Guerra derruba a lógica do ouro e redesenha o mercado de metais

Guerra derruba a lógica do ouro e redesenha o mercado de metais

Choque do petróleo, inflação persistente e juros elevados nos EUA ajudam a explicar por que ouro e prata recuam enquanto o cobre enfrenta pressão da demanda e novas ameaças tarifárias

A guerra entre Estados Unidos e Irã produziu um movimento pouco usual no mercado financeiro, ao invés de provocar uma corrida sustentada para o ouro, tradicionalmente procurado em períodos de instabilidade geopolítica, o conflito foi acompanhado por uma forte correção dos metais preciosos. Desde os ataques conjuntos de EUA e Israel ao Irã, em 28 de fevereiro de 2026, o choque no petróleo e o fechamento do Estreito de Hormuz, corredor estratégico para o comércio mundial de energia, alteraram as expectativas para inflação e juros e, com elas, a precificação de ouro, prata e cobre.

Para Beny Fard, analista geopolítico & econômico e sócio da consultoria Segundo Minuto,  o episódio mostra que a relação histórica entre guerra e valorização dos metais de proteção não funciona de forma automática. Com o Brent acima de US$ 109 por barril e a inflação americana resistente, o Federal Reserve permanece sob pressão para manter uma política monetária restritiva, fortalecendo o dólar e elevando o custo de oportunidade de ativos que não oferecem rendimento.

“Em regimes de inflação elevada com bancos centrais restritivos, a correlação entre guerra e ouro se inverte. A normalização virá quando a cadeia causal se reverter: desaceleração do petróleo, inflação em queda, Fed com espaço para afrouxar, juros reais menores e redução do custo de oportunidade do ouro”, afirma Fard.

O fenômeno ajuda a explicar o chamado “macro override”, situação em que as condições macroeconômicas se sobrepõem temporariamente à função tradicional de proteção atribuída aos metais preciosos. Em março, mesmo diante de um conflito armado, o ouro recuou 14,6%, no pior desempenho mensal desde outubro de 2008.

Ouro cai mesmo em meio à tensão geopolítica

Depois de avançar 56% em 2025, o ouro atingiu US$ 5.595 por onça em janeiro de 2026, nova máxima histórica. O início do conflito ainda provocou uma reação imediata, levando a cotação de US$ 5.296 para US$ 5.423, mas o movimento perdeu força rapidamente.

Em 27 de julho, o metal era negociado entre US$ 4.077 e US$ 4.087 por onça, aproximadamente 27% abaixo do pico. Para Fard, porém, a correção não elimina os fundamentos de longo prazo.

Um dos sinais está na atuação dos bancos centrais. O Banco Central da China adicionou 14,93 toneladas de ouro às reservas em junho, maior volume mensal desde outubro de 2023, completando 20 meses consecutivos de compras. O movimento ocorreu justamente durante o pior trimestre do metal em 13 anos.

No curto prazo, as atenções estão voltadas para a reunião do FOMC. A manutenção dos juros, cenário ao qual o CME FedWatch atribuía probabilidade de 80%, poderia abrir espaço para uma recuperação técnica dos metais preciosos. Uma eventual alta, por outro lado, ampliaria a pressão sobre as cotações.

Prata perde metade do valor depois de liderar 2025

Se o comportamento do ouro chama atenção, a correção da prata foi ainda mais intensa. O metal encerrou 2025 com valorização de 128%, superando ouro, Bitcoin e Nasdaq 100, e alcançou US$ 121,62 por onça em janeiro deste ano.

Seis meses depois, era negociado entre US$ 58 e US$ 59, queda de aproximadamente 52% em relação à máxima.

A explicação passa pela natureza dupla da prata. Além de funcionar como ativo financeiro, o metal é matéria prima para painéis solares, veículos elétricos e outras aplicações industriais. Um cenário que combina juros elevados e risco de desaceleração econômica, portanto, pode atingir simultaneamente suas duas fontes de demanda.

Há, no entanto, um contraponto no mercado físico. O ano de 2026 marca o sexto período consecutivo de desequilíbrio entre oferta e procura, com déficit estimado em 46,3 milhões de onças, ante 40,3 milhões em 2025. A produção das mineradoras é projetada em 844 milhões de onças, praticamente estável.

Outro indicador acompanhado é a relação entre ouro e prata, atualmente próxima de 69 para 1. Em ciclos anteriores, níveis elevados desse indicador foram seguidos por períodos de desempenho relativo mais forte da prata.

Cobre troca guerra por risco tarifário

O cobre apresentou uma trajetória diferente. O fechamento do Estreito de Hormuz, em 4 de março, bloqueou aproximadamente 40 mil toneladas mensais de cátodo refinado destinadas ao Golfo e isolou cerca de 114 mil toneladas anuais de exportações iranianas pelo porto de Bandar Abbas.

A combinação entre restrições de oferta e aumento dos custos de energia levou o metal a superar US$ 13 mil por tonelada na London Metal Exchange em abril, então uma máxima histórica.

