Inflação, juros e câmbio ajudam a explicar os desafios de preservar o poder de compra

Inflação, juros e câmbio ajudam a explicar os desafios de preservar o poder de compra

Da hiperinflação às stablecoins atreladas ao dólar, evolução do sistema monetário amplia o debate sobre diversificação, patrimônio e novas formas de movimentar dinheiro

A estabilidade conquistada com o Plano Real mudou a relação dos brasileiros com o dinheiro, mas preservar o poder de compra continua sendo um desafio para famílias e investidores. Inflação, taxa Selic e cotação do dólar influenciam desde o preço de produtos e o custo do crédito até o desempenho dos investimentos. Mais recentemente, stablecoins atreladas ao dólar e outros ativos digitais acrescentaram novas variáveis à discussão sobre moeda, diversificação e patrimônio.

A história econômica brasileira ajuda a dimensionar essa relação. Em 1993, às vésperas do Plano Real, a inflação acumulada ultrapassou 1.900% ao ano. O processo de estabilização foi estruturado em etapas, entre elas a criação da Unidade Real de Valor (URV), até a entrada em circulação do Real, em 01/07/1994. A nova moeda marcou uma mudança na dinâmica dos preços e ampliou a previsibilidade para o planejamento financeiro de famílias e empresas. 

“Quando o dinheiro perde poder de compra, o impacto vai além do índice de inflação. Ele aparece no consumo, no planejamento financeiro e na capacidade de preservar patrimônio ao longo do tempo. Por isso, entender como inflação, juros e moeda se relacionam é parte importante da educação financeira”, afirma Cleverson Pereira, head educacional e criador da AVO. 

Inflação, Selic e dólar: como essas variáveis chegam ao patrimônio 

Mais de três décadas depois da criação do Real, a inflação permanece no centro das decisões econômicas. No Brasil, o IPCA é a principal referência para medir a variação dos preços, enquanto a taxa Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central para buscar o controle da inflação. Quando os juros sobem, o crédito tende a ficar mais caro, o consumo pode perder força e as condições de remuneração e avaliação dos investimentos também mudam.

O câmbio acrescenta o componente externo a essa dinâmica. Desde 1999, o Brasil adota o regime de câmbio flutuante, no qual a cotação é determinada predominantemente pela oferta e demanda, embora o Banco Central possa realizar intervenções pontuais. Oscilações do dólar podem repercutir sobre importações, custos de produção, inflação e ativos financeiros.

A influência da moeda norte-americana, portanto, vai além de viagens ou investimentos no exterior. Decisões de política monetária nos Estados Unidos e mudanças nos fluxos globais de capital podem repercutir sobre o câmbio brasileiro e as condições financeiras domésticas. Essa relação ajuda a explicar como acontecimentos externos podem chegar ao poder de compra e ao patrimônio dos brasileiros.

Nesse contexto, a diversificação geográfica e cambial também passa a integrar a discussão sobre planejamento patrimonial. A análise deixa de considerar somente a rentabilidade nominal e incorpora fatores como inflação, poder de compra, exposição a diferentes moedas e distribuição de riscos entre mercados. Não se trata de estabelecer uma estratégia única de investimento, mas de compreender as variáveis que afetam o patrimônio em uma economia globalizada.

“Olhar apenas para a rentabilidade pode oferecer uma visão incompleta. O patrimônio também está exposto à moeda em que está denominado e à capacidade dessa moeda de preservar poder de compra. Inflação, câmbio e diversificação, portanto, precisam ser compreendidos de maneira conjunta”, explica Pereira. 

Stablecoins levam a discussão sobre o dólar para o ambiente digital

A digitalização do sistema financeiro acrescentou uma nova camada a essa transformação. Stablecoins são ativos digitais que buscam manter seu valor de referência em outro ativo, como moedas fiduciárias. No caso das stablecoins atreladas ao dólar, elas permitem representar e movimentar digitalmente valores referenciados na moeda norte-americana.

O avanço dessas soluções aproxima a infraestrutura de ativos digitais do sistema financeiro tradicional e amplia as possibilidades de movimentação de capital e pagamentos internacionais. A tecnologia muda, mas fundamentos como inflação, política monetária, câmbio e poder de compra continuam relevantes para compreender novas formas digitais de representação e transferência de valor.

