Por que falar de dinheiro é chato para os brasileiros?

Por que falar de dinheiro é chato para os brasileiros?

Endividamento recorde, baixo letramento financeiro e vergonha de olhar as próprias contas ajudam a explicar a distância da educação financeira

O brasileiro fala sobre o preço do mercado, reclama do aluguel, compara parcelas e sabe quando o salário termina antes do mês, mas ainda assim, quando a conversa sai do consumo e entra no planejamento, o dinheiro vira um assunto incômodo. A fatura fica para depois, o extrato assusta e a organização financeira parece mais uma cobrança difícil de enfrentar do que uma ferramenta de autonomia.

O tema ganha importância diante do avanço do endividamento no Brasil. De acordo com a CNC, que pesquisou o Endividamento e a Inadimplência do Consumidor, mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas em março de 2026, o maior índice da série histórica. O Serasa registrou 81,7 milhões de pessoas inadimplentes em fevereiro, enquanto o Banco Central, em levantamento feito com o Fundo Garantidor de Créditos, aponta média de 59,6 pontos no letramento financeiro da população, em uma escala de 0 a 100.

Os dados mostram que a relação do brasileiro com o dinheiro não depende apenas de renda, ela também passa por educação, hábito, emoção, linguagem e cultura. Para Adriana Ricci, educadora e planejadora financeira, o desinteresse pelo tema muitas vezes nasce da forma como ele aparece na vida das pessoas.

“Quando o dinheiro só entra na conversa como dívida, culpa, cobrança ou aperto, brigas dentro de casa, é natural que a pessoa queira fugir do assunto. Ninguém se aproxima de algo que já chega provocando dor e medo”, afirma Adriana Ricci.

A dificuldade também está na linguagem. Termos como juros compostos, custo efetivo total, reserva de emergência e orçamento mensal são importantes, mas nem sempre fazem sentido para quem precisa decidir, na prática, se paga uma conta atrasada, parcela o supermercado ou usa o limite do cartão de crédito. “Educação financeira precisa sair do sermão e entrar na vida real. Ela tem de conversar com a compra do mês, com o orçamento da casa e com as decisões pequenas que se repetem todos os dias, do cafezinho à compra daquela blusa que não está precisando”, aponta Adriana.

O dinheiro mexe também com a autoestima. Abrir a fatura não significa apenas conferir gastos, para muita gente, significa encarar escolhas feitas sob pressão, imprevistos, desejos adiados, medo de frustrar os filhos e a sensação de não dar conta. A dívida deixa de ser só um número e vira um retrato desconfortável da vida doméstica.

O avanço do crédito digital torna essa relação ainda mais complexa. Em poucos segundos, o celular disponibiliza empréstimos, cartões, limites pré-aprovados e parcelamentos.

“A oferta é rápida, mas a compreensão nem sempre acompanha a velocidade da decisão, grande parte das pessoas até sabe o valor da parcela, mas não sabe o custo total da compra, nem quanto da renda futura já está comprometida” alerta a especialista.

A herança cultural é outro ponto relevante. Em muitas famílias, salário não se comenta, dívida se esconde e investimento parece assunto reservado de quem tem dinheiro sobrando. As crianças crescem vendo adultos preocupados com as contas, mas raramente participam de conversas simples sobre escolhas, prioridades e limites.

“Durante muito tempo, falar de dinheiro foi visto como falta de educação. O problema é que não falar também forma comportamento e só quando o tema se aproximar da rotina vai deixar de ser chato e começar a ser entendido como ferramenta de escolha, proteção e futuro”, finaliza a educadora financeira com mais de 25 anos de atuação no setor, Adriana Ricci.

 

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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