Após o Acordo de Islamabad, em 17 de junho, e a reabertura parcial de Hormuz, a cotação perdeu força. Em 27 de julho, o cobre operava a US$ 6,30 por libra, ainda com valorização de 9,3% no ano, mas distante do pico.

A preocupação agora passa também pelos estoques da LME, que atingiram o maior nível em oito anos, indicando enfraquecimento da demanda. Ao mesmo tempo, surge outro fator de risco: a possibilidade de o governo Trump retomar tarifas sobre as importações americanas de cobre refinado.

Juros podem pesar mais que a própria guerra

Para os próximos 90 dias, Fard identifica três variáveis capazes de definir a trajetória dos metais: a decisão do FOMC de 28 e 29 de julho e o tom adotado pelo presidente Kevin Warsh, a estabilidade do Acordo de Islamabad e o comportamento da inflação americana.

Em um cenário de manutenção dos juros acompanhado de discurso neutro, a análise aponta espaço para recuperação técnica do ouro em direção à faixa de US$ 4.400 a US$ 4.600 e da prata para US$ 68 a US$ 72. Para o cobre, os estoques da LME e os indicadores da indústria chinesa devem continuar no centro das atenções.

A leitura do ciclo mostra uma mudança importante para investidores acostumados a associar automaticamente tensão geopolítica à valorização do ouro. Quando uma guerra provoca choque de energia, pressiona a inflação e mantém os juros elevados, seus efeitos podem percorrer justamente o caminho contrário.

“O mundo pode continuar vendo demanda estrutural por ouro, prata e cobre, mas isso não significa que os preços respondam imediatamente. Enquanto os juros reais permanecerem elevados, o ambiente macroeconômico continuará tendo força para se sobrepor à narrativa geopolítica”, conclui Fard.

Mirian Gasparin

Mirian Gasparin, natural de Curitiba, é formada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e pós-graduada em Finanças Corporativas pela Universidade Federal do Paraná.Profissional com experiência de 50 anos na área de jornalismo, sendo 48 somente na área econômica, com trabalhos pela Rádio Cultura de Curitiba, Jornal Indústria & Comércio e Jornal Gazeta do Povo. Também foi assessora de imprensa das Secretarias de Estado da Fazenda, da Indústria, Comércio e Desenvolvimento Econômico e da Comunicação Social.Desde abril de 2006 é colunista de Negócios da Rádio BandNews Curitiba e escreveu para a revista Soluções do Sebrae/PR. Também é professora titular nos cursos de Jornalismo e Ciências Contábeis da Universidade Tuiuti do Paraná. Ministra cursos para empresários e executivos de empresas paranaenses, de São Paulo e Rio de Janeiro sobre Comunicação e Língua Portuguesa e faz palestras sobre Investimentos.Em julho de 2007 veio um novo desafio profissional, com o blog de Economia no Portal Jornale. Em abril de 2013 passou a ter um blog de Economia no portal Jornal e Notícias. E a partir de maio de 2014, quando completou 40 anos de jornalismo, lançou seu blog independente. Nestes 16 anos de blog, mais de 35 mil matérias foram postadas.Ao longo de sua carreira recebeu 20 prêmios, com destaque para o VII Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º e 3º lugar na categoria webjornalismo em 2023); Prêmio Fecomércio de Jornalismo (1º lugar Internet em 2017 e 2016);Prêmio Sistema Fiep de Jornalismo (1º lugar Internet – 2014 e 3º lugar Internet – 2015); Melhor Jornalista de Economia do Paraná concedido pelo Conselho Regional de Economia do Paraná (agosto de 2010); Prêmio Associação Comercial do Paraná de Jornalismo de Economia (outubro de 2010), Destaque do Jornalismo Econômico do Paraná -Shopping Novo Batel (março de 2011). Em dezembro de 2009 ganhou o prêmio Destaque em Radiodifusão nos Melhores do Ano do jornal Diário Popular. Demais prêmios: Prêmio Ceag de Jornalismo, Centro de Apoio à Pequena e Média Empresa do Paraná, atual Sebrae (1987), Prêmio Cidade de Curitiba na categoria Jornalismo Econômico da Câmara Municipal de Curitiba (1990), Prêmio Qualidade Paraná, da International, Exporters Services (1991), Prêmio Abril de Jornalismo, Editora Abril (1992), Prêmio destaque de Jornalismo Econômico, Fiat Allis (1993), Prêmio Mercosul e o Paraná, Federação das Indústrias do Estado do Paraná (1995), As mulheres pioneiras no jornalismo do Paraná, Conselho Estadual da Mulher do Paraná (1996), Mulher de Destaque, Câmara Municipal de Curitiba (1999), Reconhecimento profissional, Sindicato dos Engenheiros do Estado do Paraná (2005), Reconhecimento profissional, Rotary Club de Curitiba Gralha Azul (2005).Faz parte da publicação “Jornalistas Brasileiros – Quem é quem no Jornalismo de Economia”, livro organizado por Eduardo Ribeiro e Engel Paschoal que traz os maiores nomes do Jornalismo Econômico brasileiro.

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