“Stablecoins podem parecer um assunto exclusivamente tecnológico, mas a discussão começa na economia. Para compreender um dólar representado digitalmente, é preciso entender o que sustenta o valor de uma moeda, por que ela perde poder de compra e qual é o papel do dólar no sistema financeiro internacional”, afirma Pereira. 

Da moeda aos ativos digitais: inflação continua no radar 

A discussão sobre inflação e poder de compra também alcança outros ativos digitais, entre eles o Bitcoin. Embora o ativo seja associado à tese de escassez por ter oferta máxima definida em seu protocolo, seu comportamento de preço não acompanha necessariamente a inflação, especialmente no curto prazo. Para o investidor brasileiro, a análise envolve ainda fatores como juros internacionais, liquidez global, percepção de risco e câmbio.

Isso significa que inflação e Bitcoin não devem ser observados em uma relação direta de causa e efeito. Uma inflação acima das expectativas, por exemplo, pode alterar as projeções para os juros; mudanças nas taxas de juros podem afetar a disponibilidade de capital e a disposição dos investidores para assumir risco; e oscilações do dólar podem interferir no preço do Bitcoin quando expresso em reais.

“A inflação é uma peça importante, mas não deve ser analisada isoladamente. No caso do Bitcoin, juros, liquidez global, dólar e percepção de risco também ajudam a determinar o comportamento do mercado. Entender essas relações é mais importante do que tomar uma decisão com base em um único indicador”, explica Cleverson Pereira.

5 pontos para observar na relação entre inflação e Bitcoin

  1. Inflação acima ou abaixo das expectativas
    Mais do que o índice isolado, é importante observar sua relação com as expectativas do mercado. Uma inflação acima do esperado pode alterar as projeções para juros e provocar movimentos nos preços dos ativos.
  2. Trajetória das taxas de juros
    Inflação persistente pode levar bancos centrais a manter juros elevados por mais tempo. Taxas mais altas alteram as condições de liquidez e podem reduzir o apetite por ativos de maior risco, incluindo criptoativos.
  3. Decisões do Federal Reserve
    A inflação dos Estados Unidos merece atenção porque influencia as decisões do Federal Reserve sobre os juros americanos. Essas decisões repercutem sobre liquidez e fluxos de capital nos mercados globais.
  4. Inflação e valorização do Bitcoin são fenômenos diferentes
    A oferta limitada do Bitcoin é frequentemente relacionada à tese de proteção contra a desvalorização das moedas. Isso, porém, não significa que sua cotação acompanhe os índices de inflação no curto prazo. O ativo está sujeito a elevada volatilidade e a diferentes fatores de mercado.      
  5. O câmbio também importa para o investidor brasileiro
    Para quem acompanha o Bitcoin em reais, entram na equação tanto a cotação internacional do ativo quanto a relação entre dólar e real. Inflação brasileira, inflação americana, juros e câmbio podem, portanto, influenciar simultaneamente o cenário observado pelo investidor. 

Educação financeira passa pela compreensão do valor do dinheiro

Da hiperinflação brasileira aos ativos digitais, as formas de armazenar e movimentar valor mudaram, mas inflação, juros, câmbio, política monetária e inovação financeira continuam interligados. Mais do que acompanhar isoladamente a alta do dólar, uma decisão sobre a Selic ou a cotação do Bitcoin, compreender essas relações ajuda a interpretar como mudanças econômicas podem repercutir sobre renda, consumo, investimentos e patrimônio. “Do Real aos ativos digitais, as ferramentas evoluem, mas o princípio permanece: compreender o funcionamento do dinheiro é fundamental para avaliar riscos, preservar poder de compra e tomar decisões financeiras mais conscientes”, conclui Pereira. 

E-book aprofunda relação entre economia, moeda e patrimônio

Para ampliar o acesso a esses conceitos, a AVO Educacional apresenta o e-book “Do Real ao Dólar Digital — Uma jornada pela economia que afeta o seu patrimônio”, de Arthur Torres. A publicação percorre a trajetória da economia brasileira, da hiperinflação e do Plano Real aos fundamentos da política monetária, inflação, juros e câmbio, além de abordar o papel do dólar no sistema financeiro internacional.

O conteúdo também avança sobre internacionalização patrimonial, diversificação geográfica e stablecoins, conectando história, economia, geopolítica e inovação financeira. A proposta é oferecer uma visão integrada dos fatores que influenciam o poder de compra e o patrimônio, sem apresentar recomendações de investimento.

Crédito da foto: Unplash

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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