, afirma Leandro Varges, educador financeiro e investidor.
Mudança de comportamento
“Mas nem tudo está perdido, você não precisa fazer parte do grupo que se endivida”, explica Leandro que acredita que o Mundial de 2026 também pode representar uma oportunidade rara de mudança de comportamento financeiro: “A lógica é simples: usar o intervalo entre uma Copa e outra como uma espécie de cronômetro patrimonial”.
A próxima edição do torneio acontece em 2030. Até lá, serão quatro anos completos, tempo suficiente, segundo especialistas, para sair das dívidas, formar reserva de emergência e iniciar uma trajetória de construção de patrimônio, mesmo começando com pouco.
“Daqui a quatro anos, ninguém vai lembrar quanto você gastou nessa Copa. Mas se você começar agora, na próxima você pode estar assistindo com uma reserva montada. Quatro anos passam de qualquer jeito. A diferença é o que você faz com eles.”, ressalta Leandro.
A cultura da recompensa imediata
O crescimento das apostas esportivas nos últimos anos mudou a relação do brasileiro com grandes eventos esportivos. Se antes a Copa movimentava consumo em bares, televisores e viagens, agora ela também impulsiona plataformas de apostas, influenciadores digitais e uma cultura baseada em retorno imediato.
Na prática, segundo especialistas, o problema não está apenas no dinheiro perdido, mas na lógica emocional criada em torno da falsa sensação de controle e ganho rápido.
Leandro explica que grandes ciclos esportivos costumam funcionar como gatilhos de impulsividade financeira.
“Na empolgação do jogo, o que era diversão vira dívida. E a ressaca financeira dura muito mais do que a festa”, afirma.
Enquanto boa parte das pessoas vive o evento apenas como entretenimento momentâneo, ele defende que o período entre Copas pode funcionar como um marco psicológico poderoso para reorganizar a vida financeira.
O plano dos quatro anos
A estratégia defendida pelo investidor é dividida em etapas simples, inspiradas na própria lógica do futebol.
No primeiro ano, o foco deve estar na construção da reserva de emergência, equivalente de três a seis meses dos gastos mensais.
“É o seu zero a zero seguro. Ninguém ataca sem uma defesa montada.”, resume.
Já nos dois anos seguintes, o objetivo passa a ser criar constância nos investimentos.
“Investir pequeno, mas todos os meses, costuma funcionar melhor do que grandes movimentos esporádicos. Patrimônio é muito mais disciplina do que velocidade.”, afirma.
No quarto ano, segundo ele, os efeitos começam a aparecer de forma mais concreta. A renda acumulada passa a gerar novos rendimentos e cria uma sensação maior de segurança financeira.
“Não é sobre virar milionário em quatro anos. É sobre sair do lugar. Quem começa hoje, mesmo com pouco, chega à próxima Copa em uma situação completamente diferente de quem só deixou o tempo passar”, diz.
Reserva financeira virou questão de sobrevivência
A preocupação ganha ainda mais peso diante da insegurança econômica enfrentada pela maior parte da população brasileira.
Pesquisa da fintech meutudo aponta que 58% dos trabalhadores já permaneceram em empregos por medo de pedir demissão, enquanto 67% afirmam que não conseguiriam se sustentar caso fossem desligados hoje.
Sem reserva, dizem especialistas, escolhas deixam de existir.
“Quando você tem reserva, você escolhe. Escolhe onde trabalhar, com quem andar, quando dizer não. A independência financeira é, no fundo, liberdade. E ela não se constrói no dia do jogo. Se constrói no treino, todos os dias, durante quatro anos.”, afirma Leandro.
Da periferia ao primeiro milhão
Leandro Varges costuma dizer que fala de planejamento financeiro a partir da própria experiência.
Filho de pai taxista, porteiro e mecânico autônomo, e de mãe manicure e dona de casa, cresceu em uma família de renda limitada e construiu patrimônio ao longo dos anos a partir de disciplina financeira e visão de longo prazo. Chegou ao primeiro milhão aos 30 anos.
Hoje, aos 41, atua como investidor nos mercados brasileiro e americano, com participação em ações, ETFs, imóveis, construção de casas nos Estados Unidos e compra de imóveis em leilões. Também atua há cerca de 15 anos na Agência A+, da qual se tornou sócio ao lado da esposa, Tatiana Marzullo.
Boa parte do trabalho atual está concentrada em palestras e treinamentos de educação financeira dentro de empresas.
Para ele, o maior erro do brasileiro continua sendo tratar dinheiro apenas como urgência, nunca como planejamento.
“A Copa vai acabar em 19 de julho. O seu plano não pode acabar junto. Quatro anos vão passar de qualquer jeito. A única pergunta que importa é: na próxima Copa, você vai estar no mesmo lugar, ou vai estar livre?”, finaliza o especialista.








