Deficiências e lacunas propositivas do populismo afetivo

Gilmar Mendes Lourenço.
Depois da desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, de concorrer ao cargo de presidente da república, em outubro de 2026, expressando a preferência pela corrida, supostamente menos acidentada, em direção à reeleição ao posto local, e demonstrando incondicional submissão às vontades e ordens da família Bolsonaro, o quadro eleitoral brasileiro corroborou a ansiosamente aguardada querela dos extremos do “populismo afetivo”, travada entre os atores Lula e Flávio, sedutores de mais de 2/3 da plateia.
Com o delineamento de uma peleja acirrada, comandantes políticos de importantes esferas subnacionais regionais, localizadas no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, decidiram ensaiar presença não meramente espectadora, ainda que com a exclusiva intenção de derrubada do projeto Lula 4.
É interessante antecipar que se trata de pretensões destituídas de plataformas de pré-campanha articuladas e consistentes e, o que é mais grave, absolutamente vazias de conteúdo propositivo, que deveria acenar para o enfrentamento e equacionamento das não poucas mazelas econômicas e sociais brasileiras, restando manifestações bizarras e/ou deslocadas dos anseios da população, em curto, médio e longo prazo.
Começando com a apreciação dos pedidos de passagem regionais, emerge Minas gerais, a terceira maior grandeza econômica do país, capitaneada pelo ex-mandatário, Romeu Zema, que, dentre incontáveis atributos desfavoráveis, é dotado de uma “amazônica” dificuldade de comunicação.
Dentre as pérolas garimpadas das verbalizações de Zema sobressai a recomendação de redução das exportações à China, a simpatia pelo trabalho análogo à escravidão e a xenofóbica e separatista sugestão de constituição de uma frente de autoridades dos estados do Sul e do Sudeste contra o Nordeste, que seria “uma vaquinha de produz pouco”.
Zema atravessa ainda uma espécie de crise de identidade, notabilizada pelo enunciado de pesados reparos ao comportamento do núcleo bolsonarista, seguido de pedidos de desculpas e novas críticas, sentenciando que, no segundo turno, todos estarão abraçados.
Já a figura destacável da quarta economia, o incumbente paranaense, Ratinho Junior, ficou pelo meio do caminho da refrega, sendo escanteado pelo cacique da sua agremiação, o Partido Social Democrata (PSD), Gilberto Kassab, possuidor da proeza de integrar qualquer governo
Sobrou a Ratinho, como itens de exposição na vitrine, a admiração pelo imperador Dom Pedro II, apelidado de “o magnânimo” – simples, humilde e culto – e o êxito do ajuste fiscal local, produzido graças ao maior arrocho salarial da história dos servidores públicos ativos e inativos do estado.
O líder da quinta economia, governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, instância que contabiliza um passivo financeiro astronômico junto à União, tornou-se refém do egocentrismo e foi igualmente preterido pelo PSD, em benefício do goiano, Ronaldo Caiado.
Antes disso, Leite colaborou decisivamente, ao lado do ex-chefe de São Paulo, João Dória, para a destruição do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e, por conseguinte, a eliminação das chances de restauração sistematizada do arcabouço da centro-direita do espectro político, em linha com a doutrina do “capitalismo progressista”, elaborada pelo Nobel de Economia, Joseph Stiglitz.
Condutor do 9º maior PIB da nação, Goiás, por dois tempos de quatro anos, Caiado é um legítimo membro da velha política, com exercício de mandatos na Câmara dos Deputados e no Senado, e arauto da grande produção rural para a exportação. O ex-presidente da entidade conservadora União Democrática Ruralista (UDR) tem recomendado apenas a transposição da política regional de segurança pública ao plano nacional.
As sondagens dos principais institutos de pesquisa propiciam insinuar que, até aqui, o esquema tático das ofensivas regionais não tem logrado êxito na sensibilização ou convencimento do quase outro terço dos potenciais votantes, tidos como a massa de independentes e não simpáticos aos lados opostos predominantes.
Essa fração crescente do eleitorado, de perfil moderado, vem acusando desconforto com a apropriação das campanhas pelas turmas do “oito ou oitenta” ou “nós contra eles” e inconformismo com a seleção do “menos ruim” ou “o que rouba menos” em vez do melhor, sendo empurrada ao sufrágio branco ou nulo ou mesmo ao não comparecimento ao local de votação no dia da “festa da democracia”.
