Bancos centrais retomam compras de ouro após correção dos preços

No primeiro semestre, demanda global pelo metal foi de US$ 380 bilhões
O novo relatório do World Gold Council mostra que os bancos centrais voltaram a ampliar de forma significativa suas reservas de ouro. As compras líquidas chegaram a 289 toneladas no segundo trimestre de 2026, alta de 62% em relação ao mesmo período do ano anterior e volume recorde para um segundo trimestre. No primeiro semestre, a demanda global pelo metal movimentou US$ 380 bilhões, maior valor já registrado para o período.
Após atingir o recorde de US$ 5.405 por onça em janeiro, o ouro passou por uma correção acentuada, caiu para perto de US$ 4 mil no fim de junho e se estabilizou próximo desse patamar em julho. Para o investidor brasileiro, o movimento ocorre em um ambiente de Selic em 14,25%, incertezas fiscais, ano eleitoral e oscilações cambiais, reforçando o debate sobre a exposição a ativos que não dependem exclusivamente do risco doméstico. Adriano Murta, advogado tributarista e especialista em investimentos internacionais, avalia que o comportamento do metal funciona como um termômetro da busca global por proteção.
“A valorização do ouro reflete uma combinação de fatores econômicos e geopolíticos. Entre eles estão a persistência de riscos inflacionários, as incertezas sobre o crescimento econômico global, o elevado endividamento de diversas economias e o aumento das tensões internacionais. Em momentos de instabilidade, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, e o ouro historicamente ocupa esse papel. O movimento atual demonstra que o mercado continua atribuindo ao metal uma função relevante de preservação de valor em cenários de maior incerteza.”
Diversificação de reservas
O comportamento dos bancos centrais adiciona uma dimensão estrutural ao movimento. Embora as compras do primeiro semestre tenham ficado abaixo dos níveis observados nos últimos anos, o salto do segundo trimestre mostra que autoridades monetárias continuam utilizando o ouro para diversificar reservas e reduzir a exposição a riscos financeiros e geopolíticos. Polônia e China estiveram entre os principais compradores reportados no período.
“Este ativo possui a característica de não estar diretamente vinculado à política monetária de nenhum país, o que o torna uma ferramenta importante de proteção em períodos de instabilidade financeira e geopolítica. Esse movimento também reflete uma preocupação crescente com a preservação de valor no longo prazo e com a necessidade de aumentar a resiliência das reservas nacionais”, destaca Adriano Murta.
A retomada das compras institucionais, porém, não significa que o investidor deva perseguir o desempenho passado ou concentrar recursos no metal. O recuo após os recordes de janeiro evidencia que o ouro também sofre correções relevantes e que sua função precisa ser definida dentro de uma carteira equilibrada. Para Murta, o ativo deve complementar estratégias de crescimento e renda, e não substituí-las.
“O ouro deve ser encarado como um componente complementar da carteira e não como o principal motor de crescimento patrimonial. Sua função está mais associada à proteção e à redução de risco do que à geração de retorno. O percentual ideal varia de acordo com o perfil e os objetivos do investidor, mas a lógica permanece a mesma: combinar ativos de crescimento, renda e proteção de forma equilibrada. Uma carteira bem estruturada busca eficiência não apenas nos momentos de alta dos mercados, mas também nos períodos de instabilidade.”, conclui Murta.
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