Investigação feita pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Universidade Federal do Paraná denotou 41% da população pouco convicta ou mesmo desiludida com a política tradicional e 73% acéfala de simpatia por qualquer agremiação, o que redundou, por exemplo, em 22% de abstenção nas eleições de 2022, como apontado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Retomando a predileção popular pelos polos, o demandante que representa o segundo maior produto interno bruto (PIB) da nação, a unidade federada do Rio de Janeiro – cuja reputação das forças políticas dispensa maiores apresentações e/ou descrições -, senador Flavio Bolsonaro, conhecido como filho zero um do ex-presidente, atualmente em cumprimento de prisão domiciliar humanitária temporária, sintetiza armação de ideias precárias.
Não bastasse a perene fuga do diálogo e debate programático mirando entendimentos para a construção de soluções convergentes, Flávio – enrolado em eventos nebulosos como a apropriação indevida de benefícios de assessores diretos (as famosas rachadinhas), a compra de imóveis de elevado valor com dinheiro vivo e o envolvimento com milícias e a mordida de R$ 134 milhões em Daniel Vorcaro, dono do Banco Master – tem sublinhado a vontade de feitura de “mais do mesmo”, do período 2019-2022, e reiterado declarações de retirada do velho pai da prisão.
Qualquer observação menos apaixonada permite verificar que, na desesperada empreitada de oferecer incondicionalmente a soberania, a democracia e os recursos da nação aos desmandos do autocrata, chefe de governo dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, e erguer obstáculos ao inescapável avanço das relações com o maior parceiro comercial nacional, a China, o grupo dos filhos de Bolsonaro e asseclas tem despendido incansáveis esforços para prejudicar empresas financeiras e não financeiras brasileiras, sobretudo exportadoras.
No fundo, prevalece o eterno inconformismo com os incontestáveis resultados de segundo turno do pleito presidencial de 2022 e com os desdobramentos institucionais da frustrada intentona golpista, planejada praticamente desde 2019 e levada a cabo em etapas sintomáticas, entre outubro e dezembro de 2022, e finalizada com o vandalismo na Praça dos Três poderes, na capital federal, em 08 de janeiro de 2023.
Em curiosa recaída populista, focada na busca da amenização da encorpada densidade eleitoral de Lula junto à classe de pessoas pobres, o principal candidato de oposição proferiu “juras de amor” ao programa Bolsa Família, qualificando a iniciativa como um direito adquirido da sociedade brasileira.
Nesse particular, Flávio demonstrou completa ignorância a respeito da legitimidade e abrangência das ações oficiais de proteção social, plantadas na Constituição de 1988 e organizadas e implantadas a partir dos anos 1990, que devem ser continuamente revistas e aprimoradas.
Porém, essa nobre tarefa deve acontecer mirando a criação de requisitos indispensáveis à promoção do desligamento cidadão dos beneficiários, a partir da construção de um círculo virtuoso, caracterizado pelo alcance de uma sintonia fina entre as benesses assistenciais e a provisão de educação formal universal e de qualidade, definidora da inserção no mercado de trabalho ou de incursões empreendedoras.
De seu lado, Lula parece se dar por satisfeito com a valorização das obras sociais pretéritas e atuais (engordadas por linhas de crédito a taxistas e motoristas de aplicativos, o Desenrola 2, a extinção da taxa das blusinhas e os subsídios à gasolina) e a maximização das apostas no receio coletivo do comportamento da vertente autoritária e avessa ao diálogo civilizado, subjacente à extrema-direita, personalizada em Bolsonaro.
Nesse sentido, partindo da premissa de supremacia da fidelidade sobre a rejeição dos eleitores, acumulam-se espaços em branco em matéria de novidades no mostruário lulista, especialmente quanto a questões estruturais, como o esclarecimento de atitudes concretas para a restauração do equilíbrio intertemporal das finanças públicas, a desativação da bomba previdenciária e a desobstrução do estrangulamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Tampouco há a definição clara acerca do alinhamento da assistência social e da CLT às rápidas alterações na dinâmica de ocupações, da rápida montagem da transição energética, do combate à crise climática, da promoção da sustentabilidade ambiental e do encaixe na quarta revolução industrial, centrada em digitalização e inteligência artificial (IA).
Daí a conveniente opção por guerras verbais em palanques físicos, rádio, televisão e no paranoico vale-tudo das redes digitais, a despeito dos esforços de alguns poucos intelectuais orgânicos e/ou experts do partido e/ou da frente política a ele associada.
O artigo foi escrito por Gilmar Mendes Lourenço, que é economista, consultor, Mestre em Engenharia da Produção, ex-presidente do Instituto Paranaense de Desenvolvimento econômico (Ipardes), ex-conselheiro da Copel e autor de vários livros de Economia.








